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São Paulo e seus RoboCops

Por Aline Sieiro em 11/05/2016 16:41

Minha saída de São Paulo foi fundamental no meu processo de humanização. Isso mesmo que você acabou de ler. São Paulo transforma as pessoas em máquinas. E do pior jeito, disfarçadas de alternativas, livres, descoladas e intelectuais. Mas na primeira esquina, topando com o primeiro mendigo, tudo isso cai por terra.

No remake do filme RoboCop (esse mesmo, rs), tem uma cena em que o cientista explica o que acontece para justificar a excelência do homem-robô:  ele parece humano, mas a máquina consegue controlá-lo de uma maneira que ele acredita ser responsável por seus atos. O chip colocado em seu “hardware” (cérebro), induz a crença da consciência e do livre arbítrio, mas que na realidade não o tem.

Se já não é trabalho suficiente sermos habitados pelo nosso inconsciente e sermos estranhos em nossa própria morada (um outro papo em outro texto), acrescente a este drama humano a crença cega de uma pessoa em sua própria fantasia, já que ela parece garantir um melhor jeito de lidar com o mal-estar da civilização (sendo bastante freudiana). O “ser paulistano” é tão seguro de si e bem resolvido, que no primeiro topão com o real, com a vida como ela é (o mendigo, o drogado, a passeata, a paulista fechada, etc.), tudo desmorona facilmente e desencadeia todo tipo de resposta violenta contra isso que o tira do seu caminho.

Não é preciso sair de São Paulo para dar de frente com o desmonte da Matrix. Alguns guerreiros pretendem implodir essa lógica paulistana de ser por dentro. Confesso que não fui tão forte. Sai do Rio de Janeiro com apenas oito anos e me apaixonei por São Paulo. Foi lá que eu entrei na classe média. Foi lá que eu construí minha identidade paulistana. Foi lá também que eu sofri todos os preconceitos do mundo. Eu costumava ter um discurso pronto sobre como essas situações fortaleciam meu caráter. Dizia que me faziam mais forte, mais tipicamente paulista. Nada mais paulistano, não é esse o discurso? São Paulo ensina as pessoas a trabalhar, a não reclamar, a provar o funcionamento da meritocracia. Ao custo de muito sofrimento psíquico, sem dúvida. Tudo isso é extremamente violento, mas essa parte ninguém conta. Assim como os boletins de ocorrência são mascarados, uma espécie de cortesia e prestatividade funcional escondem as grandes violências contra as minorias. E São Paulo é lotado delas, o que é mais curioso!

Mas então o que acontece com a gente, em SP? Já dizia Criolo: não existe amor em SP. Ficamos igual o RoboCop. Acreditamos na suposta escolha de uma maneira de viver e fazer as coisas, mas é tudo parte de um jeito de uma lógica social que é violenta e apagadora da diferença. Posso afirmar sem medo que São Paulo me ensinou tudo que sei hoje sobre a vida, mas me tornei extremamente babaca no processo. De origem simples e sempre interessada por aquilo que a sociedade considera resto, durante anos (mais de vinte) acreditei e reproduzi todos os grandes chavões paulistanos.

O mais difícil tem sido me reconhecer em tudo isso. Eu também sou parte dessa SP, ela é estranhamente familiar todo mês, quando retorno para visitar. Mas tem algo que já não produz mais laço e que vai resultando apenas em um mal-estar e um gosto amargo quando, andando por lá, encaro de frente toda essa babaquice que não é possível de ser isolada do jeito paulistano de ser.

Nasci no Rio, cresci em SP, moro em Minas. Quando me perguntam de onde sou, não sei o que dizer. Sou de todos esses lugares e de nenhum deles. Mas definitivamente São Paulo é aquele relacionamento abusivo que é instaura um antes e um depois. São Paulo me estruturou e me arrebentou na mesma proporção. Mas fiquem tranquilos. Esse não é um texto de ódio a São Paulo. Pelo contrário. Depois de comer e me fartar tanto desse prato, estou aprendendo a lidar com a indigestão que restou. Dá uma vontade enorme de salvar aquele pedaço subversivo que também é marca de São Paulo, uma São Paulo dos becos mais estrangeiros dessa cidade. A paulista fechada aos domingos é essa subversão escancarada.

Assim, compartilho do meu trajeto para dizer que conhecer o Brasil pode fazer muito bem ao paulistano. Todos nos alienamos a alguma referência e ela sempre será fortíssima, mas é importante nos permitir a aventura pelo que não sabemos do nosso Brasil, nosso pais marcadamente diferente. E não me venham com mais um chavão tipicamente paulistano “ame SP ou deixe-a”! A vida é um eterno ir e vir. Paulistano nenhum vai mudar o fato de que essa cidade foi feita pra circulação dos mais variados tipos de gente. São os paulistanos que esqueceram de circular! Vocês que me perdoem, mas esses são alguns dos caminhos da torção pra SP e para todos os paulistanos!

poesia

Site Novo

Por Aline Sieiro em 14/04/2011 22:38

Depois de dias corridos e de muito trabalho, volto para mostrar o meu novo site. Ainda é uma versão beta pois temos muitos detalhes e modificações a fazer. Espero que gostem!

Logo voltarei com novos textos, novos podcasts e novos vídeos.

Atentem para o novo endereço e atualizem seus feeds!

www.alinesieiro.com.br

 

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Certas coisas nunca mudam

Por Aline Sieiro em 04/01/2011 22:49

…A melhor herança que um pai pode deixar ao filho não é seu ouro, não é uma viagem à Disneylândia, ou sequer o esforço para pagá-la. É o limite da compreensão, um arbitrário, o cultivo de um silêncio necessário entre as gerações. Freud chamava-o de castração.” J.Forbes

Todo jovem acha que vai mudar o mundo e que vai fazer diferente dos pais, já que esses não tiveram coragem ou capacidade pra mudar e ser diferente. Alguns anos depois, quando se vêem seguindo os passos dos pais, no casamento, por exemplo, querem provar pra todo mundo que o casamento deles é diferente: é mais honesto, é mais comprometido e obviamente vai dar mais certo do que o dos pais. Quando os filhos nascem, mais uma vez o casal se vê unido contra o mundo, pra mostrar que é possível ter uma familia e educar crianças de um jeito melhor e mais efetivo do que foram criados…

O tempo passa, muita coisa muda, mas os conflitos entre gerações nunca mudam. Não mudam e não vão mudar tão cedo. É esse tal desejo de provar pra si mesmo que não é determinado pelo seu passado, pela sua carga familiar e de como é possivel criar um futuro novo, melhor e modelo para as proximas gerações. Acontece que o ciclo sempre vai se repetir.  Por que faz parte de nós esse desejo de ser singular, único e especial, diferente de tudo que já existiu. O que talvez nos falta entender é que podemos ser únicos sem negar nossa história e sem comprometer o nosso futuro.

“Não há relação humana mais fundamental que de filhos com pais e vice-versa. Fundamental e ambivalente: um filho ao mesmo tempo em que representa a continuidade, a prolongação da mãe, ou do pai, é também a sua diferença e o seu limite. É, paradoxalmente, a extrema proximidade e semelhança quem ao mesmo tempo melhor revela a diferença entre as pessoas, o que, para muitos, é insuportável.” J.Forbes

Feliz 2011!

We all want to be young

Por Aline Sieiro em 28/11/2010 22:35

(Com legendas)

Volto já

Por Aline Sieiro em 05/11/2010 16:12

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Múltiplas personalidades: para ler e assistir

Por Aline Sieiro em 26/10/2010 13:50

Sybil conta a história de Shirley e suas 17 personalidades. O livro, de 1971, foi escrito por Flora Rheta Schreiber com ajuda da própria Shirley e sua psicanalista – Cornélia Wilbur. No livro, a autora consegue descrever e contar a história com riquezas de detalhes. Descobrimos um pouco de cada personalidade, suas curiosidades, a forma como as transições aconteciam e que tipo de tratamento ela desenvolveu durante anos.

O livro nos dá a oportunidade de conhecer um pouco sobre personalidades multiplas e ao mesmo tempo de discutir a questão diagnóstica, uma vez que ainda hoje se discute se o caso dela era realmente de multiplas personalidades, histeria ou mesmo pura sugestão.

No filme, Sally Field faz o papel de Sybil, e mesmo com grandes diferenças na história adaptada para o filme, vale a pena assistir pela brilhante atuação de Sally Field.

No mesmo tema, a série de TV United States os Tara nos apresenta Tara, uma dona de casa com diversas personalidades. Com momentos de humor e de drama, vamos descobrindo junto com a protagonista os detalhes de suas transições e suas possíveis causas. Atualmente a série terá uma terceira temporada.

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A culpa

Por Aline Sieiro em 23/07/2010 15:47

Mais mentirinhas aqui.

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Concurso Público

Por Aline Sieiro em 14/06/2010 23:09

(Se você é deficiente visual, ou simplesmente não gosta de ler, o audio esta no final deste texto)

Quando assistimos filmes “antigos”, que se situam aproximadamente entre 1970/1980, as famílias em geral são retratadas da mesma forma: classe média, o pai funcionário de uma grande empresa que com seu salário garantido sustenta a família. Essa família, em geral, é composta pela esposa (que por sua vez trabalha em casa ou na rua – por opção) e pelos filhos (dois ou três). Uma família feliz, pois consegue ter uma vida boa, fazer viagens de férias, ter seu carro, seus eletrodomésticos e sua casa própria. Nos encontros com os vizinhos, cada um fala muito bem de sua empresa e de seu trabalho, e de como a estabilidade é o melhor bem que o emprego pode dar.

Mas o tempo foi passando e o capitalismo foi entrando em crise. Com ele, as empresas também mudaram sua forma de tratar os empregados, que cada vez tem que trabalhar mais, com menos benefícios, e sem garantia de que terão o emprego no dia seguinte. Com essa mudança de mercado, o desejo das pessoas também foi mudando. Elas começaram a almejar cargos e posições públicas pois estes oferecem  garantia vitalícia de emprego, apesar dos salários não serem tão competitivos como o mercado. Além dessa garantia (que por si só já atrai 90% dos “concursandos”), todos nós sabemos do velho e famoso ditado: quem é funcionário público ganha pra trabalhar pouco. Sem o medo de ser mandado embora não há uma exigência em produção e qualidade de serviço executado. Quem aqui já não precisou de um serviço público? Nessas horas sabemos bem como as coisas funcionam (com raras exceções – que vou discutir mais tarde).

Com esse novo objetivo traçado, centenas de brasileiros começaram a dar uma atenção maior aos chamados concursos públicos. E com isso houve também um crescimento na oferta dos cursinhos, essas escolas que fazem um preparatório para provas de concursos. E a partir daí, acho que podemos dividir essa galera em dois grupos:

1) Qualquer coisa tá valendo: nesse grupo, temos aquelas pessoas que querem ser funcionárias públicas. O cargo? Isso não importa. O primeiro concurso que sair, essa pessoa vai prestar, e vai prestar todos os outros, na sequência, até passar. Um graduado em direito, por exemplo, vai prestar para vagas de delegado, promotor, procurador, juiz, fiscal… Enfim, vai prestar em todas as áreas que sua formação permite. O importante é mamar nas tetas do governo, ter seu emprego garantido, trabalhar o mínimo necessário e ficar tranquilo para o resto da vida. Acontece, muito raramente, de um funcionário público desse grupo realmente se interessar por sua profissão (pura sorte) e aí realmente trabalha pra valer, fazendo valer o salário que o povo paga pra ele.

2) É isso que eu quero: nesse grupo, as pessoas não querem qualquer profissão. Elas já sabem o cargo que querem exercer, e portanto vão estudar e focar naquele objetivo. No fundo, o que elas querem é exercer a profissão, seja onde for. Mas como o mercado não anda bom pra ninguém, os concursos são uma oportunidade de ela exercer sim a profissão que quer, fazendo o que gosta, e ao mesmo tempo tendo o seu salário garantido. Essas pessoas entram com uma sede de trabalho muito grande quando passam no concurso. Mas algumas acabam entrando no esquema folgado, porque percebem que querer trabalhar quando ninguém quer é muito difícil e dá muita dor de cabeça. Algumas poucas continuam brigando pra trabalhar (isso parece ridículo, mas é a mais pura verdade) e trabalham mesmo, pesado.

Acontece que quando uma pessoa decide prestar o concurso público, ela pensa que o mais difícil é a parte do estudo, ou seja, passar na prova. Muitas pessoas passam anos e anos de suas vidas estudando, e por vezes são engabeladas por editais de concursos que só querem mesmo enganar os coitados. Digo isso porque muitas pessoas deixam suas vidas em pausa pra estudar, pagando esses concursos, ou mesmo gastando seu dinheiro com livros, etc. Tudo em prol da tão sonhada vaga. Essas pessoas já enfretam um problema: muitos editais de concursos são feitos só pela burocracia: algumas pessoas já trabalham nos cargos do edital, mas como contratadas, ou substitutas, e os editais pretendem oficializar essas pessoas nos cargos. Mas como são obrigados a dar oportunidades para todos, lançam editais “engana-trouxa”. É horrível esse nome, mas não poderia ser dado outro. Esses editais já são preparados para encaixar exatamente os perfis daqueles para as quais as vagas se destinam, ou seja, os que já trabalham na área (ou os apadrinhados, por ‘n’ motivos). Como um número grande de pessoas consegue preencher os requisitos, o segundo passo é preparar uma prova em que os apadrinhados vão melhor do que o povão. E o terceiro passo, em geral numa fase subjetiva, os critérios não ficam claros, e mais uma vez os apadrinhados terão grandes chances. Esses são os editais em que eles conseguem arrecadar bastante dinheiro (das inscrições) e no final não se vê muita supresa, quando os aprovados são em 80% as pessoas apadrinhadas.

Há ainda aqueles casos em que os apadrinhados não conseguem passar. Aí temos um segundo problema que é a convocação. Então você está feliz da vida porque passou, mas percebe que nunca é convocado. Até desiste, já que a validade desses concursos é cada vez menor. O que você não sabe é que muitas vezes, mesmo com candidatos aprovados, eles continuam contratando (por fora) ao invés de convocar os aprovados. Se você bobeia e deixa de acompanhar o diário oficial (em muitos concursos, o aprovado só tem como acompanhar as convocações e contratações pelo diário oficial), você tem grandes chances de ter sido passado pra trás mais uma vez.

Eu poderia ficar aqui contando todas as situações em que os concursos são mero teatro, mas vou falar do outro lado da história. Muitas pessoas acabam ficando espertas com esse movimento todo, e ficam de olho, atentas. Não desistem, e quando percebem alguma coisa desse tipo, brigam, lutam. Entram com recursos, pedem anulação do edital para o MP… Enfim, há muita coisa que pode ser feita quando se tem indícios de fraude nos concursos. Uma pena que a grande maioria, mesmo sabendo disso, não tem a força para entrar em um processo, e acaba deixando pra lá. Mas quem tem força consegue muitas vezes anular concursos e ter uma nova oportunidade verdadeira. Não posso deixar de falar também nas universidades e estados que fazem sim concursos íntegros, dos quais muitas pessoas se beneficiam. Mas, na dúvida, é bom ficar alerta.

De qualquer forma decidi falar de tudo isso hoje porque percebo a inocência do chamado “povão” quando sonha com o cargo público. Mas a verdade é que poucos se beneficiam e conseguem essas vagas. O grande resto enche os cofres dos cursinhos, da conta do concurso público, e é só número pra fazer volume. Essas pessoas, em geral, nem sabem porque querem prestar o concurso público, porque em geral estão naquele primeiro grupo que eu descrevi acima. E quando falo em inocência, quero dizer das mil maneiras que o governo e a sociedade têm de enganar o povão. Damos os sonhos, dizemos que eles podem sonhar com ‘a’ e ‘b’, e no fundo sabemos que as chances desses sonhos se concretizar são mínimas. E temos que pensar nisso também, que sonho é esse que nossa sociedade produziu, no qual o grande objetivo é mamar nas tetas do governo. Estamos vivendo um momento político muito assistencialista: não produzimos melhores condições, pelo contrário, damos algo para o povo ficar satisfeito e calado. E os sonhos e objetivos das pessoas têm refletido isso, como esse sonho de concursos públicos. Isso é muito perigoso, porque cada vez mais deixamos as pessoas acreditarem que o melhor pra elas é mamar nas tetas de alguém, e não exigir condições para ser independente.

O quanto antes pudermos denunciar essa prática (em todos os setores), mais damos chance para que as pessoas possam pensar criticamene e de fato escolher seus sonhos e objetivos para além daquilo que a sociedade mostra que devemos e podemos desejar. Mas, se o seu sonho for esse mesmo, então tenha peito pra brigar pelo que é certo, porque será um longo caminho a ser trilhado, caminho esse que não termina com sua aprovação.

Leia também: Brasileiro vai ser sempre brasileiro

Planos de Saúde

Por Aline Sieiro em 08/06/2010 19:02



Procuro sempre ter um olhar crítico em relação às “coisas boas” que nos acontecem, principalmente quando elas têm um fundo político ou corporativo. Não seria diferente para os planos de saúde.

Minha briga com planos de saúde já não é de hoje, e já fiz um post aqui em relação a isso. Nunca acreditei que a idéia por trás dos planos de saúde fosse ruim, e sim que é mal executada. E quando se fala em dinheiro, num sistema capitalista, não podemos esperar coisas muito diferentes. Quando os dentistas entraram para o esquema, percebi que eles percorreram (e ainda percorrem) o mesmo caminho. E por fim é a vez dos psicólogos, fonoaudiólogos entre outros “novos” profissionais incluídos nos planos de saúde. Mas vamos por partes.

Meu problema com os planos de saúde está no modo como as coisas ocorrem. Uma pessoa paga um valor mensal, e com isso teria direito a médicos, exames, cirurgias, que se ela fosse pagar, talvez não pudesse arcar com tais valores. Então, pagando um valor mensal, quando houver necessidade de um exame caro, ou mesmo de uma cirurgia, ela não precisaria conseguir o montante necessário em poucos dias. Por outro lado, o médico não ter que tratar de dinheiro com o paciente, poder atendê-lo tranquilamente e no final do mês ter seu “salário” garantido, é considerado um benefício.

As pessoas gostam de fazer planos de saúde pois na saude pública, quando precisam de um médico ou tratamento, são obrigadas a entrar em filas de espera que podem ser de 15 dias a 3 meses. Em uma sala de emergência, a espera para um atendimento pode durar até cinco horas. Por isso ter plano de saúde particular, nos casos de emergência, agiliza e garante o atendimento. Mas quem tem plano de saúde sabe que não é isso que acontece.

O que acontece é que muitas pessoas pagam o plano de saúde, ou seja, os planos conseguem o montante necessário para manter a rede (médicos, exames e hospitais conveniados). Mas, segundo os executivos, esse valor não é suficiente, já que os serviços médicos são muito caros. Ainda sim, pagam para os médicos valores que chegam a dar vergonha de dizer. Se um médico hoje cobra de 100 a 250 reais um consulta (com direito a retorno), muitos planos não pagam nem metade desse valor, e em geral com um, dois meses de atraso. Isso é o início de uma cadeia desagradável, pois já que recebem pouco, os médicos não podem dedicar muito tempo aos pacientes de planos de saúde. Dessa forma, marcam 4, até 5 pacientes para a mesma hora, e em suas agendas, só direcionam alguns dias e horários para pacientes conveniados. Basta ligar e dizer que é particular, e eles tem horário para o mesmo dia. Se for de plano, só mês que vem, as vezes só dali a 2 meses.

Ou seja, ficou ruim pra todo mundo: o médico ganha menos do que acha justo, não fica contente e marca pacientes pra mesma hora, atende a todos eles com rapidez – não conseguindo dar a atenção devida a cada caso; vive com a sala de espera cheia de pacientes bravos porque não são nunca atendidos no horário. Pacientes ficam bravos porque, mesmo pagando seus planos, não conseguem ser atendidos com emergência, e as vezes a espera por uma consulta fica muito parecida com a espera da saúde pública. Quando finalmente conseguem, são sempre atendidos com atraso, e saem de lá com uma lista de exames e pedidos de autorização. Com esses pedidos em mãos, mais burocracia para conseguir as tais autorizações, e quando vão marcar o exame também enfrentam uma demora, que pode perdurar por até um mês. Quando eles finalmente conseguem seus exames e vão marcar retorno com o médico, mais uma vez têm que esperar a agenda, enfrentar novos atrasos, e assim vai o ciclo.

Eu podia continuar aqui falando das exigências dos planos de saúde, da história das doenças pré-existentes, da dificuldade de reclamar, pedir direitos, e das diversas negativas que acontecem quando você precisa de um plano. Mas vou seguir em frente, sem detalhar muito. A idéia principal com essa introdução foi mostrar que o plano de saúde surgiu para prover saúde a todos, e o que temos hoje é uma bagunça exatamente igual a saúde pública. Mas o medo é maior, e mesmo com tantos problemas, continuamos a pagar planos de saúde.

Tempos depois, o mesmo aconteceu com os dentistas (não pretendo me aprofundar no assunto também, só fazer um comentário para seguir a idéia principal do texto). Muitas pessoas deixavam de cuidar de seus dentes, pois era sempre um tratamento caro (e dolorido). É possível que uma pessoa tenha que desembolsar mil, dois mil reais em um tratamento dentário, dependendo da gravidade. Então quando os planos odontológicos surgiram, todos ficamos contentes. Afinal, pagar 20, 50 reais mensalmente e ter direito aos tratamentos tão caros parecia um bom negócio. Mas nada é simples assim: antes você marcava 3, 4 idas ao dentista e conseguia fazer todo seu tratamento. Com os planos, cada ida resultava em apenas um dente feito, ou 1/4 do tratamento realizado. Ou seja, sessões de 15, 20 minutos, e muitas idas ao dentista. E aí fomos descobrindo que os tratamentos realmente caros não estavam incluídos naquele valor mensal. Então era sempre assim: você ia ao dentista e, quando chegava lá, descobria que o que você precisava mesmo fazer teria que pagar do bolso. Oras, mas isso não pode. Pois é, sabemos como as regras funcionam no Brasil.

Então agora vamos falar da inclusão da Psicoterapia nos planos de saúde. Sempre se achou uma injustiça não ter psicólogo, já que saúde mental também é importante para uma pessoa. Com isso, os psicólogos foram incluídos nos planos, mas com algumas condições: a primeira é que o paciente precisa de encaminhamento, ou seja, ele deve passar em um médico, falar de sua condição, e este médico deve decidir se encaminha ou não o paciente para o psicólogo. Depois, se o paciente consegue o encaminhamento, tem direito a 12 sessões no ano. As pessoas ficaram contentes e não pararam pra pensar no que tudo isso significa. Na sequência, outra boa notícia: de 12, passam a ser 40 sessões. É, vendo assim, parece que é bom mesmo. Mas agora, pelo que entendi, só um psiquiatra pode fazer a indicação ao psicólogo, e as 40 sessões vão depender do diagnóstico dado para cada caso. Então vamos falar um pouco de tudo isso?

Pra começar, temos o problema do pagamento: os planos repassam, em geral, o valor de 18 a 30 reais por uma consulta com o psicólogo (valor este que também não costuma ser nem metade do que se cobra em uma consulta particular). E estes valores só são recebidos em 30 dias, com atrasos que chegam até dois meses. Outro problema está no tal encaminhamento: partindo do princípio que o paciente tem que passar primeiro em um médico psiquiatra, os planos de saúde praticam a lei do ato médico, mesmo que as brigas e discussões tenham mostrado que isso é um retrocesso em termos de multidisciplinariedade e respeito profissional. Ou seja, é um médico o responsável por decidir se o paciente deve ou não se consultar com o psicólogo. Eu particularmente acho isso um grande desrespeito com a figura do psicólogo. Sem falar no ponto de vista do paciente: sabemos bem o quanto demora para uma pessoa se decidir e tomar coragem para procurar um psicólogo, com tantos estereótipos sociais que temos. Quando ela finalmente toma coragem, e descobre que primeiro terá que passar em um psiquiatra (sabemos bem outro estereótipo que temos aí), pegar encaminhamento, passar no plano e pegar a autorização, pra daí ir ao psicologo, posso dizer que de 10 pessoas, duas, no máximo, continuarão firmes em suas decisões (as pessoas ligam no consultório querendo atendimento, quando descobrem que tem que fazer tudo isso, não ligam mais, é fato).

Outro problema está em tornar a psicoterapia uma clínica igual a médica, pois parte-se do princípio que temos que diagnosticar para assim decidir quem merece 40 sessões e quem não merece. Nós, que trabalhamos na clínica, sabemos que as coisas não são tão simples assim. Há pacientes cujo “diagnóstico” é complicado e longo, inclusive pacientes difíceis de diagnosticar nesse padrão CID e DSM de ser. Fora isso, as sessões podem ter que acontecer 2 ou até 3 vezes por semana, o que rapidamente esgotaria essa carga de 40 horas, seja um paciente “grave” ou não. E aí, o que acontece depois disso? Ou o paciente interrompe o tratamento, ou ele arcará com o valor para continuar.

Dá-se a ilusão para o paciente de que 40 sessões são suficientes para a “cura”, outro aspecto muito médico, e pouco psicológico, uma vez que a “cura” tem outro sentido para a psicologia.

Assim, chegamos na parte mais importante de todas, que é a diferença entre a forma como a medicina trata o paciente, e a forma como a psicologia trata o paciente. Se falarmos em psicanálise, aí que a distância fica ainda mais gritante.  Por isso a grande tendência é encontrar psicólogos comportamentais ou de terapias breves nesses planos de saúde: porque são as práticas psicoterapêuticas que mais se adequam a esse modelo médico de diagnóstico-cura que a medicina propõe.

Portanto, se eu acho uma coisa boa essa novidade? Não, eu não acho. Mas não vamos ser ingênuos. Sabemos que sempre tem coisa boa nessa bagunça toda. Porém ainda acredito que os benefícios são poucos em relação aos problemas. Falando da minha prática: eu não trabalho com planos de saúde. Se é pra receber de 18 a 30 reais de um plano de saúde, prefiro fazer um acordo com meu paciente e receber esse valor, mas diretamente dele, livre para fazermos nosso contrato. É a minha forma de tornar o tratamento acessível a todos e não me vender a esse processo que não acho justo. Não passo um mês sem pensar que poderia me conveniar e assim ter mais pacientes e indicações. E sei que muitos colegas trabalham com planos de saúde e têm boas experiências com eles. Acho que a decisão de cada um conta muito aqui e cada um trabalha da forma como acha mais certo para si.

Fiz esse post porque escuto muito que a psicologia é elitista (a psicanálise, principalmente), que os psicólogos não gostam de convênios e que cobram caro… Estou escrevendo isto para explicar um pouco mais e mostrar que nem tudo é tão simples quanto parece.

Acredito que podemos nos informar mais, ler mais, e a partir daí tirar nossas próprias conclusões. Mas não podemos ser ingênuos para achar que tudo isso é uma verdade absoluta, porque não é. Estou aqui compartilhando com vocês minhas opiniões e os caminhos que estou traçando, e espero que vocês possam também traçar o de vocês.

(E esse assunto sempre dá uma boa briga, rs.)

Se você não gosta de ler textos grandes, ou tem algum tipo de deficiência visual, eu fiz uma pequena discussão sobre o texto nos vídeos abaixo.

O mundo lá fora da academia

Por Aline Sieiro em 31/10/2009 20:23

Laerte