Trabalho apresentado na V Reunião Aberta da Hæresis Psicanálise (2023)

Resumo

O ensaio intitulado “Sobre estar doente”, de Virginia Woolf, versa sobre um corpo-texto que  testemunha sua versão do-ente. O escrito nos convida a desertar das noções de saúde que moldam nossas leituras de corpos, seus estados e sintomas. O texto Woolfiano exibe um descompasso entre a experiência de um corpo falante e dos relatos clínicos dos corpos falados através do pensamento científico biopsicossocial. O referente que nos interessa, na leitura desses corpos, situa-se na inesperada equivocidade que insiste como ruídos inincurraláveis animando desconcertos de lalíngua. Um corpo do-ente é, sobretudo, um corpo falante capaz de habitar a linguagem ao gritar, silenciar, falar, cantar, dançar e escrever sem se deixar dominar integralmente pelas vias de significação universal. Estar do-ente é perder a falsa familiaridade com o mundo e recobrar o contato com um estranhamento incômodo e íntimo. Virginia Woolf não estava preocupada em circunscrever um estatuto epistemológico para o adoecimento. Seu compromisso com as letras e suas funções referenciais animam outra causalidade para a existência do falasser que escreve. Por isso, a escritora configura a doença como um estado de transformação que descortina assombrosas terras desconhecidas. Assim, partimos da letra de Woolf para abrir caminhos que nos permitam reconhecer, na escuta analítica, existências dos-entes e seus monstruosos e variados usos da língua. Tal orientação baliza a configuração de uma hipótese (em construção) sobre o estatuto do corpo a partir da psicanálise lacaniana nos anos setenta. A noção de corpo falante, concebida por Shoshana Felman e sustentada topologicamente por Jacques Lacan, realiza a escrita das intermináveis deformações de um corpo. Os movimentos de escrita, nodais e modais, promovem um atravessamento não apenas das fantasias imaginárias que articulam esse corpo ao sistema social, mas enfrentam, ainda, uma travessia das estruturas simbólicas de sexo-gênero e identidades que permanecem ensurdecendo analistas e analisandos no reconhecimento das monstruosas e incabíveis invenções. Os movimentos de decisão do sujeito, Preciado nomeia, à sua maneira, como dissidência. Inspirada por esse afrontamento epistêmico nos modos de leitura e escrita do corpo, na condição de monstruoso, interrogo: como a incidência do dizer, que ressoa como um desconcerto de lalíngua, pode ser traduzido a partir dos emaranhados borromeanos em uma análise?

Para citar – dados bibliográficos

ACCIOLY, A. Monstruosa língua do-ente. Em Anais da V Reunião Aberta da Haeresis Associação de Psicanálise, Uberlândia: 2023. Disponível em http://www.alinesieiro.com.br/2023/10/27/monstruosa-lingua-do-ente/