Associação Livre

Arquivo para a Categoria: Feminismo

As primeiras psicanalistas em 1910

Por Aline Sieiro em 21/01/2017 10:00

Nas reuniões das quartas-feiras, levou um certo tempo até que algumas mulheres fossem convidadas a participar. As reuniões tiveram início em 1902, mas até 1910 nenhuma mulher havia participado, não por falta de pretendentes. As reuniões chegaram a contar com 24 membros homens, 18 deles judeus, 18 deles médicos. Isaack Sadger e Fritz Wittels eram contrários a entrada de mulheres na sociedade, porém todos os outros membros tinham posições favoráveis a essa abertura. Em 1907, as reuniões das quartas-feiras se transformaram na WPV, primeira instituição psicanalítica do mundo. Mas foi apenas em 1910 que a primeira mulher foi aceita em uma instituição de psicanálise, mesmo ano em que a WPV se transformou na IPA. As mulheres psicanalistas foram todas primeiramente conhecidas por serem as famosas histéricas, pacientes dos primeiros analistas.

A entrada das mulheres na psicanálise se deu primeiro pela condição de pacientes e segundo pela condição de analistas da infância. Na biografia de quase todas elas, ou nas pequenas notas que restaram sobre algumas, sempre encontramos como descrição a especificidade na análise com crianças. Curioso pensar que esse era o lugar comum de entrada das primeiras mulheres psicanalistas. Naquele tempo, pensar na infância ainda era função da mulher, fosse ela dona de casa ou psicanalista.

Os anos se passaram, mas existe um ranço dessa história que nos acompanha ainda hoje. É recorrente escutar pelos corredores obscuros da formação de analistas que trabalho com crianças é pouco valorizado, algo simples, muitas vezes visto até mesmo como desnecessário. “Ah, então você atende crianças! Então quem gosta de brincar pode atender crianças”. Ou ainda: “Como é possível a existência de psicanálise com bebês? “. Ao longo de anos, grandes mulheres analistas foram responsáveis pela construção de várias clínicas com crianças, em diversas concepções teóricas dentro das tantas psicanálises existentes. Um estudo quantitativo recente afirma que hoje a maioria das analistas do mundo são mulheres. Independente dos números, o fato é que o lugar das primeiras analistas freudianas ainda fica muito obscurecido por figuras famosas e polêmicas como Melanie Klein e Anna Freud.

A maioria dos chamados primeiros psicanalistas, que somaram 24 em certo tempo das reuniões das quartas-feiras, nunca passaram pelo processo de análise. Assim, é interessante notar que as mulheres inauguram também, na psicanálise, um axioma muito repetido na formação dos analistas ainda hoje, de que um analista sai de sua própria análise pessoal. Como gosta de afirmar Roudinesco, a importância do laço entre os pacientes e seus analistas para a evolução da teoria psicanalítica começa ai, na clínica com essas mulheres e na passagem de muitas delas de pacientes para analistas. Essas mulheres não ensinaram para psicanálise apenas sobre a histeria ou tantos outros quadros diversos; ensinaram também algo sobre a transmissão, sobre a escolha pela psicanálise como uma tentativa de saída para a invenção.

 

Roudinesco, E. Em defesa da Psicanálise.

Silva & Santo. A história das primeiras mulheres psicanalistas do início do século XX.

 

As mulheres médicas em 1907

Por Aline Sieiro em 20/01/2017 20:27

Na reunião de 15 de maio de 1907, os primeiros psicanalistas discutiram sobre o artigo de Wittels intitulado “As mulheres médicas”. Eu falei sobre Wittels no meu último texto sobre as atas, estão lembrados? Wittels era um jovem curioso, na falta de outro adjetivo mais preciso.

Fritz Wittels entrou para as reuniões de Psicanálise das quartas-feiras a partir de um interesse pela psicanálise freudiana. Participou durante um ano e começou a atender em seu consultório particular. Não muito tempo depois, por não ter sucedido nessa empreitada, em 1910, foi trabalhar em um sanatório particular e trabalhou durante 15 anos como médico em uma ala psiquiátrica. Nessa mesma época, escrevia muitos romances e os publicava. Em 1919 ele enfrentou uma análise didática e em seguida publicou uma espécie de biografia de Freud, que não ficou satisfeito e pediu correções. Em 1927 foi admitido na IPA. Em 1932 se mudou para os Estados Unidos e passou a fazer parte da Sociedade Americana de Psicanálise. Republicou a biografia corrigida de Freud e passou também a escrever vários textos sobre a técnica psicanalítica. Freud não gostou da republicação da biografia e por vezes acreditava em um certo oportunismo do seu colega de psicanálise.

Enfim, esse jovem Wittels, entre 1907 e 1908, apresentava textos nas reuniões de quarta-feira, textos no mínimo duvidosos. Em geral sobre as mulheres e o lugar das mulheres na sociedade. Ele levava a sério “o chamado da menstruação”, e quase todos os seus textos da época eram em torno dessa hipótese e as consequências dessas “traições” por parte das mulheres que não aceitavam seu chamado. Na reunião de 15 de maio, Wittels falava sobre as mulheres médicas. Na época, as primeiras turmas no curso de medicina haviam aceitado mulheres como estudantes e Wittels defendia, no artigo que apresentou ao grupo de analistas, que profissão de mulheres era a pedagogia. Para ele, a mulher que escolhia pela medicina era histérica e fazia isso por sua capacidade de ser imoral sem culpa, desenvolvendo um bom desempenho como estudante de medicina. Segundo seu texto, a ideia da existência de mulheres médicas era um absurdo, pois uma mulher jamais entenderia os mistérios de um homem e jamais teria condições de assumir cargos na saúde pública, já que sempre abusaria de sua posição em benefício próprio. Wittels concluiu seu texto afirmando que o desejo pelo estudo da medicina era apenas um sintoma de histeria, uma supressão do verdadeiro desejo de uma mulher.

Federn, o primeiro a comentar sobre o texto, diz que Wittels cometo o erro de acreditar que apenas as mulheres seriam capazes de perverter a função da medicina. Ele lembra que muitos homens já usavam suas posições como médico para abusar de pacientes mulheres e que a perversão não é uma característica específica do feminino.

Graf diz a Wittels que ele apenas está com raiva das mulheres que preferem estudar a transar com ele. Hitschmann acredita que o desejo das mulheres de estudar não é histeria e sim uma cura para ela. No entanto, questiona o motivo pelo qual todas as mulheres médicas parecem ser feias e ter seios pequenos. Ele afirma que o princípio feminino é ter filhos, mas que isso é algo relacionado a espécie e que não somo reféns do nosso biológico. De maneira chistosa, finaliza dizendo a Wittels que ele apenas quer cultivar um desejo de que todas as mulheres se mantem putas, prontas para o coito e que ele parece um macho no cio.

Freud expressa um reconhecimento pelo esforço da escrita de Wittels, mas não deixa de dizer que ele foi extremamente indelicado com as mulheres em seu texto. Freud afirma que a civilização impõe fardos pesados as mulheres e que por isso elas ficaram atrasada em termos de evolução na relação com os homens. Por isso, Freud acredita que ele questiona o lugar das mulheres na medicina apenas porque se trata de algo novo socialmente. Freud prossegue afirmando que Wittels confunde sexualidade sublimada com sexualidade bruta e que por sem jovem, logo vai perceber que as mulheres médicas não têm aversão a sexualidade, mas quando saca isso, se torna misógino, em defesa. Ele despreza as mulheres porque pretende desmascarar o objeto que um dia venerou.

Adler acha que Wittels é como um menino que acabou de levantar a saia da amiguinha de escola e descobrir que ela tem genitais femininos e que ele descobriu também que todo médico mexe com o sexual, seja homem ou mulher.

Wittels responde que está extremamente afetado pela fala dos amigos e por isso não se vê em condições de responder aos comentários. Mas retoma que é “incapaz de ter em alta conta a mulher que não escuta o chamado da menstruação”.

Vale a pena acrescentar, a título de localização histórica, que Wittels era sobrinho de Isidor Isaak Sadger, um psicanalista que também participava das reuniões das quartas-feiras. Sadger era obcecado por temas como homossexualidade e perversão e foi considerado um fanático da psicanálise. Freud chegou a chamar Sadger de “fanático hereditariamente tarado por ortodoxia”, que só acreditava na psicanálise por um desvio, poderia mesmo ser fanático por qualquer religião. Segundo Roudinesco, Sadger aplicava a teoria da sexualidade ao pé da letra, sendo conhecido por sua misoginia extrema e por seu papel trágico na história da paciente Hermine, de quem era analista. (Hermine, alías, é uma outra grande história que outro dia eu conto com calma, ela foi uma das primeiras analistas de crianças e também uma das primeiras mulheres a entrar nas reuniões das quartas-feiras, mas tem uma história trágica dentro da psicanálise).

Não vou comentar essa reunião, vou deixar para cada um de vocês tirarem suas próprias conclusões.

 

Sobre a posição “natural” da mulher em 1908

Por Aline Sieiro em 17/01/2017 23:03

Na Reunião de 11 de março de 1908, o tema de discussão dos primeiros psicanalistas era “A posição natural da mulher”. Wittels fez uma conferência sobre a menstruação, desenvolvendo uma hipótese de que na era glacial, a mulher era objeto de veneração dos homens, por isso as relações eram poliglotas; mas perdeu esse lugar com a invenção da propriedade, já que a partir dai os homens queriam que seus filhos herdassem sua terras e passaram a sustentar a necessidade de monogamia. Wittels encerra sua conferência afirmando que uma das consequências desse tempo é a invenção do feminismo, já que as mulheres passaram a lamentar não terem nascido homens e buscam tornar-se um. Wittels enxerga isso como um absurdo.

Na discussão, Sadger acha que a conferência possui muitos erros e não concorda com Wittels. Urbantschitsch acha a hipótese de Wittels genial. Hitschmann acha que o autor da conferência criou um texto fantasioso e trata-se apenas de um reacionário juvenil.

Freud, sobre a discussão, explica que a hipótese de Wittels é fantasiosa e afirma que “as mulheres, como grupo, não ganham nada com os movimentos feministas modernos. Quando muito, os ganhos são apenas individuais” (fazendo referência ao texto da Stuart Mill, Sobre a emancipação feminina).

Adler faz uma fala contundente: chama Wittels de reacionário e diz que o socialismo propõe um quadro de família já abalado, “que as mulheres não tolerarão que a maternidade as impeça de exercer uma profissão”. Ele prossegue, citando Marx, para afirmar que a questão da propriedade já havia sido discutida por ele.

Wittels encerra afirmando que a menstruação é a principal diferença entre o homem e a mulher e que é impossível ser freudiano e social-democrata ao mesmo tempo, e que por isso Adler é contraditório.

Bom, é possível notar que: (1) ser psicanalista e marxista não é uma invenção atual, tai Adler em 1908 referindo-se ao marxismo pra sustentar sua posição de analista. (2) a construção de teorias psicanalíticas a partir de posições políticas também não é novidade, é perceptível nessa reunião a briga entre psicanalistas conservadores e “modernos”, e como isso influencia nas teorizações que eles propõem. (3) Freud não fala de política, mas marca sua posição ética quando afirma que uma mulher não ganha muito com movimentos de grupo, já que, segundo ele, os ganhos são apenas individuais. Não deixa de ser interessante observar que hoje escutamos muitas mulheres reclamando de grupos feministas (extremistas, tomados por ideais), um paradoxo, já que as mulheres sem predicação não cabem em lugar nenhum. (4) nenhuma mulher psicanalista participava dessas reuniões das quartas-feiras nesses primeiros anos.

Apenas acho um pouco frustrante perceber que não produzimos nada muito diferente desses discursos hoje, em 2017. Que estamos sempre girando em torno de uma mesma coisa, isso é um fato; a frustração é sobre a nossa repetição automaton na condição de civilização.

Livro: Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena, Vol. 1 – os primeiros psicanalistas 1906-1908.

Cinco gerações de mulheres em um jantar de família: histórias de horror sobre o assédio sexual

Por Aline Sieiro em 29/11/2015 00:26

silencio

Estava em um jantar de família com cinco gerações de mulheres: minha avó, minha mãe, minha madrasta e minha prima mais nova. Conversávamos sobre as diversas experiências de assédio que vivemos durante a vida e chegamos a uma triste conclusão: parece que o que foi vivido por minha avó ainda é a mesma realidade vivida pela minha prima. Em relação ao assédio, parece que nada mudou. Compartilhamos narrativas e histórias de homens que, diariamente, mostram seus pintos na rua, roçam seus membros no nossos corpos no metro, passam a mão um pouco a mais até na hora da tatuagem e do exame médico. As situações são tão cotidianas que nos acostumamos a conviver com os sentimentos de vergonha, humilhação e medo.

Outro dia escutei alguns homens dizendo que as mulheres estavam exagerando nas redes sociais; eles diziam que os relatos nas hashtags #primeiroassédio #meuamigosecreto estavam passando dos limites: “ninguém aguenta mais escutar esses mimimis”, eles diziam. Outros diziam que rede social não era lugar para esse tipo de história ou desabafo. Quero dizer para vocês, queridos homens, que se fossemos realmente contar todas as situações de assédio que já passamos, não ia ter rede social que desse conta das repetidas histórias que não cessam de se apresentar em nossas vidas todos os dias, há anos e anos. Se vocês estão cansados de ouvir algumas delas, imagine o quanto nós estamos cansadas de vivê-las; o quanto nos apavoramos quando, num jantar em família, percebemos que muitos anos se passaram e nada disso evoluiu. O machismo está ai para nos aterrorizar sim, todos os dias, quando temos medo de ir fazer xixi na universidade porque sabemos que estudantes de engenharia, medicina, filosofia (e vários outros cursos), ainda hoje, estupram colegas de sala em bandos; quando trabalhadores da construção civil ainda se sentem no direito de abaixar suas calças em plena luz do dia; quando o pai do amigo do seu filho fica te olhando com aquela cara nojenta de tesão enquanto mexe a língua, te comendo com os olhos, em público.

Eu acho é pouco esses relatos. E sei que ainda temos muito medo de dizer nomes, fazer denúncias, porque nunca temos como provar. Pior ainda é quando a retaliação vem das próprias mulheres e de nossos familiares. Até mesmo de alguns analistas que insistem em usar a máxima “somos sempre responsáveis pelos nossos sintomas” para fazer valer o ponto de que, sempre, a culpa é da vítima, se esquecendo que somos inseridos em uma relação direta com a cultura que nos antecede, de um machismo poderosíssimo e muito difícil de derrubar. Vitimismo, vocês podem pensar! Talvez. Algumas mulheres se posicionam mesmo nesse lugar, vivendo e se alimentando dessa devastação por anos e anos. Mas, infelizmente, muitas mulheres nunca tiveram possibilidade de construir outro lugar que não esse que sempre nos foi oferecido de bandeja, gerações após gerações, como o lugar de mulher. Então, eu acho é pouco mesmo a quantidade de narrativas de assédio. Porque quando falamos, fazemos o mal estar surgir e tentamos finalmente sair da posição de vítimas, possivelmente nos tornando agentes de alguma mudança. A idéia é mais ou menos assim: ou vocês encaram o mal estar junto com a gente, para podermos mudar alguma coisa nos próximos anos, ou tudo vai continuar sempre sendo apenas histórias silenciadas, segredos de mulheres em seus jantares de família.

O enigma do feminino

Por Aline Sieiro em 13/09/2015 18:43

Quanto eu tinha 12 anos, várias meninas da minha escola cortaram seus cabelos no corte Joãozinho. Elas começaram a aparecer, dia após dia, sem os cabelos enormes que carregaram por muitos anos. Eu me senti fascinada e ao mesmo tempo intrigada pelo movimento. Até hoje não sei quais foram os motivos que levaram cada uma delas a cortar os cabelos, mas me lembro de explicações que surgiam para dar conta da novidade. Uma era do teatro, diziam. Outra era “meio masculina” e uma deles gostava de meninas. Cada resposta parecia apresentar uma fantasia sobre o significado do cabelo curto, mas para algumas meninas as explicações não colavam. Elas estavam mais femininas do que nunca com seus cortes curtos; era simplesmente inexplicável para muitos que isso pudesse ser possível. Algo sobre um enigma em relação ao feminino era evidenciado apenas a partir de um corte de cabelo, e eu me perguntava como algo tão simples podia perturbar e chamar atenção de tantas pessoas.

Os anos passaram e um dia desses eu estava conversando justamente sobre cabelos com um conhecido. Escutei ele dizendo que Paula, uma conhecida nossa, estava em um processo intenso de enfeiamento. Paula usa muito o twitter e vem escrevendo sobre um processo de transformação da sua imagem. Tenho a impressão que Paula vive muito mais do uma troca de imagem, mas não posso falar sobre isso, pois não faço parte do que está acontecendo com ela. O importante aqui é destacar que, no twitter, vai ficando evidente a maneira como ela vem vivendo toda essa transição a partir da imagem. Durante um ano, Paula foi deixando de pintar os cabelos, assumindo a cor natural. Alguns meses depois, começou a questionar a importância de manter os cabelos lisos as custas de muitas horas perdidas com chapinha e secador. Passou a assumir também seus cabelos cacheados. Depois de algum tempo, decidiu aderir as sapatilhas e tênis porque não aguentava mais as dores nas pernas por conta dos saltos. Paula começou também a ser mais socialmente ativa no twitter, defendendo opiniões polêmicas sobre diversos assuntos. Não demorou muito para que as pessoas começassem a dizer que tudo isso estava relacionado ao processo de tornar-se feminista, ou, como disse meu conhecido, sobre o processo de se tornar mais feia. Nunca vi Paula tão feliz e feminina. Assumir sua posição em relação ao seu corpo e ao seu jeito de estar na vida tem sido bonito de se ver. Por que a beleza da invenção de cada um, fora do padrão, incomoda tanta gente?

Não somos ingênuos em relação aos fetiches, todo mundo tem suas preferências sexuais e seus fetiches em relação ao objeto de interesse sexual. Alguns homens foram se desinteressando por quem Paula estava se tornando, porque ela já não carregava mais alguns traços que permitiam a esses homens depositar suas expectativas e fantasias sexuais. O que parece ser frustrante para esses homens é que cada vez mais mulheres vêm vivendo processos como esse, descobrindo que não precisam ser um estandarte da fantasia masculina. As mulheres vem descobrindo que podem ter suas maneiras singulares de lidar com seu estar no mundo, com o ser mulher, e que o importante em um relacionamento, mais do que ser apenas depositária das fantasias alheias, é encontrar seus próprios sentidos e caminhos para ser mulher no mundo, mesmo que fiquem em falta com o outro. Alguns homens não estão gostando de ter cada vez mais restrito o número de mulheres que se oferece desse lugar adaptativo; também não estão gostando de encarar suas frustrações pelo fato (importante) de que suas fantasias nunca encontrarão o objeto ideal, já que há uma impossibilidade que marca o (des)encontro com o objeto de nossas fantasias, simplesmente porque ele não existe.

A feminilidade, ou melhor, aquilo que entendemos como identidade feminina é tão diversa que não seria possível descrever suas características. Porém, ainda sustentamos socialmente um ideal sobre feminilidade que foi construído as custas de mulheres como depositárias das fantasias impossíveis. E as mulheres acreditaram nisso e contribuíram muito para que esse engano fosse sustentado. São anos tentando ser sexy (sem ser vulgar), potente (sem deixar de lado o maternal), ativa (em sacar o desejo do homem), ou seja, diversas situações para tentar realizar o encontro impossível entre fantasia e realidade. A relação entre duas pessoas, baseada em uma teoria de amor (e sexo) que busca completude está fadada ao eterno desencontro ou ao apagamento de um para a satisfação do outro. As mulheres estão cada vez mais se permitindo encarar essa impossibilidade, de se apagar para ser quem o outro precisa; de tornar-se mulher e deixar os fracassos desse ideal de amor escancarado.

A idéia de feminino, ou seja, de algo que tem a ver com o que não está posto na identidade mas que nos causa enquanto mulheres, essa idéia ainda vem sendo explorada pelas mulheres e pelos homens. A noção de que somos divididos, faltosos, e que não será um outro que nos completará, aponta para uma relação não mais centrada em um ideal de completude e sim para o avesso disso: é a partir do que falta que será possível construir laços afetivos. Assim, o feminino não tem a ver com potência ou poder, mas com a ausência de um símbolo ou de um objeto e de como fazemos isso nos movimentar na vida; Como cada mulher lida com seu processo de tonar-se mulher e como vai se relacionar com outra pessoa a partir disso. É um processo particular e árduo. É uma construção, as respostas não existem prontas. E quanto mais as mulheres se permitem vivenciar tudo isso, mais elas deixam os homens em contato com o que de feminino também há neles, ou seja, com o enigma sobre seu desejo, suas fantasias de completude e sua relação com a impossibilidade.

Existe algo para além do sexo. Existe algo para além de olhar o outro como objeto de seus fetiches. Existe um tipo de relação estabelecida a partir do que o outro não é e nunca será pra você. Alguns chamam isso de amor, o ato de desejar e aprender a estar com alguém pela vida, caminhando em conjunto, redescobrindo o encontro sexual a partir dessas possibilidades. Isso pra mim é o que embasa o discurso de igualdade de gêneros. Não é sobre poder, sobre quem pode mais e quem vai controlar o outro da relação com objeto. É sobre duas pessoas que são faltantes, por isso semelhantes, tentando construir relações que permitam invenções causadas pelo que falta de maneiras criativas, diversas e sempre em movimento. A fixação na idéia de que o outro deve te dar aquilo que te falta sempre fracassa porque ninguém consegue ser apenas uma imagem para o outro o tempo todo. Ainda bem! E a agressividade que as pessoas andam direcionando umas para outras ilustra bem a raiva que é provocada quando, cada vez mais, as pessoas se autorizam a não ser apenas o que os outros esperam que elas sejam.

O feminismo promove a noção de que todos temos direito de entrar em contato com nosso enigma sobre o feminino que nos habita. Não é sobre defender uma identidade padrão, não é sobre empoderamento de um gênero ou outro, mas sobre estar nas relações com o outro a partir da impossibilidade de completude e da falta de poder. Amor não é sobre poder. O que faz laço entre as pessoas é o cuidado e o afeto que podemos construir a partir das nossas mais profundas fragilidades e não de quem consegue ter mais poder sobre a fragilidade do outro. Feminino não tem a ver com a identificação a um ideal, seja ele qual for (inclusive sobre um jeito certo de ser mulher), mas sobre construir uma resposta ao engima da vida e das relações humanas.

Outro dia, Laerte disse que seu processo de transição está acontecendo, do masculino para o feminino. Será que não somos todos assim, um processo eterno de construções e desconstruções? Será que o feminino não tem a ver justamente com essa descoberta de si mesmo e de como estar no mundo a partir dessas descobertas? Cada um de nós terá que dar suas próprias respostas.

Paula não está “enfeiando”. Paula está dando sua própria resposta ao seu enigma sobre o feminino. As meninas que acompanhei cortando seus cabelos Joazinho provavelmente também estavam se permitindo passear nas diversas identidades, para encontrar suas próprias maneiras de responder a essa questão. Isso parece ser o mais fascinante e bonito em todas elas. Mulheres que se permitem inventar. Uma pena que ainda estamos tão presos na fetichização do outro, sem conseguir enxergar além disso. Homens que também se permitam inventar talvez possam nos ajudar a construir um mundo com as mais diversas belezas possíveis, em suas diferenças.

A publicidade e o fracasso dos ideais

Por Aline Sieiro em 12/09/2015 01:45

Nosso tempo contemporâneo, seja ele pós-moderno, hipermoderno ou o fracasso da modernidade, é um tempo de descontinuidade. Ficou no passado o período em que determinados ideais reinavam imperiosos oferecendo suas certezas, ainda que não inclusivos e para poucos. Para a maior parte das pessoas, as nomeações tinham um efeito de sustentação desses ideais, bastava nos adaptarmos a eles. Nos formulários, por exemplo, você escolhia se era do sexo feminino ou masculino, se era solteiro ou casado, escrevia o nome do seu pai e da sua mãe, dizia a cor da sua pele. Tudo parecia muito simples.

Hoje as respostas já não são mais tão simples. Estamos no cerne de longas e profundas transformações sociais advindas especialmente dos que se sentiam excluídos por esses ideais e nomeações, ou seja, do que ficava de fora. A parcela de pessoas que ficava excluída e “sobrava” era muito grande, mas não tínhamos ainda espaço para lidar com esses números. O fato é que o ideal era para poucos e o que ficou de fora por muito tempo, retornou demandando reconhecimento. O que ficou de alguma maneira excluído da possibilidade de nomeação, insiste para ter seu espaço. Assim, temos vivido uma enxurrada de novas possibilidades de identificações e renomeações, na busca por evidenciar a pluralidade de diferenças. Não é mais tão simples preencher no formulário o nome do pai e da mãe, porque passamos a ter famílias com duas mães e/ou dou pais. Fazer um x no espaço que identifica nosso gênero, por exemplo, ficou complicado para algumas pessoas trans que ainda não sabem como devem se identificar entre as opções masculina e feminina. De alguma maneira, tudo como conhecíamos vem sendo descontruído e reconstruído de uma maneira inquietante e veloz. As siglas aumentam, as nomeações aumentam e mesmo assim fica a sensação, no final do dia, que nada disso ainda é o suficiente para dar conta da diferença, anunciando que muito mais está por vir.

Toda essa avalanche de situações e novidades apresentam novos dilemas, ninguém se salva. Como se referenciar a homens e mulheres quando essas duas categorias não parecem mais ser suficientes para distinguir as pessoas? Como reconstruir nossos lugares sociais, nossos ideais e fantasias quanto tudo está mudando tão rapidamente e as pessoas ainda não conseguiram apreender a importância dessas tentativas (muito mais do que o sucesso ou o fracasso delas)?

No meio dessa confusão, publicitários, grandes vendedores de imagens, tentam encontrar um porto seguro para trabalhar. Quando as imagens de um ideal passam a não servir mais, outras imagens tomam a frente, em uma quantidade impressionante. Por trás de toda imagem vendida por um publicitário, existe um ideal atrelado. Assim, aprofundar-se no que está sendo vendido é importantíssimo para um profissional ter sucesso na venda de suas imagens e ideais. Não basta mais fazer uma promoção em que a mulher ocupa um lugar secundário, de esposa ou mãe. Esse ideal já não corresponde a maior parte da realidade das mulheres hoje. Usando ainda o exemplo das mulheres, elas têm se permitido construir diversos espaços para ocupar e representar. Portanto, como fazer uma propaganda voltada para o público feminino que possa incluir a vasta dimensão do que é ser mulher hoje?

A partir de questões que não possuem respostas fáceis, muitas pessoas tem se implicado, dedicando tempo, estudo e criatividade para construir propagandas que possam ser inclusivas, ou seja, buscam achar soluções que permitam diversas possibilidades e que de alguma maneira não ofendam gratuitamente a nenhum grupo específico. É uma missão dificílima, já que tudo se parece muito com um terreno em erosão. Os publicitários engajados já sacaram que uma propaganda nunca será apenas uma propaganda inocente; que questões políticas estão mais presentes do que nunca e que não podem simplesmente ser deixadas de lado. Mas nem sempre é assim. Infelizmente.

Essa semana, tivemos um exemplo de como uma propaganda infeliz pode ter um desfecho trágico. Uma churrascaria publicou em sua página do facebook uma propaganda que pode nos ajudar a pensar no que estamos colocando em pauta. A propaganda era a seguinte:

Propaganda 01

Em uma primeira olhada, não observamos nenhum crime ou afronta gritante acontecendo na propaganda. Percebemos que o desconto é proporcionado de acordo com o gênero da pessoa que se apresenta no estabelecimento e isso gera algumas questões. Ao meu ver, nada que não pudesse ser esclarecido de uma maneira tranquila e inteligente, ainda que pautado em um ideal que hoje fracassa. Sabemos que a questão dos gêneros é um assunto extremamente atual e suscita paixões e questões importantes, como, por exemplo, sobre o lugar da mulher em uma sociedade ainda extremamente machista. Logo, o esperado aconteceu: algumas mulheres questionaram o motivo do desconto apenas para mulheres. A questão é bastante pertinente para os tempos atuais. Mas parece que não foi isso que os responsáveis pelo anúncio pensaram. Frente a questão, sobre o que faria mulheres “merecerem” pagar mais barato, a discussão ferveu nos comentários da página. A discussão entre os usuários caminhava para: (1) a mulher não “merecer” mais ou menos do que homens, já que a luta pela igualdade de direitos defende essa postura; e (2) usar a idéia de gênero para justificar uma meritocracia está fracassada como ideal na atualidade e sempre gera mal estar. Ao invés de encarar o mal estar já instalado, o restaurante decide:

cancelamento e mimimi

A partir do posicionamento acima, o que era apenas um caso de propaganda mal planejada passa a ser uma questão de descaso com possíveis clientes. Responder a inquietações de algumas possíveis clientes foi tomado como bobagem, “mimimi”. O texto ainda deixa claro que, na ética da empresa, vale tudo para conseguir atenção, a qualquer custo. E já que o objetivo foi atingido (“o restaurante está cheio”), as questões políticas suscitadas pela propaganda não passam de “blá blá blá”.

Estamos todos vivendo no tempo da inexistência de uma suposta neutralidade: tudo é posicionamento político, inclusive a decisão por não participar ou por permanecer em silêncio. Fazer pouco caso da problematização de algumas pessoas não poderia ter sido mais infeliz. O restaurante poderia ter saído dessa sinuca de bico de diversas maneiras, mas preferiu agir com deboche frente a uma questão que é muito séria para alguns. A partir disso, o tom de guerra já estava instalado.

Não satisfeitos com o resultado da avalanche de críticas frente a propaganda e o posicionamento do restaurante, eles novamente mudam seu posicionamento, mas dessa vez para explicitar a posição política:

Reiteração da propaganda machista

“Apoiamos medidas que confortem às famílias nesta crise, PRINCIPALMENTE OS PAIS DE FAMÍLIA que somando os gastos DA ESPOSA E FILHAS acabam muitas vezes deixando de participar do almoço de confraternização apenas pelo preço”.

Aqui nesse trecho fica evidente a posição política e o ideal que sustentaram a propaganda desde o início: a cena de uma família em que o homem sustenta a casa e suas mulheres (esposa e filhas) e que por isso deve ganhar desconto para pagar por elas. Reparem ainda que a imagem usada, das mulheres com coraçõezinhos, só reforça um outro estereótipo sobre mulheres, que elas se reúnem apenas para falar de suas paixões e romances).

A frase e a foto carregam um ideal tradicional e machista que vem sendo insistentemente desconstruído ao longo dos últimos anos. No quesito família, já aprendemos que as famílias hoje são de diversas formas: mães solteiras, dois homens, duas mulheres, enfim, diversas apresentações que não se enquadram nesse ideal de família descrito. No quesito gênero, existem diversas famílias que são sustentadas por mulheres e diversas outras famílias em que o casal divide igualmente suas despesas, ou seja, o gênero já não define mais claramente o lugar da mulher nem do homem nas relações. No que tange a foto, sabemos que os assuntos das mulheres são os mais plurais possíveis, ou seja, dá pra brincar de desconstruir esse ideal antigo e frágil sem se esforçar muito. O preconceito e o machismo na resposta são explícitos.

Se isso já não fosse um problema suficiente para ser pensado, existe ainda uma outra questão: o discurso de ódio que é gerado por esse tipo de posicionamento (anti)ético. Em um dos posts, o restaurante faz questão de afirmar que não se responsabiliza pelos comentários em sua página. Justifica que não possui tempo para ler comentários e moderar, algo que atualmente é esperado com responsabilidade social de qualquer empresa que decide habitar o espaço online. Não se responsabilizar pelo conteúdo gerado em usa página vai na contramão do que temos acompanhado nas redes sociais, de empresas preocupadas com a inclusão. Assim, assistimos a um show de horror e ódio:

coment machista 01 coment machista 02 coment machista 03 coment machista 04 coment machista 05 coment machista 06

Esses comentários, todos masculinos, reforçam as suspeitas que não calaram: o machismo existe, e forte! Por que o fato de algumas mulheres questionarem as bases que sustentavam o desconto do preço, pautado por gênero, incita tanto ódio nas respostas das pessoas? Por que mulheres precisariam comemorar isso que é chamado de “cavalheirismo”, um “benefício”, que na verdade só evidencia uma condescendência gigantesca com elas? Sendo a sociedade justa na questão de gêneros, mulheres e homens poderiam pagar e ter os mesmos descontos, sem que isso fosse um peso para o outro gênero. Ao não se responsabilizar pelo discurso de ódio, o restaurante comete uma segunda violência com essas mulheres, reafirmando que elas precisam aceitar sempre o que um imperativo social machista diz que elas devem gostar ou não.

E só piora. As mulheres se voltam contra as próprias mulheres:

coment mulher 01 coment mulher 02 coment mulher 03 coment mulher 04

Desde quando um pedido de igualdade de direitos, independente dos gêneros, se torna uma questão de falta de pinto? Mulheres que lutam por igualdade de gêneros não podem ser consideradas mulheres? Exigir respeito e igualdade de gênero sempre vai terminar reduzido a piadas ridículas sobre pênis? A vida de uma mulher se resume a encontrar um homem que a queira?

Como podemos perceber, uma única propaganda pode fazer muito estrago. Tudo é política. Tudo carrega um ideal sobre o ser humano e suas relações. As desconstruções não param de acontecer e novos ideais e respostas não param de surgir. Será que podemos conviver com a idéia de que perguntas não são um problema? O problema real aqui parece ser a falta de espaço para o debate e o respeito ao diferente nas discussões. Até quando ainda teremos publicidades como essa? Até quando as pessoas ainda vão achar graça disso tudo e continuar rindo?

Como disse Duvivier em uma entrevista recente, fazer humor é tomar partido. Ou seja, até o humor é político. E sim, podemos escolher nossas piadas e do que rir. Fazer piada de quem está lutando por seus direitos não parece nada divertido.