Associação Livre

A clínica é um método de investigação (e não um lugar fechado por quatro paredes onde você se intitula profissional e acha que faz o que quer)

Por Aline Sieiro em 08/02/2017 15:08

Estava saindo do consultório hoje e encontrei dois psicólogos no elevador do prédio. Eles estavam comentando sobre um paciente que um deles havia dispensado porque deixava a sala “com um odor impraticável, levava dias para o cheiro dele sair da sala”. Segundo eles, o paciente era “disruptivo, desconexo, dissociado”. O elevador chegou no andar da portaria e os dois psicólogos seguiram seu discurso sobre as questões do paciente dispensado.

Semana passada estava em toda mídia a história de uma médica que contou sobre o estado de saúde de Marisa Letícia em um grupo de whatsapp e ainda a história do médico que descrevia a maneira possível de deixar Marisa Letícia morrer mais facilmente.

Ontem, escutei dois amigos comentando sobre psicólogos que saem da graduação sem nenhum conhecimento básico sobre a teoria, quanto mais sobre clínica e ética, e vão permanecendo nas instituições públicas, “trabalhando” a favor das falências da saúde pública. Segundo eles, são profissionais que teoricamente entendem um ato que deve ser realizado, mas na hora que a situação clínica acontece, não sabem reconhecer o momento na experiência vivida, discutida anteriormente na teoria.

Com o conceito de clínica e ética temos o mesmo problema. Os profissionais de saúde estudam ética e cínica durante anos na graduação, pós graduação e nos estágios. Porém existe um gap entre aquilo que eles estudam e respondem na prova com a situação de vida em que a clínica e a ética acontecem, no ato da relação entre dois humanos. Escutei, ainda semana passada, um professor universitário preocupadíssimo com a questão da ética nos cursos de saúde; pensava seriamente em aumentar as discussões sobre ética e dificultar o processo de validação para a prática clínica. “Não é preciso apenas a teoria e as condições financeiras para lidar com humanos, é preciso mais do que isso”.

Ano passado, dando aula em um minicurso sobre a psicanálise, uma aluna ficou extremamente perturbada quando sacou, durante o minicurso, que o ato do analista na clínica não oferece segurança, garantias de bem estar financeiro e social. “Mas se eu preciso combinar o valor com cada paciente e a questão do valor faz parte do tratamento, como vou pagar minhas contas? “. A preocupação é real, mas estava calcada no desejo econômico e social de estar situado no campo da saúde. Com a medicina, sabemos que esse buraco é bem fundo: durante anos a fio se fez a escolha pela profissão para ter dinheiro e status social. O mesmo acontece com a psicanálise. “Das duas uma: se não dá dinheiro, dá poder”, disse uma estudante de psicanálise.

A psicanálise não é um ofício para todos. Não basta ler alguns textos de Freud ou Lacan e se intitular psicanalista no cartão de visita e na plaquinha de divulgação do site na internet. Da mesma maneira, a clínica não é para todos. A clínica não é um espaço físico localizado na rua, no caps ou no hospital. Os pacientes, seres humanos, têm esse “defeito” de ter um corpo, carne, ossos, odores e estranhezas. Eles falam, sentem, e constantemente apresentam questões que nos instigam, que nos apresentam o que não entendemos sobre diversos aspectos da vida e do mundo. Eles são desobedientes, tem suas próprias teorias sobre eles mesmos e são espertos o suficiente para ficar revoltados quando sacam que não estão sendo bem atendidos. Que trabalho esse negócio de clínica, não é mesmo?

A clínica é um método de investigação e tratamento sobre as causas enigmáticas do adoecimento no homem. A psicanálise é um método de investigação e tratamento do sofrimento humano causado por seu inconsciente. Ética é o princípio responsável por criamos leis que nos permitam manter a condição civilizatória e dizer não a barbárie presente na humanidade. A ética em psicanálise nos ajuda a pensar sobre a articulação entre a ética do desejo particular do sujeito e a dimensão do laço social.

Esse ano de abertura da Hæresis, vamos estudar o seminário de Lacan sobre a ética. É preciso investir um tempo com essas preocupações fundamentais de qualquer atuação clínica. Mais, ainda: é preciso investir na descoberta particular do desejo de um profissional em atuar na clínica e na psicanálise. Ou vocês vão continuar acreditando que a falência da civilização está apenas nos senados e não nos seus atos cotidianos de enganos (como os psicólogos que se intitulam clínicos, mas dispensam um paciente porque ele é a presença viva da angustia de um não saber – e não tem pudor algum de falar sobre isso no elevador de um prédio comercial)?

As primeiras psicanalistas em 1910

Por Aline Sieiro em 21/01/2017 10:00

Nas reuniões das quartas-feiras, levou um certo tempo até que algumas mulheres fossem convidadas a participar. As reuniões tiveram início em 1902, mas até 1910 nenhuma mulher havia participado, não por falta de pretendentes. As reuniões chegaram a contar com 24 membros homens, 18 deles judeus, 18 deles médicos. Isaack Sadger e Fritz Wittels eram contrários a entrada de mulheres na sociedade, porém todos os outros membros tinham posições favoráveis a essa abertura. Em 1907, as reuniões das quartas-feiras se transformaram na WPV, primeira instituição psicanalítica do mundo. Mas foi apenas em 1910 que a primeira mulher foi aceita em uma instituição de psicanálise, mesmo ano em que a WPV se transformou na IPA. As mulheres psicanalistas foram todas primeiramente conhecidas por serem as famosas histéricas, pacientes dos primeiros analistas.

A entrada das mulheres na psicanálise se deu primeiro pela condição de pacientes e segundo pela condição de analistas da infância. Na biografia de quase todas elas, ou nas pequenas notas que restaram sobre algumas, sempre encontramos como descrição a especificidade na análise com crianças. Curioso pensar que esse era o lugar comum de entrada das primeiras mulheres psicanalistas. Naquele tempo, pensar na infância ainda era função da mulher, fosse ela dona de casa ou psicanalista.

Os anos se passaram, mas existe um ranço dessa história que nos acompanha ainda hoje. É recorrente escutar pelos corredores obscuros da formação de analistas que trabalho com crianças é pouco valorizado, algo simples, muitas vezes visto até mesmo como desnecessário. “Ah, então você atende crianças! Então quem gosta de brincar pode atender crianças”. Ou ainda: “Como é possível a existência de psicanálise com bebês? “. Ao longo de anos, grandes mulheres analistas foram responsáveis pela construção de várias clínicas com crianças, em diversas concepções teóricas dentro das tantas psicanálises existentes. Um estudo quantitativo recente afirma que hoje a maioria das analistas do mundo são mulheres. Independente dos números, o fato é que o lugar das primeiras analistas freudianas ainda fica muito obscurecido por figuras famosas e polêmicas como Melanie Klein e Anna Freud.

A maioria dos chamados primeiros psicanalistas, que somaram 24 em certo tempo das reuniões das quartas-feiras, nunca passaram pelo processo de análise. Assim, é interessante notar que as mulheres inauguram também, na psicanálise, um axioma muito repetido na formação dos analistas ainda hoje, de que um analista sai de sua própria análise pessoal. Como gosta de afirmar Roudinesco, a importância do laço entre os pacientes e seus analistas para a evolução da teoria psicanalítica começa ai, na clínica com essas mulheres e na passagem de muitas delas de pacientes para analistas. Essas mulheres não ensinaram para psicanálise apenas sobre a histeria ou tantos outros quadros diversos; ensinaram também algo sobre a transmissão, sobre a escolha pela psicanálise como uma tentativa de saída para a invenção.

 

Roudinesco, E. Em defesa da Psicanálise.

Silva & Santo. A história das primeiras mulheres psicanalistas do início do século XX.

 

As mulheres médicas em 1907

Por Aline Sieiro em 20/01/2017 20:27

Na reunião de 15 de maio de 1907, os primeiros psicanalistas discutiram sobre o artigo de Wittels intitulado “As mulheres médicas”. Eu falei sobre Wittels no meu último texto sobre as atas, estão lembrados? Wittels era um jovem curioso, na falta de outro adjetivo mais preciso.

Fritz Wittels entrou para as reuniões de Psicanálise das quartas-feiras a partir de um interesse pela psicanálise freudiana. Participou durante um ano e começou a atender em seu consultório particular. Não muito tempo depois, por não ter sucedido nessa empreitada, em 1910, foi trabalhar em um sanatório particular e trabalhou durante 15 anos como médico em uma ala psiquiátrica. Nessa mesma época, escrevia muitos romances e os publicava. Em 1919 ele enfrentou uma análise didática e em seguida publicou uma espécie de biografia de Freud, que não ficou satisfeito e pediu correções. Em 1927 foi admitido na IPA. Em 1932 se mudou para os Estados Unidos e passou a fazer parte da Sociedade Americana de Psicanálise. Republicou a biografia corrigida de Freud e passou também a escrever vários textos sobre a técnica psicanalítica. Freud não gostou da republicação da biografia e por vezes acreditava em um certo oportunismo do seu colega de psicanálise.

Enfim, esse jovem Wittels, entre 1907 e 1908, apresentava textos nas reuniões de quarta-feira, textos no mínimo duvidosos. Em geral sobre as mulheres e o lugar das mulheres na sociedade. Ele levava a sério “o chamado da menstruação”, e quase todos os seus textos da época eram em torno dessa hipótese e as consequências dessas “traições” por parte das mulheres que não aceitavam seu chamado. Na reunião de 15 de maio, Wittels falava sobre as mulheres médicas. Na época, as primeiras turmas no curso de medicina haviam aceitado mulheres como estudantes e Wittels defendia, no artigo que apresentou ao grupo de analistas, que profissão de mulheres era a pedagogia. Para ele, a mulher que escolhia pela medicina era histérica e fazia isso por sua capacidade de ser imoral sem culpa, desenvolvendo um bom desempenho como estudante de medicina. Segundo seu texto, a ideia da existência de mulheres médicas era um absurdo, pois uma mulher jamais entenderia os mistérios de um homem e jamais teria condições de assumir cargos na saúde pública, já que sempre abusaria de sua posição em benefício próprio. Wittels concluiu seu texto afirmando que o desejo pelo estudo da medicina era apenas um sintoma de histeria, uma supressão do verdadeiro desejo de uma mulher.

Federn, o primeiro a comentar sobre o texto, diz que Wittels cometo o erro de acreditar que apenas as mulheres seriam capazes de perverter a função da medicina. Ele lembra que muitos homens já usavam suas posições como médico para abusar de pacientes mulheres e que a perversão não é uma característica específica do feminino.

Graf diz a Wittels que ele apenas está com raiva das mulheres que preferem estudar a transar com ele. Hitschmann acredita que o desejo das mulheres de estudar não é histeria e sim uma cura para ela. No entanto, questiona o motivo pelo qual todas as mulheres médicas parecem ser feias e ter seios pequenos. Ele afirma que o princípio feminino é ter filhos, mas que isso é algo relacionado a espécie e que não somo reféns do nosso biológico. De maneira chistosa, finaliza dizendo a Wittels que ele apenas quer cultivar um desejo de que todas as mulheres se mantem putas, prontas para o coito e que ele parece um macho no cio.

Freud expressa um reconhecimento pelo esforço da escrita de Wittels, mas não deixa de dizer que ele foi extremamente indelicado com as mulheres em seu texto. Freud afirma que a civilização impõe fardos pesados as mulheres e que por isso elas ficaram atrasada em termos de evolução na relação com os homens. Por isso, Freud acredita que ele questiona o lugar das mulheres na medicina apenas porque se trata de algo novo socialmente. Freud prossegue afirmando que Wittels confunde sexualidade sublimada com sexualidade bruta e que por sem jovem, logo vai perceber que as mulheres médicas não têm aversão a sexualidade, mas quando saca isso, se torna misógino, em defesa. Ele despreza as mulheres porque pretende desmascarar o objeto que um dia venerou.

Adler acha que Wittels é como um menino que acabou de levantar a saia da amiguinha de escola e descobrir que ela tem genitais femininos e que ele descobriu também que todo médico mexe com o sexual, seja homem ou mulher.

Wittels responde que está extremamente afetado pela fala dos amigos e por isso não se vê em condições de responder aos comentários. Mas retoma que é “incapaz de ter em alta conta a mulher que não escuta o chamado da menstruação”.

Vale a pena acrescentar, a título de localização histórica, que Wittels era sobrinho de Isidor Isaak Sadger, um psicanalista que também participava das reuniões das quartas-feiras. Sadger era obcecado por temas como homossexualidade e perversão e foi considerado um fanático da psicanálise. Freud chegou a chamar Sadger de “fanático hereditariamente tarado por ortodoxia”, que só acreditava na psicanálise por um desvio, poderia mesmo ser fanático por qualquer religião. Segundo Roudinesco, Sadger aplicava a teoria da sexualidade ao pé da letra, sendo conhecido por sua misoginia extrema e por seu papel trágico na história da paciente Hermine, de quem era analista. (Hermine, alías, é uma outra grande história que outro dia eu conto com calma, ela foi uma das primeiras analistas de crianças e também uma das primeiras mulheres a entrar nas reuniões das quartas-feiras, mas tem uma história trágica dentro da psicanálise).

Não vou comentar essa reunião, vou deixar para cada um de vocês tirarem suas próprias conclusões.

 

Sobre a posição “natural” da mulher em 1908

Por Aline Sieiro em 17/01/2017 23:03

Na Reunião de 11 de março de 1908, o tema de discussão dos primeiros psicanalistas era “A posição natural da mulher”. Wittels fez uma conferência sobre a menstruação, desenvolvendo uma hipótese de que na era glacial, a mulher era objeto de veneração dos homens, por isso as relações eram poliglotas; mas perdeu esse lugar com a invenção da propriedade, já que a partir dai os homens queriam que seus filhos herdassem sua terras e passaram a sustentar a necessidade de monogamia. Wittels encerra sua conferência afirmando que uma das consequências desse tempo é a invenção do feminismo, já que as mulheres passaram a lamentar não terem nascido homens e buscam tornar-se um. Wittels enxerga isso como um absurdo.

Na discussão, Sadger acha que a conferência possui muitos erros e não concorda com Wittels. Urbantschitsch acha a hipótese de Wittels genial. Hitschmann acha que o autor da conferência criou um texto fantasioso e trata-se apenas de um reacionário juvenil.

Freud, sobre a discussão, explica que a hipótese de Wittels é fantasiosa e afirma que “as mulheres, como grupo, não ganham nada com os movimentos feministas modernos. Quando muito, os ganhos são apenas individuais” (fazendo referência ao texto da Stuart Mill, Sobre a emancipação feminina).

Adler faz uma fala contundente: chama Wittels de reacionário e diz que o socialismo propõe um quadro de família já abalado, “que as mulheres não tolerarão que a maternidade as impeça de exercer uma profissão”. Ele prossegue, citando Marx, para afirmar que a questão da propriedade já havia sido discutida por ele.

Wittels encerra afirmando que a menstruação é a principal diferença entre o homem e a mulher e que é impossível ser freudiano e social-democrata ao mesmo tempo, e que por isso Adler é contraditório.

Bom, é possível notar que: (1) ser psicanalista e marxista não é uma invenção atual, tai Adler em 1908 referindo-se ao marxismo pra sustentar sua posição de analista. (2) a construção de teorias psicanalíticas a partir de posições políticas também não é novidade, é perceptível nessa reunião a briga entre psicanalistas conservadores e “modernos”, e como isso influencia nas teorizações que eles propõem. (3) Freud não fala de política, mas marca sua posição ética quando afirma que uma mulher não ganha muito com movimentos de grupo, já que, segundo ele, os ganhos são apenas individuais. Não deixa de ser interessante observar que hoje escutamos muitas mulheres reclamando de grupos feministas (extremistas, tomados por ideais), um paradoxo, já que as mulheres sem predicação não cabem em lugar nenhum. (4) nenhuma mulher psicanalista participava dessas reuniões das quartas-feiras nesses primeiros anos.

Apenas acho um pouco frustrante perceber que não produzimos nada muito diferente desses discursos hoje, em 2017. Que estamos sempre girando em torno de uma mesma coisa, isso é um fato; a frustração é sobre a nossa repetição automaton na condição de civilização.

Livro: Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena, Vol. 1 – os primeiros psicanalistas 1906-1908.

Sobre a educação sexual em 1908

Por Aline Sieiro em 17/01/2017 22:59

Na reunião de 18 de dezembro de 1907, os primeiros psicanalistas conversaram sobre os traumas sexuais e a educação sexual. Segundo Hitschmann, uma educação sexual se fazia necessária, ao modo de um “esclarecimento”. Steiner, ao final do encontro, afirma que a única educação sexual provém dos traumas. E que uma espécie de “neurose de informação” se apoderou dos homens. Não sei vocês, mas eu acho sensacional observar que: (1) Psicanalistas a trabalho não tem nenhum problema em discordar e fazer isso virar construção teórica e (2) É dos primórdios da Psicanálise a discussão em torno da educação sexual via informação versus a sexualidade como impossibilidade de recobrimento pela razão.

Gracinha demais essas Atas. Recomendo a leitura.

Livro: Atas da sociedade psicanalítica de Viena Vol. 1: Os primeiros psicanalistas 1906- 1908

 

De quem são as histórias que a gente conta?

Por Aline Sieiro em 26/07/2016 17:50

Tenho pensado demais sobre a escrita e sobre as histórias que a gente conta. Desde pequena aprendi que esse negócio de narrar histórias é importante. Ainda muito nova, acompanhava minha mãe na época de mestrado: ela ia estudar numa sala em que as pessoas contavam suas histórias e sempre saiam chorando. Eu achava aquilo curioso, não entendia como as pessoas achavam bom ir para uma sala, toda semana, contar suas histórias e sempre sair chorando. Minha mãe é pesquisadora e trabalha com pesquisa narrativa. Ainda acho perigoso o trabalho que ela faz (haha #interna), mas hoje entendo bem mais a linha de pesquisa e os objetivos que envolvem esse tipo de pesquisa.

Algum tempo depois, fui secretária de uma psicóloga. Me lembro da sensação que era observar, o dia todo, a entrada e a saída de todo tipo de gente com cara de choro. Ficava fascinada, tentando imaginar o que acontecia lá dentro e que histórias aquelas pessoas contavam. Quando a psicóloga não estava lá, eu entrava na sala vazia e ficava fantasiando sobre aquele monte de gente e suas vidas. Por que raios as pessoas iam lá toda semana e saiam com cara de choro? O que leva alguém a contar sua história e por que isso é importante?

Dos caminhos que me fizeram chegar na psicanálise, esses foram alguns momentos importantes do processo. Hoje sou eu que escuto, vivo e escrevo algumas dessas histórias, para fazer a transmissão da psicanálise via caso clínico. E me pergunto: como contar as histórias que vivo com os analisandos, alunos, supervisionandos, para fazer transmissão do ofício do psicanalista, da importância de tentar nomear algo sobre o irrepresentável da vida e da particularidade de cada um?

Todo psicanalista tem como parte do seu trabalho a escrita de caso clínico, bem como a apresentação de trechos clínicos em eventos. Mas a escrita de um caso clínico, ainda que seja já uma outra versão do que foi vivido entre analista e analisando, é “baseada em fatos reais” (se é que posso brincar com essa frase tanto utilizada nas ficções). Há algo de particular e íntimo sobre a maneira como cada um vive e sente suas angústias que será sempre compartilhado e reconhecível pelo sujeito envolvido. Afinal, não é justamente disso que se trata uma análise? Da maneira particular como cada sujeito põe em movimento sua angústia frente a impossibilidade? Antes da internet, essa questão era facilmente deixada de lado, já que era muito mais simples fazer isso sem se preocupar muito com os efeitos dessa narrativa na vida dos pacientes. Quando contamos um caso clínico, ainda que ela seja uma versão do analista sobre o que ocorreu em análise, ainda se trata do analisando, de sua história e de como ela foi construída com o analista. Freud, mesmo protegendo a identidade de seus pacientes, não conseguiu evitar que soubéssemos que eram. Alguns se revelaram por conta própria, outros eram amplamente discutidos nos meios psicanalíticos e acabaram chegando na boca do povo. Há relatos, por exemplo, sobre a perturbação que foi para o homem dos lobos a publicação de seu caso por Freud; em dado momento chegou a dizer publicamente que só foi usado pela psicanálise e que nunca foi cuidado, crítica que ganhou força a partir da publicação posterior de discordâncias de alguns psicanalistas frente ao diagnóstico freudiano do caso. Controvérsias a parte, há uma questão ética, em diversos níveis, que se apresenta quando contamos uma história. Especialmente quando se trata de um caso clínico de uma análise em andamento.

Em algumas ciências vizinhas, essa preocupação perde o lugar frente a necessidade de ensinar e fazer a ciência evoluir. Pelo bem da ciência, passamos por cima das pessoas. Nossos colegas da medicina, por exemplo, não encontram outras maneiras de realizar seu ensino. Já no passado eram conhecidos pelas famosas cenas de apresentação de caso, aquelas cenas clássicas em que o paciente é exposto em um auditório lotado de estudantes que aprendem. Hoje a cena mudou um pouco sua configuração, mas basta uma visita aos hospitais de residência médica para encontrar por lá a mesma realidade. Em psicanálise a gente não apresenta o paciente dessa maneira tão concreta, mas quando apresentamos os casos clínicos, fazemos uma versão dessa mesma lógica da apresentação dos pacientes. O que nos diferencia? Há diferença? Há.

A escrita de caso clínico, em psicanálise, é permeada por uma ética particular. Esse item merece um texto próprio, que não pretendo responder agora. Passo por esse tema apenas para chegar na atualidade, no mundo em que o google não esquece e tudo encontra. Se no passado a questão já existia, hoje ela é potencializada pela internet. Como escrever e apresentar um caso clínico que pode ser importantíssimo para a transmissão da psicanálise, por exemplo, num caso de paranóia, em que a simples menção a possibilidade de escrita, para o analisando, pode desencadear o próprio processo paranoico? Apostamos no trabalho de escrita como parte do trabalho, ainda que isso possa afetar diretamente a direção de tratamento? Questões, muitas questões que o tempo contemporâneo nos faz repensar sobre a transmissão da psicanálise e na escrita de caso clínico.

Ainda que sejam questões difíceis e impossíveis de universalizar, os psicanalistas seguem escrevendo casos clínicos. Contardo Calligaris, por exemplo, não só escreve sobre seus pacientes, como fez até uma série sobre isso. Ainda que ele misture casos e não fale especificamente de nenhum deles, ele fala de todos eles. Uma amiga psicanalista diz que ele faz sucesso roubando as histórias dos analisandos. Não concordo, mas também não discordo. A quem pertencem as histórias que são vividas por mais de uma pessoa? Como contar da experiência de ser analista e qual o limite do que se conta quando o ser do psicanalista envolve as histórias de seus analisandos?

Outro dia meu filho mais velho “me autorizou” a escrever minha história sobre a maternidade dele. Foi uma história traumática que eu quase nunca conto porque sei que ela envolve nós dois de uma maneira cheia de dor. Ele me disse que eu deveria contar, que eu poderia ajudar as pessoas contando sobre as dores que passamos, pela minha perspectiva. Ele está com 17 anos e passando pela escrita, tentando construir ele mesmo suas histórias e narrativas. Agradeci a autorização que ele me deu, mas minha escrita não passa por esse lugar. Não é da posição de protagonista de uma história que a escrita me interessa. Nesse sentido, entendo que a escrita de um caso clínico, do lugar de analista, não é sobre o que o psicanalista sabe, vive ou sofre. A escrita de um caso clínico e o que se transmite tem a ver com um não saber que é posto a trabalho pelo analisando. Trabalho feito a dois, mas em que o analista é apenas semblante de objeto a, causa de desejo. Assim, como escrever sobre o traumático da vida do analisando para que isso ganhe outras possibilidades de amarração na análise e também na escrita do que foi vivido em análise?

A primeira vez que fui fazer uma pesquisa, ainda na faculdade, eu queria reencontrar ex-pacientes da clínica escola para descobrir os efeitos do processo terapêutico vivido no tempo que eles usaram o serviço. O conselho de ética me proibiu, dizendo que não poderia correr o risco de reviver nos pacientes algo de traumático deles. Mas se um processo terapêutico é justamente o encontro com o real e a possibilidade de borda (e não uma eterna evitação do real), aquela resposta não fazia muito lógica pra mim, já naquele tempo. Eis que hoje me vejo tendo esse mesmo cuidado, não para evitar o encontro com o real, mas para ter responsabilidade frente a maneira como cada um lida com suas questões. Recentemente, fui participar de um evento de psicanálise em que contar alguns casos clínicos faria grande diferença na discussão do tema. A plateia era feita de estudantes de psicologia, em sua maioria, e poder falar com eles sobre teoria a partir da prática é algo que eu acredito e que faz parte do meu estilo na transmissão que faço da psicanálise. Mas cada vez mais me pergunto sobre como falar de pontos importantes de casos clínicos, publicamente, quando esses pacientes (ainda em tratamento) terão acesso. Terão acesso ou por estar na plateia (porque atendo muitos estudantes de psicanálise), ou por esse material chegar na internet. Ainda que tenham autorizado, os efeitos dessa história recontada por mim, na escrita do caso clínico pode afetar diretamente o tratamento e a vida desse paciente, no hoje, no presente.

Questões ainda sem resposta, que vou trabalhando no particular, com cada paciente, quando isso vem a ser uma questão na análise. Cada vez mais entendo que a minha transmissão tem como marca a escrita da experiência, do vivido, do que se faz a dois (e a muitos) quando se fecha a porta de um consultório. Por um tempo achei que isso era muito expositivo, não só para os pacientes tomados como caso clínico, mas também para mim na minha função de analista. Mas, como disse acima, há algo que é necessário se transmitir, sobre uma experiência de análise. E essa escrita leva a marca do analisando, mas leva minhas marcas também. A escrita tem algo mesmo de um traço, do resto e de um efeito do encontro entre sujeito e Outro: algo sempre se perde e fica apagado, mas é impossível remover as marcas particulares de quem fala e de quem escuta. Hoje sei que cada teoria responde a essa questão a sua maneira, inclusive na psicanálise. Mas, mais uma vez, estou procurando a minha maneira de responder a todas essas questões importantes que surgem quando estamos misturados com o ofício e a transmissão da psicanálise. Sobre como cada paciente faz a escrita de sua existência na vida quando não há palavras para descreve-la. Sobre como eu faço testemunho e transmissão desse percurso tão particular. Uma amiga me disse que a gente só escreve em torno do inacessível, de um negativo. É isso. “Não há como entrar na teoria sem passar (e sofrer) os efeitos de um estilo. A inclusão do efeito transferencial no próprio ato de transmissão da psicanálise é o motor do que a impede de ser cristalizada na lógica do discurso universitário” (Leite, N.). Então, vou encarar a passagem pelo escrito. No meu estilo. Me acompanham?

Sobre o aeroporto, um menino e o excesso de bagagens

Por Aline Sieiro em 21/07/2016 16:22

 

Dessa vez eu estava indo para Cartagena, na Colômbia. Mas quem eu encontrei primeiro não foi nenhum colombiano e nenhuma praia, foi um garotinho lindo e perdido chamado Christopher.

Estava com meus amigos, fazendo check-in no aeroporto internacional de Guarulhos. Fazia muito frio em São Paulo e reparei em uma senhora e uma criança sentados no chão do aeroporto, perto de uma das portas de entrada. Percebi que no guichê ao lado do meu, um senhor, funcionário da companhia aérea, falava alto e resmungava qualquer coisa enquanto se dirigia a senhora e ao menino, que devia ter no máximo sete anos. Algo dessa cena me capturou. O menino parecia perdido, sem saber o que fazer, enquanto sua avó lamentava e o funcionário falava sozinho.

Escutei o funcionário, que me explicou toda situação: a senhora possuía sete malas de viagem e essa quantidade ultrapassava o limite permitido pela empresa aérea. Deveria escolher apenas quatros malas. Frente a esse problema, a senhora sentou no chão, num misto de choro, lamento e incompreensão, sem conseguir escolher. O menino não sabia o que fazer, a não ser segurar sua mochila e um pote de iogurte. E o funcionário da empresa pedia encarecidamente para que ela decidisse, pois perderia o voo. Ele dizia que queria muito ajudar, que era cristão, mas que não poderia fazer milagres. Ela precisava escolher as malas e abandonar algumas. A senhora apenas falava algo que parecia ser francês, mas uma língua-lamento que ninguém entendia, a não ser o próprio menino, Christopher. Ele falava português e tentava traduzir o que era dito para a senhora, e vice-versa, mas parecia muito perdido com o que estava acontecendo.

Conversei com o funcionário sobre quais seriam as possibilidades da senhora, se ela quisesse levar todas as malas. Outra funcionária se aproximou e disse que ela poderia pagar a multa por excesso de bagagem e levar todas as malas, mas quatro delas iriam como mala de mão. Conversei com Christopher, pedi para ele tentar explicar a situação para a avó (já que ao tentar conversar com ela, não nos entendíamos). Ele conversava com ela, mas parecia envergonhado. Não traduzia para nós o que ela dizia. Logo fui entendendo que ela não tomaria nenhuma decisão, que ficaria ali em seu lamento e isso parecia deixar Christopher totalmente sem ação. Perguntei a ele se ela tinha dinheiro. Ele conversou com ela, e ela me entregou alguns dólares e reais. Fizemos os cálculos e percebemos que aquele valor pagaria o excesso de malas.

Com o dinheiro, pagamos a multa para as malas. Seiscentos reais. Muito dinheiro!! E mesmo assim uma mala ficaria no aeroporto. O que estava naquelas malas parecia ter muita importância para aquela senhora. Com isso resolvido, precisávamos abrir as malas que seriam levadas na mão para tirar objetos que poderiam ser barrados, como líquidos e comidas. Pedi ajuda ao menino para abrir as malas. Fizemos tudo isso enquanto a senhora já lamentava menos, mas apenas observava a movimentação com as malas. Quando ele abriu as malas, tudo que vimos eram coisas muito simples: brinquedos que pareciam ter saído das lojinhas de R$ 1,99; vestidos de tecido barato; sapatos aparentemente comprados na 25 de março; enfim, tudo muito simples. Nada daquilo valeria os seiscentos reais da multa. Algumas fotos caíram da bolsa da senhora e logo fomos percebendo que o valor daqueles itens não era mesmo financeiro, mas sim afetivo… A cada item que tirávamos da mala, porque não poderia ser levado, a senhora chorava e lamentava, mais uma vez. Parecia que estávamos tirando pedaços do corpo dela. Christopher estava inquieto, por vezes embotado, mas seus olhos não me enganavam: estava triste, perdido. A única coisa que disse que é que levaria sua mochila com seus brinquedos. Assim, tiramos diversos objetos e entendi que precisaríamos carregar este menino e essa senhora até a sala de embarque, pois eles não dariam conta nem do peso das malas e nem do peso emocional, seja ele qual fosse.

E lá fomos nós, eu e meus amigos, carregando as malas do menino e da senhora. Eu tentava entender o que estava acontecendo, indignada por pensar que haviam deixado aqueles dois no aeroporto naquelas condições. Mas, algo mais importante estava acontecendo ali. Mesmo sem entender nada, eu já estava extremamente tocada por essa confusão e fiquei ao lado do menino e fui tentando conversar. Perguntei quem ela era e descobri que não era avó, era uma tia. Descobri também que ele estava deixando pai e mãe no Brasil (e por isso muitas vezes olhava para os portões do aeroporto, parecendo em busca de alguém); que estava indo para Porto Príncipe com a avó morar lá, mas não sabia porquê. Basicamente, ele não sabia porque estava indo viajar, parecia não ter muita intimidade com a tal tia e quando mencionei os pais, sobre saudade e afins, ele quase chorou e não quis mais conversar. O que ficou claro é que ele realmente não estava entendendo muito tudo que estava vivendo, mas sabia que estava indo embora morar em outro país.

Ao entrar na sala de embarque, pude pegar os documentos e passaportes dos dois. Os passaportes eram franceses. Não entendi como ele poderia ser brasileiro com passaporte francês, mas achei que se tivesse algo de errado com essa viagem, aparecia na hora que passássemos na policia federal. Passamos e nada aconteceu. Qualquer que fosse a história de Christopher, estava legalizada. Deixamos os dois na frente da sala de embarque. Estávamos exaustos, física e emocionalmente. De longe, observei o menino e percebia o quanto ele parecia sozinho, triste, perdido. Minha vontade era de ficar do lado dele e conversar mais, mas entendi que dali pra frente eu não poderia mais fazer muita coisa por ele. Segui meu caminho.

Quando eu sai de casa, naquele dia, sabia que estava indo para Cartagena, mas não sabia o que estava indo encontrar. Gosto de viajar porque no mundo a gente vive os encontros e desencontros com os mais variados tipos de pessoas e culturas. Porque a vida é feita disso, de movimentos, encontros, desencontros e o que a gente faz com tudo isso. Meu encontro com Christopher nunca mais será esquecido. Ficou um aperto no peito, das tantas histórias que nunca sabemos dessas crianças vivendo as coisas mais doidas pelo mundo. Eu sei que não fiz nada por ele, mas tentei pelo menos estar lá por alguns minutos para construir algum movimento a partir de tanto absurdo e nonsense.

Um dia desses, ao participar de uma palestra sobre a formação em psicanálise, um rapaz me pediu um abraço, mesmo sabendo que “psicanalistas não abraçam”. Circula por aí essa ideia de que o psicanalista lacaniano é frio, arrogante e tantos outros adjetivos peculiares. É tudo verdade. Tem uma hora da vida que é preciso decidir e fazer uma aposta: ou você fica com pena e chora junto com sobre os lamentos da vida, ou você trata as pessoas e as situações com a seriedade necessária, e faz um ato. Quando você fica com pena de alguém e se identifica, entende, você não ajuda. Afeto pra mim não é ter dó, não é agarrar, não é ficar dizendo que ama. Cuidado não é narcísico, não é algo que a gente faz por imagem ou conforto. Topar um laço com um estranho, numa situação estranha, de angústia e desconforto, simplesmente porque aquilo parece que é o que precisa ser feito para que alguém possa, talvez, sair de uma situação de angústia e paralisia, isso pra mim é o caminho do cuidado, do afeto, do laço social. Atos que construímos frente ao nonsense e a impossibilidade da relação sexual.

Eu não faço ideia do que eu fiz ali com aquele menino e nunca vou saber. Mas eu sei que algo aconteceu. E sei que preciso deixar essa marca escrita e registrada, sobre a possibilidade de um encontro no meio do caos. Quando eu vivo e viajo, é pra viver esse tipo de encontro com a vida, com o estrangeiro familiar: pra inventar algo e continuar vivendo. A vida é um eterno não saber em sua relação com o tempo e o espaço. E com as pessoas.

São Paulo e seus RoboCops

Por Aline Sieiro em 11/05/2016 16:41

Minha saída de São Paulo foi fundamental no meu processo de humanização. Isso mesmo que você acabou de ler. São Paulo transforma as pessoas em máquinas. E do pior jeito, disfarçadas de alternativas, livres, descoladas e intelectuais. Mas na primeira esquina, topando com o primeiro mendigo, tudo isso cai por terra.

No remake do filme RoboCop (esse mesmo, rs), tem uma cena em que o cientista explica o que acontece para justificar a excelência do homem-robô:  ele parece humano, mas a máquina consegue controlá-lo de uma maneira que ele acredita ser responsável por seus atos. O chip colocado em seu “hardware” (cérebro), induz a crença da consciência e do livre arbítrio, mas que na realidade não o tem.

Se já não é trabalho suficiente sermos habitados pelo nosso inconsciente e sermos estranhos em nossa própria morada (um outro papo em outro texto), acrescente a este drama humano a crença cega de uma pessoa em sua própria fantasia, já que ela parece garantir um melhor jeito de lidar com o mal-estar da civilização (sendo bastante freudiana). O “ser paulistano” é tão seguro de si e bem resolvido, que no primeiro topão com o real, com a vida como ela é (o mendigo, o drogado, a passeata, a paulista fechada, etc.), tudo desmorona facilmente e desencadeia todo tipo de resposta violenta contra isso que o tira do seu caminho.

Não é preciso sair de São Paulo para dar de frente com o desmonte da Matrix. Alguns guerreiros pretendem implodir essa lógica paulistana de ser por dentro. Confesso que não fui tão forte. Sai do Rio de Janeiro com apenas oito anos e me apaixonei por São Paulo. Foi lá que eu entrei na classe média. Foi lá que eu construí minha identidade paulistana. Foi lá também que eu sofri todos os preconceitos do mundo. Eu costumava ter um discurso pronto sobre como essas situações fortaleciam meu caráter. Dizia que me faziam mais forte, mais tipicamente paulista. Nada mais paulistano, não é esse o discurso? São Paulo ensina as pessoas a trabalhar, a não reclamar, a provar o funcionamento da meritocracia. Ao custo de muito sofrimento psíquico, sem dúvida. Tudo isso é extremamente violento, mas essa parte ninguém conta. Assim como os boletins de ocorrência são mascarados, uma espécie de cortesia e prestatividade funcional escondem as grandes violências contra as minorias. E São Paulo é lotado delas, o que é mais curioso!

Mas então o que acontece com a gente, em SP? Já dizia Criolo: não existe amor em SP. Ficamos igual o RoboCop. Acreditamos na suposta escolha de uma maneira de viver e fazer as coisas, mas é tudo parte de um jeito de uma lógica social que é violenta e apagadora da diferença. Posso afirmar sem medo que São Paulo me ensinou tudo que sei hoje sobre a vida, mas me tornei extremamente babaca no processo. De origem simples e sempre interessada por aquilo que a sociedade considera resto, durante anos (mais de vinte) acreditei e reproduzi todos os grandes chavões paulistanos.

O mais difícil tem sido me reconhecer em tudo isso. Eu também sou parte dessa SP, ela é estranhamente familiar todo mês, quando retorno para visitar. Mas tem algo que já não produz mais laço e que vai resultando apenas em um mal-estar e um gosto amargo quando, andando por lá, encaro de frente toda essa babaquice que não é possível de ser isolada do jeito paulistano de ser.

Nasci no Rio, cresci em SP, moro em Minas. Quando me perguntam de onde sou, não sei o que dizer. Sou de todos esses lugares e de nenhum deles. Mas definitivamente São Paulo é aquele relacionamento abusivo que é instaura um antes e um depois. São Paulo me estruturou e me arrebentou na mesma proporção. Mas fiquem tranquilos. Esse não é um texto de ódio a São Paulo. Pelo contrário. Depois de comer e me fartar tanto desse prato, estou aprendendo a lidar com a indigestão que restou. Dá uma vontade enorme de salvar aquele pedaço subversivo que também é marca de São Paulo, uma São Paulo dos becos mais estrangeiros dessa cidade. A paulista fechada aos domingos é essa subversão escancarada.

Assim, compartilho do meu trajeto para dizer que conhecer o Brasil pode fazer muito bem ao paulistano. Todos nos alienamos a alguma referência e ela sempre será fortíssima, mas é importante nos permitir a aventura pelo que não sabemos do nosso Brasil, nosso pais marcadamente diferente. E não me venham com mais um chavão tipicamente paulistano “ame SP ou deixe-a”! A vida é um eterno ir e vir. Paulistano nenhum vai mudar o fato de que essa cidade foi feita pra circulação dos mais variados tipos de gente. São os paulistanos que esqueceram de circular! Vocês que me perdoem, mas esses são alguns dos caminhos da torção pra SP e para todos os paulistanos!

poesia

O balé e a questão dos gêneros

Por Aline Sieiro em 30/11/2015 16:05

Estive em um evento organizado por uma escola de dança da minha cidade. Foram vinte e cinco apresentações de balé, jazz e outras danças que fazem parte da tradição de muitos meninos e meninas na infância. Eu e Anna (que nunca nos identificamos com o balé) não conseguíamos deixar de nos questionar sobre os diversos aspectos da educação do balé nas nossas infâncias. Na minha época, por exemplo, para fazer jazz ou alguma aula de dança moderna, as crianças eram obrigadas a cursar balé como pré-requisito para cursar outras modalidades. A desculpa para essa obrigação se pautava na premissa de que o balé insere as bases sobre postura, relação com o corpo e sobre teorias básicas da dança que serão necessárias para qualquer outra dança. Sei que essa premissa ainda é forte porque, recentemente, ouvi uma professora de dança da UFU questionando essa maneira de ensinar a dança na atualidade. Ela defendia a possibilidade do ensino da dança a partir de diferentes premissas sobre a relação com o corpo, não necessariamente a partir da tradição do balé. De qualquer maneira, o que foi ficando evidente, a cada dança que acontecia no evento, era que o tradicionalismo não estava somente na ideia de educação do balé, mas sobre o que essa perspectiva de ensino entende sobre corpo e sexualidade.

Preocupadas com as questões de sofrimento de gênero na infância, nos questionamos: Por que a função do bailarino (quase sempre) é ser “aparador” da bailarina? Por que todas as bailarinas são meninas? Por que todos os bailarinos são meninos? Para tentar elaborar respostas possíveis, peço para vocês me acompanharem no raciocínio abaixo, com ajuda da tabela.

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A criança está no tempo de constituição da sua relação com o seu corpo. A maneira como cada criança vai lidar com seu corpo e sua sexualidade não é dada, não nasce como uma verdade, um saber pronto. A única coisa que nasce com cada criança são suas marcas genitais, ou seja, o corpo biológico (que obviamente marcam uma diferença e impossibilidade, mas que nada dizem sobre a invenção que cada pessoa vai precisar construir sobre esse corpo-organismo em funcionamento).

Se a criança está em pleno processo de invenção da sua relação com o seu corpo, esse tempo é bastante influenciado pelo seu contato com o social, ou seja, todos os discursos sobre corpo e sexualidade que a antecedem. Desta forma, os adultos que estão no entorno de uma criança contribuem direta e indiretamente para as diversas maneiras que uma criança pode ou não circular na descoberta de seu próprio corpo e sexualidade. A questão vem sendo o fato de que, tradicionalmente, não é permitido que a criança de fato circule e faça invenções. Já são oferecidos a elas papéis claros sobre o que é esperado, sobre quem deve ser a bailarina e sobre como deve ser o bailarino. Para algumas crianças, tudo isso funciona muito bem; mas para outras crianças, a exigência de uma resposta fixa e precoce sobre esses papéis produzem sofrimentos psíquicos intensos.

Voltando ao quadro, uma criança que está no tempo de encontrar uma identificação de gênero para si, não necessariamente vai desenvolver expressões de gênero combinadas. Uma criança pode se reconhecer como menina e ter comportamentos de menino; pode ainda se reconhecer como menino e ter comportamentos de menina (e ainda não estamos falando da combinação disso com os genitais). Assim, (1) é possível que um menino possa ter o desejo de ser a bailarina, sem ter comportamentos femininos? (2) É possível que uma menina possa ter o desejo de ser o bailarino, sem ter comportamentos masculinos? (3) É possível que um menino com comportamentos femininos, possa ter o desejo de ser bailarino? (4) Ou bailarina? (5) E o mesmo para a menina? Como vocês podem perceber, os desdobramentos são diversos! E ainda estamos fazendo apenas o cruzamento entre as questões de identidade e expressão de gênero.

Se é possível que uma criança circule em diversos papéis identitários, podendo ser bailarina ou bailarino independente da sua sexualidade, porque insistimos em achar que essas questões serão o ponto de decisão sobre a sexualidade de uma criança?

Mas as questões não param por ai. Um menino que se identifica com a feminilidade, poderia ele também, ser bailarino ou bailarina, independentemente. O mesmo vale para a menina. (6) Poderíamos, ainda, ter um casal de bailarinos formados por dois homens ou duas mulheres, ainda marcados por uma diferença com relação a posição feminina e masculina.

E se quisermos complicar um pouco mais as questões, inserindo a sexualidade na questão, podemos ainda encontrar (7) um menino que se define como homossexual desejando ser o bailarino, e (8) a menina homossexual desejando ser, mesmo assim, a bailarina. As imagens atreladas aos gêneros também não são óbvias; (9) teremos homens gays que desejarão ser bailarinos ou bailarinas e (10) meninas lésbicas que desejarão ser bailarinas ou bailarinos. E, por ultimo, podendo ser bailarino ou bailarina, (11) observaremos bailarinos (meninos ou meninas) desejando dançar com seu similar e não com seu oposto.

A diversidade é tão grande que assusta muitos professores e adultos. Como lidar com tantas possibilidades? O fato é que continuamos não encarando essa realidade plural, de forma que em uma apresentação de duas horas e meia, com vinte e cinco danças, tudo por ali continua sendo tão… tradicional.

Eu e Anna saímos da apresentação entendendo porque largamos o balé tão cedo. Talvez ele não fosse tão aberto a nossos desejos do tempo de infância, marcando, para nós, a sensação de que ali não cabíamos… “Ah, mas se tivesse sido diferente, talvez ainda tivéssemos dançado!” Nunca vamos saber e nem importa mais, pois encontramos em outros lugares essa abertura para a construção da nossa relação com o corpo. Mas muitas crianças não encontram esses espaços. Como podemos pedir que professores permitam a transmissão dessa possibilidade de invenção para crianças quando eles mesmo ainda não criaram essa relação com o próprio corpo? Por onde começamos, então?

 

 

Indicação de filmes sobre o tema:

Romeus

Tomboy

Billy Eliot

Cinco gerações de mulheres em um jantar de família: histórias de horror sobre o assédio sexual

Por Aline Sieiro em 29/11/2015 00:26

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Estava em um jantar de família com cinco gerações de mulheres: minha avó, minha mãe, minha madrasta e minha prima mais nova. Conversávamos sobre as diversas experiências de assédio que vivemos durante a vida e chegamos a uma triste conclusão: parece que o que foi vivido por minha avó ainda é a mesma realidade vivida pela minha prima. Em relação ao assédio, parece que nada mudou. Compartilhamos narrativas e histórias de homens que, diariamente, mostram seus pintos na rua, roçam seus membros no nossos corpos no metro, passam a mão um pouco a mais até na hora da tatuagem e do exame médico. As situações são tão cotidianas que nos acostumamos a conviver com os sentimentos de vergonha, humilhação e medo.

Outro dia escutei alguns homens dizendo que as mulheres estavam exagerando nas redes sociais; eles diziam que os relatos nas hashtags #primeiroassédio #meuamigosecreto estavam passando dos limites: “ninguém aguenta mais escutar esses mimimis”, eles diziam. Outros diziam que rede social não era lugar para esse tipo de história ou desabafo. Quero dizer para vocês, queridos homens, que se fossemos realmente contar todas as situações de assédio que já passamos, não ia ter rede social que desse conta das repetidas histórias que não cessam de se apresentar em nossas vidas todos os dias, há anos e anos. Se vocês estão cansados de ouvir algumas delas, imagine o quanto nós estamos cansadas de vivê-las; o quanto nos apavoramos quando, num jantar em família, percebemos que muitos anos se passaram e nada disso evoluiu. O machismo está ai para nos aterrorizar sim, todos os dias, quando temos medo de ir fazer xixi na universidade porque sabemos que estudantes de engenharia, medicina, filosofia (e vários outros cursos), ainda hoje, estupram colegas de sala em bandos; quando trabalhadores da construção civil ainda se sentem no direito de abaixar suas calças em plena luz do dia; quando o pai do amigo do seu filho fica te olhando com aquela cara nojenta de tesão enquanto mexe a língua, te comendo com os olhos, em público.

Eu acho é pouco esses relatos. E sei que ainda temos muito medo de dizer nomes, fazer denúncias, porque nunca temos como provar. Pior ainda é quando a retaliação vem das próprias mulheres e de nossos familiares. Até mesmo de alguns analistas que insistem em usar a máxima “somos sempre responsáveis pelos nossos sintomas” para fazer valer o ponto de que, sempre, a culpa é da vítima, se esquecendo que somos inseridos em uma relação direta com a cultura que nos antecede, de um machismo poderosíssimo e muito difícil de derrubar. Vitimismo, vocês podem pensar! Talvez. Algumas mulheres se posicionam mesmo nesse lugar, vivendo e se alimentando dessa devastação por anos e anos. Mas, infelizmente, muitas mulheres nunca tiveram possibilidade de construir outro lugar que não esse que sempre nos foi oferecido de bandeja, gerações após gerações, como o lugar de mulher. Então, eu acho é pouco mesmo a quantidade de narrativas de assédio. Porque quando falamos, fazemos o mal estar surgir e tentamos finalmente sair da posição de vítimas, possivelmente nos tornando agentes de alguma mudança. A idéia é mais ou menos assim: ou vocês encaram o mal estar junto com a gente, para podermos mudar alguma coisa nos próximos anos, ou tudo vai continuar sempre sendo apenas histórias silenciadas, segredos de mulheres em seus jantares de família.