Mês: novembro 2010

Podcast Episódio 06: Formação de professores

Depois tem um tempo sem gravar, estamos de volta com o tema “Formação de Professores”. Eu e a Prof. Dilma Mello conversamos sobre o tema passando pela graduação, pós-graduação e  também pelos Institutos e cursos de formação continuada e de extensão. (Falamos brevemente também sobre a formação do psicólogo).

*Pedimos desculpas por alguns problemas no som, durante a gravação, pois gravamos em um local que não facilitou a edição posterior.

Filmes que tratam de deficiência

Sugestões de filmes e documentários com temáticas da Educação Especial e da Inclusão.*

As atividades com filmes tem sido uma das estratégias utilizadas em cursos de formação profissional, assim como um meio de sensibilizar as pessoas quanto a questões voltadas para a deficiência e a inclusão. Neste sentido, estamos disponibilizando uma lista de filmes com uma pequena sinopse como sugestão. Não deixe de sugerir a amigos e profissionais da área, assim estaremos ajudando, de alguma forma, a sensibilizar as pessoas quanto a questões voltadas para temas ligados à diferença/diversidade humana.

Nos ajude a aumentar essa lista com novas sugestões.

1. Aforçadeumcampeão-umjovemdeumafamíliaproblemáticaqueencontroua força interior para se tornar um campeão.

2. A filha da luz – associação entre autismo de uma criança de seis anos com poderes extraordinários gera o seu envolvimento com uma seita religiosa.

3. A história de Carrie Buck – garota com deficiência mental fica grávida e é indicada pela instituição para ser esterilizada.

4. A história de Ryan White – adolescente, portador do vírus HIV, enfrenta dificuldades advindas da sua condição e das interações sociais.

5. Além dos meus olhos – aborda percepções e sentimentos de deficientes visuais. 6. Almas gêmeas – amizade entre duas garotas envolve a fusão e dificuldades de limites.

7. A música e o silêncio – uma jovem é a ponte de comunicação entre os pais surdos e o mundo exterior, em uma pequena cidade do Sul da Alemanha.

8. Ao mestre com carinho – alunos com problemas de aprendizagem se transformam a partir de uma abordagem pedagógica diferenciada.

9. À primeira vista – homem adulto cego recupera a visão após intervenção cirúrgica e precisa aprender a “ver” ou interpretar os estímulos que passa a perceber.

10.A prova – relata experiências e percepções de um homem adulto cego.

11.Asas da liberdade – interação entre adultos jovens com problemas de comportamento e seus familiares.

12.À sombra do piano – mostra a relação problemática de uma mãe, frustrada pela impossibilidade de seguir a carreira artística, com suas filhas, sendo uma delas autista; esboço da diferença entre um possível tratamento hospitalar e a relação familiar com a jovem autista.

13.Borboleta de Zargosk (Série “Os transformadores”) – documentário veiculado pela TV Cultura sobre a escola russa para crianças com deficiências múltiplas, fundamentada nos pressupostos da Psicologia de Vygotsky (produzido pela BBC, Londres, 1989).

14.Cegos, surdos e loucos – um homem surdo que é dono de uma banca de jornal e seu empregado, que é cego, se metem em apuros após uma tentativa de assassinato ocorrer perto do local em que trabalham.

15.Código para o inferno – um garoto autista de nove anos consegue decifrar códigos secretos de uma instituição de segurança que procura eliminá-lo.

16.Conrack – desafios e desempenho de um professor em uma comunidade distanciada da cultura urbana e letrada, com alunos considerados “problemas”.

17.Dominick e Eugene – trata do relacionamento entre dois irmãos e dos estereótipos sobre a deficiência mental.

18.Encontrando Forrester – relacionamento de um jovem com seu ídolo esportivo, que teve impacto marcante em sua história de vida (EUA, 2000).

19.Experimentando a vida – aos 28 anos Molly, que é autista, volta a viver com seu atarefado irmão, após deixar a instituição onde morava. A relação entre os dois é difícil, até que Molly aceita submeter-se a um tratamento revolucionário.

20.Feliz Ano Velho – caso de deficiência física adquirida em que são externadas as percepções mais subjetivas de seu portador. Enfoca a superação da negação e da depressão, causadas pela perda de mobilidade e da autonomia do paraplégico.

21.Filhos do Silencio – apresentação de comportamentos, interações e possibilidades de adultos com deficiência auditiva.

22.Forest Gump – homem relata sua história, levando-nos a questionar a deficiência mental.

23.Gênio indomável – rapaz com bom desempenho em matemática enfrenta adversidades e busca organizar sua vida.

24.Gilbert Grape – aprendiz de sonhador – rapaz cuida do irmão com deficiência mental. O filme mostra algumas dificuldades dos familiares e da pessoa com deficiência mental.

25.Janelas da Alma – documentário brasileiro com depoimentos de portadores de deficiências visuais.26.Johnny vai à guerra – sensações e pensamentos de um jovem mutilado pela guerra, que se encontra hospitalizado, sem ver, ouvir, falar u se mover.

27.Lágrimas do silêncio – relata um caso de deficiência auditiva adquirida em uma jovem atriz de teatro.

28.Loucos de amor – um jovem com uma espécie de autismo se apaixona por uma mulher que tem o mesmo problema e que freqüenta seu grupo de ajuda. Ele gosta e precisa seguir um padrão em sua vida, para que possa levá-la de forma normal. Entretanto ao conhecer Isabelle em seu grupo de ajuda tudo muda em sua vida, por estar apaixonado por ela.

29.Mentes perigosas – alunos de gueto americano, estigmatizados pelo racismo e com condutas hostis e agressivas, encontram formas diferenciadas de interação com uma professora de literatura.

30.Mentes que brilham – garoto com talentos especiais e excelente desempenho escolar vai para a universidade e convive com adultos, vivenciando conflitos.

31.Meu filho meu mundo – comovente e delicada história de um casal que luta para tratar de seu filho autista, apesar dos diagnósticos médicos desfavoráveis.

32.Meu mestre, minha vida – escola envolvida com violência, tráfico de drogas e racismo passa a ser o desafio de um novo diretor.

33.Meu nome é rádio – história verídica de um jovem americano com deficiência mental que se tornou famoso no mundo dos esportes; ênfase nos relacionamentos interpessoais e nas mediações de seus instrutores.

34.Meu pé esquerdo – caso de paralisia cerebral em que o portador de necessidades especiais se torna uma figura central na estrutura familiar. Enfoca interações familiares e sociais, além de atendimentos especializados pelos quais passa o sujeito.

35.Mr. Holland, adorável professor – músico torna-se professor e, posteriormente, pai de um garoto surdo. Mostra as dificuldades de comunicação entre um pai ouvinte e um filho surdo.

36.Nascido em 4 de julho – soldado retorna paralítico da Guerra do Vietnã. Questionamento da guerra.

37.NELL – isolamento social: jovem, encontrada vivendo afastada da cidade, tem comportamentos inesperados após interações sociais.

38.O amor é cego – visão cômica sobre os valores sociais e as dificuldades com as diferenças.

39.O encantador de cavalos – adolescente sofre uma amputação após acidente e procura retornar as atividades por meio da equitação.

40.O enigma de Kaspar Hause – trata do isolamento social e da falta de construção de funções básicas do sujeito, com ênfase nas relações entre linguagem e pensamento. Baseado em relato histórico do preceptor de Kaspar Hause, de 1832, na Alemanha.

41.O filho da noiva – relações familiares em torno de uma mulher com problemas de memória.

42.O milagre de Anne Sullivan – história de Helen Keller, caso real de jovem com deficiências múltiplas, e sua interação com a educadora Anne Sullivan.

43.O oitavo dia – mostra a sensibilidade e a afetividade de um jovem com síndrome de Down e as alterações que as suas capacidades provocam nos outros.

44.O óleo de Lorenzo – pais procuram descobrir acura para seu filho, portador de uma doença rara: a adrenoleucodistrofia (ADN).

45.Os segredos de Adam – garoto autista apresenta comportamentos intrigantes.

46.Os melhores dias de nossas vidas – Rory é um jovem rebelde, bem humorado, que fala o que pensa, não liga para as convenções sociais, nem para nada, nem para ninguém. Seu oposto é Michael, que sempre levou uma vida completamente sem graça e enfadonha. Estas duas pessoas tão diferentes têm em comum a deficiência. Rory é tetraplégico e Michael tem paralisia cerebral. Descontentes com as “regras da vida”, estes dois amigos inusitados planejam deixar a instituição onde estão internados com a ajuda de Siobhan para que eles finalmente atinjam seus objetivos: viver a vida em toda a sua intensidade.

47.Os pais dos surdos – a que se assemelha o mundo para milhões de pessoas que, desde seu nascimento, vivem no silêncio? O filme nos faz penetrar e descobrir esse país longínquo, reinado pelos sistemas de comunicação específicos, onde tudo passa pelo olhar e pelo toque.

48.Perfume de mulher – apresentação de comportamentos e possibilidades de adulto com deficiência visual.

49.Ray Man – exposição dos comportamentos e possibilidades de um adulto com a síndrome do autismo.

50.Meu filho, meu mundo – intervenções intuitivas de uma mãe, a partir de seu relacionamento com o filho autista.

51.Sempre amigos – pessoas muito diferentes que descobrem possibilidades de boa interação.

52.Shine – brilhante – um jovem talentoso na música precisa enfrentar o pai dominador e seus próprios problemas psicológicos em busca da perfeição.

53.Simples como amar – uma garota com problemas mentais arranja um namorado. O relacionamento é desaprovado por sua mãe protetora, o que faz com que a garota queira cada vez mais liberdade em sua vida.54.Stanley e Ìris – homem adulto enfrenta dificuldades por ser analfabeto.

55.Tempo de despertar – médico se envolve se envolve na investigação de uma doença (encefalite), que altera o comportamento dos sujeitos, e se dedica ao acompanhamento experimental de intervenções terapêuticas. Baseado na obra do neurologista Oliver Sacks.

56.Tortura silenciosa – uma professora de educação física surda não percebe quando um de seus alunos esconde uma moeda, rara e roubada, em sua bolsa. Logo depois, o rapaz morre na explosão de seu carro e um policial corrupto (Sheen), que sabia do roubo, começa a persegui-la, tentando reaver a moeda. Desesperada, a professora pede a ajuda a um amigo do aluno morto, que passa a protegê-la e decide denunciar o caso ao F.B.I.

57.Uma janela para o céu I e II – baseado na história real de Jill Kinmont, trata-se de história passada em 1955, quando a jovem Jill, então com 18 anos de idade, revela-se um enorme talento para o esqui e aposta certa para vencer os Jogos Olímpicos de Inverno de 1956. Mas acontece uma fatalidade: Jill por pouco não perde a vida após uma queda brutal na neve, mas fica paralisada do pescoço para baixo. Ainda que esteja impedida de praticar esportes para sempre, Jill agora tem uma outra batalha: viver e conviver com sua deficiência. Para isso ela vai contar com a ajuda de amigos, dos pais e parentes.

58.Uma lição de amor – homem com deficiência mental luta na justiça pela guarda da filha.

59.Uma mente brilhante – homem com excelente desempenho em matemática apresenta problemas mentais.

60.Mar adentro – Ramón era um mecânico de barcos que aos 20 anos já dava a volta ao mundo e aos 26, num mergulho em águas rasas, tornou-se tetraplégico e instalou-se para sempre numa cama, entre as quatro paredes torturantes de seu quarto. Luta na justiça para legalizar a eutanásia e finalmente poder “morrer com dignidade”.

* Material elaborado por Sônia Bertoni em dezembro de 2009.

Ofício do Psicanalista: formação vs regulamentação

Um dos textos mais acessados aqui no meu blog fala da formação do psicanalista. Um assunto que sempre desperta muito interesse e muitas dúvidas.

Hoje mesmo eu estava lendo esse texto do Psicologia dos Psicólogos, “Pastores evangélicos e… psicanalistas?” e voltei a pensar no assunto.

O livro da Sonia Alberti vem para contribuir nessa discussão.

“Este livro é, antes de mais nada, um testemunho do trabalho que os psicanalistas reunidos na Articulação das Entidades Psicanáliticas tiveram, nos últimos oito anos, para fazer frente a ataques de instituições que deturpam completamente os conceitos da psicanálise em cursos e programas de treinamentos e que os divulgam sem o menor rigor. mas expõe, tambpem, a público, a possibilidade do encontro de psicanalistas brasileiros de diferentes instituições que se sentaram juntos em uma mesma mesa de debates para enfrentar esse ataque e conversar entre si sobre as dificuldades e esperanças do crescimento desse discurso que se sustenta, sobremaneira, na ética do psicanalista. Este livro convoca ao debate! Sonia Alberti.”

Ensinando Homofobia

Reproduzo aqui para vocês um texto muito bom sobre homofobia. (blog e texto na íntegra aqui – Obrigada pela autorização Lilah!)

Um menino americano de cinco anos, chamado Boo pediu a mãe para se fantasiar de Daphne, a personagem de Scooby Doo, no Halloween. A mãe não viu nenhum problema no pedido, além do fato de que ele poderia mudar de ideia, como qualquer criança de cinco anos. Então ela esperou alguns dias para comprar a fantasia, até ter certeza que era isso mesmo que ele queria. No dia da festa ela levou seu menino para a escola, mas do alto do sua vida de apenas cinco anos, Boo expressou medo de ser ridicularizado. Veja bem, ele não tinha dúvidas que ele queria usar a fantasia, ele só temia que outros não gostassem da escolha que tinha feito ele tão feliz alguns dias antes. Sua mãe o assegurou que o Halloween é um tempo de fantasias e que ninguém veria problema na sua vestimenta tão linda. Ela estava errada e Boo estava certo.

Várias mães expressaram desgosto pela escolha da fantasia de Boo. Pelo apoio que sua mãe deu, para que ele se vestisse do jeito que queria. Alegaram que não era direito ou que não ficava bem. E que Boo seria vítima de chacota de outras crianças. Mas veja bem, naquele momento Boo brincava com outras crianças de quatro e cinco anos que não tinham visto problema nenhum. Ah sim, elas vão aprender a ver problema nisso. Com suas mães e pais. As mesmas que estavam naquele momento criticando a mãe de Boo, por simplesmente ter permitido que uma criança escolhesse uma fantasia de Halloween.

O post que essa mãe escreveu tem mais de 44mil comentários. Muitos de apoio e vários de crítica. Como ela mesmo diz, talvez Boo seja gay. Talvez não seja. Isso não faz diferença para ela, que se preocupa em criar uma criança feliz que será um adulto bem resolvido e equilibrado. Ela não está preocupada em dizer a Boo que sua vontade de se vestir de Daphne, num feriado cujo ponto alto são fantasias, é errada, principalmente por que aos cinco anos Boo ainda está formando sua identidade de gênero e sua sexualidade. O que ela quis dizer, e disse, ao comprar aquela roupa é que seja que caminho ele seguir, ela vai estar lá.

O outing do Lucas foi logo depois do seu aniversário de 17 anos. E guardadas as devidas proporções eu ouvi coisas bem semelhantes de parentes, amigos e até de professores. Que eu estava “incentivando” ele a ser gay por ter aberto minha casa para amigos e namorados. Que eu devia ser mais rígida e menos “moderninha”. Que sendo tão novo era possível ainda “consertar o problema”. Claro que junto disso vinham também as recriminações sobre eu ter sido muito mole na educação dele. Ou de não ter tomado cuidado com as companhias. Que isso podia ser uma fase e que eu devia incentivá-lo a namorar uma menina, por que ele não podia saber se era gay sem ter namorado meninas antes. Como se algum hétero precisasse namorar meninos, para descobrir que gosta mesmo de meninas.

São essas atitudes que expõe claramente o quanto nossa sociedade é homofóbica. Ok, então seu filho é gay. Você já errou em algum lugar e fez ele virar gay, não precisa agora incentivar isso, né? Tenha um pouco de respeito por nós, cidadãos de bons costumes, e ensine seu filho que lugar de gay é onde eu não precise olhar para ele. Preconceito não é inato. Pessoas não nascem preconceituosas. Minha neta não tem nenhum problema com a sexualidade do tio, ela ri pra ele com o mesmo entusiasmo que ri para qualquer um que dê atenção a ela. O bebê de 2 anos filho do vizinho também. Infelizmente esse bebê de 2 anos vai aprender com o pai, um homofóbico de carteirinha, a não sorrir mais para o Lucas.

Muita gente que me aplaudiu quando eu “aceitei” o filho adolescente gay, me crucificou anos depois quando o Mario foi morar conosco. Muita gente que diz admirar minha relação com o Lucas, leva essa admiração apenas até a página dois. Tudo bem você aceitar o seu filho gay, mas não acha que é demais deixar seu filho caçula sair com ele e o namorado? Ou permitir que eles se beijem na frente dele? Isso não é legal para uma criança assistir. Você pode respeitar, mas não devia ficar incentivando esse comportamento ou trazendo os amigos para dentro de casa. Ou ficar conversando sobre o assunto com ele. Ou comprando camisinhas. Ele devia respeitar a família. Ou em outras palavras, você devia fingir que esse assunto não existe e deixar ele lá. Lá é o lugar que essa sociedade diz que gays deviam ficar.

O menino dessa história tem sorte de ter uma mãe que entende que, vestir-se de Daphne não vai determinar sua sexualidade no futuro. Que está disposta a deixá-lo experimentar e buscar a construção de sua própria identidade, sem limitações machistas e homofóbicas. Assim como não é a sexualidade do Lucas que vai influenciar, moldar ou contaminar a sexualidade do Saulo ou da bebê que eu estou esperando. Talvez, apenas desse a eles mais segurança para falar, por crescerem em um ambiente onde a homossexualidade é só um aspecto da personalidade.

Eu não poderia consertar o Lucas. Por que não tinha nada quebrado com ele. A mãe do Boo não está incentivando seu filho a ser gay ou travesti, ela está apenas respeitando uma escolha de fantasia do Halloween! Que aliás, provavelmente seja só isso: uma fantasia de Halloween. A maldade está na cabeça de quem transformou uma festa e uma brincadeira de criança, numa declaração de homofobia. E de quem ensina seus filhos que o diferente é para ser hostilizado ou ridicularizado. De quem perpetua uma sociedade machista, homofóbica e misógina onde um garotinho fantasiado de Daphne vira gay por ousar brincar.

Abuso ou Preconceito?

Falar de educação e sexualidade tem sido minha prioridade no ano de 2010. Fiz uma série de palestras e aulas sobre o tema, tanto em escolas públicas como em cursos de pós-graduação e formação de professores. Nesses momentos, tento tratar a questão pelo olhar da sexualidade e não do sexo, pois é comum tomarmos um pelo outro, ou pensar tudo como uma coisa só. Outra tentativa é de discutir questões importantes como homossexualidade, sexualidade nas deficiências e abuso sexual, tentando propor um novo olhar que passa pelo afeto e não pelo tradicional preconceito que encontramos tão enraizados nas pessoas.

Com essas experiências aprendi muitas coisas ao longo desse ano. Aprendi o quanto é difícil mudar um conceito e seus reflexos sociais. Aprendi também que quando se fala de sexualidade nada é simples e claro. A subjetividade é tanta que fica difícil estabelecer o que é certo e errado quando tratamos de desejo e do gozo (psicanalítico). Tudo depende do contexto (história, pessoas envolvidas, momento, etc), e por isso que hoje vou tentar falar um pouco do caso “do dia”.

“Jovem de 18 anos é preso por beijar garoto de 13 em cinema de shopping”

Notícia completa aqui.

Quando discuto abuso sexual infantil e adolescente, faço uma linha do tempo que começa no conceito de família e infância. Acredito que pensar as evoluções culturais e sociais são extremamente importante para pensar o presente e tudo que têm acontecido e se tornado corriqueiro socialmente. Em resumo, podemos pensar que o conceito de infância foi criado (já que antes elas eram vistas apenas como pequenos adultos), e depois dele veio o conceito de adolescência. Porém, com as evoluções sociais, a infância anda sendo achatada e precocemente transformada em adolescência. Crianças de 7 anos, por exemplo, que ainda estão longe da puberdade já mostram comportamentos adolescentes. E nossa sociedade como um todo tem apoiado essa “evolução” com uma naturalidade que assusta.

Vamos pensar juntos: se crianças com 7, 8 anos já se comportam como adolescentes e têm uma relação antecipada com as questões de sexo e sexualidade, não seria natural que com 13 anos elas se sentissem experientes e espertas o suficiente pra saber o que desejam e o que deixam de desejar? Nossa sociedade nos evidencia isso de diversas maneiras, como por exemplo o número de adolescentes grávidas com idades cada vez menores, aumentando diariamente os gráficos na área da saúde. Programas de tv como Malhação mostram que as crianças já se preocupam em namorar ou gostar de alguém. Nesse mesmo programa, jovens ainda menores se casam e descasam, engravidam e abortam e por ai vai…

Vamos adicionar mais uma pimenta nesse olhar: nós sabemos que nossa sociedade é ainda muito preconceituosa. Quando trabalho com os professores percebo como eles (que refletem nossa sociedade) aceitam namoro na escola (de meninas entre 13/14 anos com meninos mais velhos, 17/18 anos), mas quando alguma proximidade acontece entre dois meninos, as atitudes variam de nojo, incompreensão e até mesmo ao ato de chamar os pais dos meninos para dizer que algo de errado está acontecendo. Como podemos ver nesses vídeos patrocinados pelo Ministério da Cultura, Homofobia na escola I e Homofobia na escola II, certos comportamentos são socialmente aceitos para casais heterossexuais e são proibidos para casais homossexuais. Assim, se esse menino da reportagem fosse uma menina de 13 anos, será que tudo isso teria acontecido? Será que eles teriam sido tão notados pela bilheteira, pela pipoqueira e pelos outros adultos no cinema?

Pra finalizar essa linha de argumentação ficam as perguntas: Será que se fosse um casal de heterossexuais isso teria tomado essa proporção? Se a nossa sociedade instiga o comportamento sexualizado precocemente e o naturaliza diaramente, o menino de 13 anos não sabia muito bem do que estava fazendo e assim consentindo todo o namoro? Então, qual o crime?

Agora vamos pensar em outro olhar. Esse olhar é visto para muitos como tradicionalista, conservador e antiquado. Talvez seja. Vou deixar pra vocês essa resposta. Seguindo aquela linha de estudos sobre a importância dos conceitos e da evolução da família e da sociedade, será que não estamos “naturalizando” e instigando a sexualidade infantil muito precocemente? De pequenos adultos à crianças, podemos pensar que o conceito de infância foi uma conquista: dar espaço e tempo para que a criança se constitua e descubra o mundo sem as dificuldades do mundo adulto, entre outras coisas, foi uma conquista social. Mas com o achatamento dessa infância e com o esticamento da adolescência, o que tem acontecido é uma permissividade sexual precoce. Pensamos que hoje a sociedade é rápida, flexível e que as crianças estão preparadas para tanta informação, tão cedo. Mas será mesmo? Porque se isso fosse verdade, não teríamos indices altíssimos de crianças deprimidas (que inclusive cometem suicídio), estressadas, ansiosas, enfim, crianças com problemas psicológicos diversos (que afetam aprendizado, sociabilidade, etc). Sem falar do grande número de casos de abuso sexual infantil/adolescente.

Pensamos que elas são preparadas o suficiente e sexualizamos as relações, a infância, de forma que quando elas são vítimas de abusos, tendemos o culpá-las. E essa linha tênue fica mais tênua ainda quando a idade está entre os 13 – 16 anos.

“Ah, mas aquela menina estava pedindo, olha como ela andava vestida…”

“Essa ai tem 16 anos mas se comporta como uma de 18, é rodada, sabe tudo. Então não é crime.”

Mas será que o crime não está em permitir uma sexualidade precoce e um desenvolvimento tão rápido que jovens dessa idade se comportem como adultos? Porque eles exibem essa sexualidade “super desenvolvida” mas é frequente escutar dessas mesmas pessoas, quando mais velhas (30, 40 anos) que não sabiam o que estava fazendo, mas achavam que sabiam. Será que o crime não é mesmo do adulto por – 1: permitir uma sexualização precoce; – 2: se relacionar sexualmente com esses jovens usando o mesmo argumento de que eles provocam pois sabem o que fazem?

“Oras, isso sempre aconteceu, porque seria diferente agora?”

Então quando algo se torna cotidiano ele também se torna correto? Em algumas sociedades e famílias, adolescente devem se preocupar com estudo, com a construção identitária e com a descoberta daquilo que lhes move. Namorar faz parte, mas essa sexualidade exacerbada fica para a maioridade. E essa maioridade é alcançada subjetiva e historicamente, não deveria ser forçada e instigada socialmente.

Para adicionar mais um pimenta a essa linha de argumentação, vamos pensar no papel da escola e da sociedade. Criança e adolescente interessado na educação demoram mais tempo pra se sexualizar. Porque se eles conseguem obter prazer pelo conhecimento (que é o grande objetivo da existência de uma infância e uma adolescência) mais tempo vão dar para que o corpo e a mente evoluam em seu tempo. Quando temos uma escola desgastada, um ensino que não sabe provocar desejo e um sistema de educação que preza pela quantidade e não pela qualidade, é preciso encontrar prazer de viver em algum lugar, o mais rápido possível. E já sabemos em que lugar elas vão encontrar.

Assim, deixo mais perguntas: Nossa sociedade sexualiza as crianças cedo demais com o argumento social de que o mundo mudou e tudo está mais rápido? Temos o hábito de tirar a responsabilidade do adulto e arrumar uma maneira de sempre culpar a criança e o adolescente? Não estamos voltando a tratá-los como pequenos adultos?

Como podemos perceber, nunca é fácil determinar qual argumento é o correto. Porque, mais uma vez, cada caso é um caso. Não dá pra dizer que uma coisa é errada e outra é certa, porque ambos tem aspectos importantes a serem considerados. Ao mesmo tempo não podemos dizer que uma atitude foi determinante para um comportamento, e vice versa, porque se considerarmos toda a subjetividade desses temas, fica impossível estabelecer linhas objetivas de causa-conseqüência. Mas uma coisa fica: precisamos repensar a importância dada a sexualidade precoce na nossa sociedade e insistir na discussão sobre as questões de preconceitos de gêneros. São os temas polêmicos que evidenciam o que de pior e o que de melhor existe nas pessoas a na sociedade.

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