Associação Livre

São Paulo e seus RoboCops

Por Aline Sieiro em 11/05/2016 16:41

Minha saída de São Paulo foi fundamental no meu processo de humanização. Isso mesmo que você acabou de ler. São Paulo transforma as pessoas em máquinas. E do pior jeito, disfarçadas de alternativas, livres, descoladas e intelectuais. Mas na primeira esquina, topando com o primeiro mendigo, tudo isso cai por terra.

No remake do filme RoboCop (esse mesmo, rs), tem uma cena em que o cientista explica o que acontece para justificar a excelência do homem-robô:  ele parece humano, mas a máquina consegue controlá-lo de uma maneira que ele acredita ser responsável por seus atos. O chip colocado em seu “hardware” (cérebro), induz a crença da consciência e do livre arbítrio, mas que na realidade não o tem.

Se já não é trabalho suficiente sermos habitados pelo nosso inconsciente e sermos estranhos em nossa própria morada (um outro papo em outro texto), acrescente a este drama humano a crença cega de uma pessoa em sua própria fantasia, já que ela parece garantir um melhor jeito de lidar com o mal-estar da civilização (sendo bastante freudiana). O “ser paulistano” é tão seguro de si e bem resolvido, que no primeiro topão com o real, com a vida como ela é (o mendigo, o drogado, a passeata, a paulista fechada, etc.), tudo desmorona facilmente e desencadeia todo tipo de resposta violenta contra isso que o tira do seu caminho.

Não é preciso sair de São Paulo para dar de frente com o desmonte da Matrix. Alguns guerreiros pretendem implodir essa lógica paulistana de ser por dentro. Confesso que não fui tão forte. Sai do Rio de Janeiro com apenas oito anos e me apaixonei por São Paulo. Foi lá que eu entrei na classe média. Foi lá que eu construí minha identidade paulistana. Foi lá também que eu sofri todos os preconceitos do mundo. Eu costumava ter um discurso pronto sobre como essas situações fortaleciam meu caráter. Dizia que me faziam mais forte, mais tipicamente paulista. Nada mais paulistano, não é esse o discurso? São Paulo ensina as pessoas a trabalhar, a não reclamar, a provar o funcionamento da meritocracia. Ao custo de muito sofrimento psíquico, sem dúvida. Tudo isso é extremamente violento, mas essa parte ninguém conta. Assim como os boletins de ocorrência são mascarados, uma espécie de cortesia e prestatividade funcional escondem as grandes violências contra as minorias. E São Paulo é lotado delas, o que é mais curioso!

Mas então o que acontece com a gente, em SP? Já dizia Criolo: não existe amor em SP. Ficamos igual o RoboCop. Acreditamos na suposta escolha de uma maneira de viver e fazer as coisas, mas é tudo parte de um jeito de uma lógica social que é violenta e apagadora da diferença. Posso afirmar sem medo que São Paulo me ensinou tudo que sei hoje sobre a vida, mas me tornei extremamente babaca no processo. De origem simples e sempre interessada por aquilo que a sociedade considera resto, durante anos (mais de vinte) acreditei e reproduzi todos os grandes chavões paulistanos.

O mais difícil tem sido me reconhecer em tudo isso. Eu também sou parte dessa SP, ela é estranhamente familiar todo mês, quando retorno para visitar. Mas tem algo que já não produz mais laço e que vai resultando apenas em um mal-estar e um gosto amargo quando, andando por lá, encaro de frente toda essa babaquice que não é possível de ser isolada do jeito paulistano de ser.

Nasci no Rio, cresci em SP, moro em Minas. Quando me perguntam de onde sou, não sei o que dizer. Sou de todos esses lugares e de nenhum deles. Mas definitivamente São Paulo é aquele relacionamento abusivo que é instaura um antes e um depois. São Paulo me estruturou e me arrebentou na mesma proporção. Mas fiquem tranquilos. Esse não é um texto de ódio a São Paulo. Pelo contrário. Depois de comer e me fartar tanto desse prato, estou aprendendo a lidar com a indigestão que restou. Dá uma vontade enorme de salvar aquele pedaço subversivo que também é marca de São Paulo, uma São Paulo dos becos mais estrangeiros dessa cidade. A paulista fechada aos domingos é essa subversão escancarada.

Assim, compartilho do meu trajeto para dizer que conhecer o Brasil pode fazer muito bem ao paulistano. Todos nos alienamos a alguma referência e ela sempre será fortíssima, mas é importante nos permitir a aventura pelo que não sabemos do nosso Brasil, nosso pais marcadamente diferente. E não me venham com mais um chavão tipicamente paulistano “ame SP ou deixe-a”! A vida é um eterno ir e vir. Paulistano nenhum vai mudar o fato de que essa cidade foi feita pra circulação dos mais variados tipos de gente. São os paulistanos que esqueceram de circular! Vocês que me perdoem, mas esses são alguns dos caminhos da torção pra SP e para todos os paulistanos!

poesia

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