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A certeza delirante
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Já fizeram o ato de recortar frases que uma vez foram ditas e escritas dentro de um contexto, e depois utilizá-las de modo a servir um interesse, uma mensagem pessoal endereçada a um outro? Essa semana uma mensagem me foi endereçada dessa forma. E me fez logo pensar em outra frase e em todo um texto para explicar essa briga de frases.
Fiquei me perguntando de qual contexto saiu o dito da Lispector. Porque, pensando ela dentro de uma mensagem que me foi endereçada, ou seja, para pensar a Psicanálise e seu lugar como ciência e prática, terei que discordar da afirmação. Aliás, para a Psicanálise é fundamental que se duvide, ou seja, que possamos olhar o mundo e os fenômenos podendo duvidar do que está tão claro e certo, e de que é possível criar uma verdade absoluta para todas as coisas.
“… a análise só pode encontrar sua medida nas vias de uma douta ignorância. Do lado do analista, também convém considerá-la, mas aí ela deve ser somente concebida enquanto a “ignorância douta, o que não quer dizer sábia, mas formal, e que pode ser, para o sujeito, formadora” Lacan.
Lacan nos ensinou que um dos grandes desafios do analista é atuar nessa posição de uma douta ignorância. Estudamos muito sim, mas quando estamos com um paciente, é preciso deixar esse conhecimento de lado para olhar a singularidade de quem chega em nosso consultório. Se já recebemos o paciente cheios de certezas, com a lista pronta só aguardando um enquadramento, não será possível escutar o que ele tem a nos dizer, e assim poder entender um pouco da lógica de funcionamento daquele sujeito e de sua verdade particular. É um exercício constante, para o Psicanalista, desse papel de douta ignorância. Mas, para ficar minimamente confortável nessa posição, o próprio analista deve ter passado por sua análise pessoal, de forma a ter tido tempo e disposição de lidar com suas próprias verdades e certezas absolutas e se desprender delas.
Só o psicótico tem tanta certeza sobre tudo. Só ele porta a verdade universal. O psicótico não supõe o saber ao outro, ele tem uma certeza, o psicótico é um sujeito de certeza, o psicótico não está aberto à significação fálica, não duvida de nada. A metáfora delirante é uma tentativa de dar sentido ao que está fora do sentido, por isso existem as construções delirantes que no entanto, no seu limite, têm um ponto nodal, que é fora do sentido.
Assim, posso afirmar que no campo psicanaítico sustentamos uma certa ignorância sim. E isso tem aparecido inclusive em toda essa questão sobre a posição da profissão do Psicanalista e sua suposta regulamentação. Não é possível sustentar um curso que dê conta, em um tempo pré-determinado, de formar psicanalistas, como se todos passasem por uma máquina e em pequenas formas deixasse os alunos prontinhos para ter sua carteirinha, seu registro e atender. Oras, isso sim é ignorância. Me espanta essa tentativa de transformar a Psicanálise e seu campo em uma verdade Absoluta, como se ela fosse a verdade pura. E para isso, bastaria nos matricular nesse “curso”, e no final nós não só saberemos da verdade, como poderemos transmiti-la. Isso está parecendo tanto com o discurso religioso, não?
Base da psicanálise: Não existe verdade absoluta, não existe um saber universal, e talvez essas sejam nossas únicas certezas. Podemos começar a construir algo em cima disso? Claro! Mas não para produzir novas verdades Absolutas. Elas serão sempre provisórias…
“A psicanálise é uma experiência que, ao contrário de hipnotizar o sujeito, visa revelar aquilo que já o hipnotiza desde sempre, desde sua própria constituição. A alienação, por ser um “fato mesmo do sujeito”, segundo Lacan, ou seja, estruturante, nem por isso deixa de ser alienação. O despertar em jogo na análise indica, por sua vez, o caminho da separação.” Marco Antonio Coutinho Jorge
Jornal Significantes
Apresento o meu mais novo projeto: O Jornal Significantes. Ele surgiu e foi desenvolvido junto com meus colegas, alunos do Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Como todo novo projeto, ainda está em desenvolvimento. Espero que gostem.
Ele está disponível aqui: http://jornalsignificantes.tumblr.com/
Se quiser receber por email, envie um email para jornalsignificantes@gmail.com que nós enviaremos.
(Aproveito para pedir desculpas pelo meu último post, que saiu bloqueado, com senha. Ele já foi liberado. Se tratava apenas de uma entrevista, vocês podem ver aqui: http://www.alinesieiro.com.br/2011/07/04/olha-o-que-eu-olho-perceber-e-conceber-criar/ )
Olha o que eu olho: perceber é conceber, criar.
* Esta reportagem foi publicada no Jornal Significantes, em sua primeira edição (Maio/Junho 2011).
Por Aline Sieiro
A professora Anamaria me chamou atenção desde o primeiro dia em que a conheci, na minha entrevista de seleção do mestrado. Alguma coisa no seu jeito amável, na sua voz suave me deixaram tranqüila e ao mesmo tempo curiosa, instigada. Tempos depois, já na disciplina de Métodos de Pesquisa em Psicologia, no Mestrado, tivemos a oportunidade de ter duas semanas de aulas com ela. Me surpreendi com o jeito sedutor que ela apresentava a Psicanálise para alunos de diversas áreas. Achei de uma sensibilidade imensa a forma como ela apresentava o seu trabalho e a Psicanálise para todos nós.
Naqueles encontros, percebemos o valor que ela dá para a experiência e em como se envolver no que fazemos de forma a transformar e estar sempre criando e cultivando vínculos. Em certo momento, os alunos puderam compartilhar uma experiência de suas vidas, e toda a sala ficou muito emocionada com a oportunidade de produzir um momento de vínculo, reflexão e muita emoção.
Quando pensei na possibilidade de produzir uma entrevista para o Jornal, convidei algumas pessoas, mas a oportunidade de abrir este espaço com a fala da professora Anamaria fez muito sentido. Me parece importante conhecer um pouco mais de alguém que tem o desejo de nos incentivar e motivar para algo mais. Me parecia interessante também reparar nessa união que por vezes parece contraditória, entre uma pesquisadora tão sensível e um tema de pesquisa tão perturbador como é a violência. Como trabalhar com violência e ainda ser tão sensível aos outros, preocupada e atenciosa? Começo a acreditar que esse é o caminho, não tão contraditório assim…
Apresento aqui o áudio da entrevista. Como sempre, o tempo é curto e as perguntas são muitas, por isso deixamos vocês com gostinho de quero mais…
(Quem quiser o a versão online do Jornal – com a reportagem escrita – deixe um comentário com o email que eu envio. Ainda não estamos com o site do jornal ativo, aviso assim que estiver).
Jornal Significantes: Entrevista Profa. Anamaria [ 49:38 ] Play Now | Play in Popup | Download (145)Podcast Episódio 08 – Blog Associação livre: Produção de texto na internet
Demorei mas retornei. E volto logo com o audio de uma fala que fiz no curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia, em que fui gentilmente convidada pela Profa. Cirlana. A temática era a produção de texto, e no meu caso fui convidada para falar sobre a produção de textos para a internet. Espero que gostem de escutar um pouco da história do meu blog e de como acontece a produção das escritas do meu texto.
Links de textos comentados durante o podcast:
- Qual será seu próximo remédio?
- Bin Laden morreu 4000 vezes por segundo no twitter – Informação, opinião e fala vazia
- A formação do Psicanalista
- Simbiose
- Concurso Público
- Todas as crianças são adotadas
- Não vamos transformar a violência em uma discussão e gêneros
Música do Podcast: B.W.O.J. – The D.O.
Bin Laden morreu 4000 mil vezes por segundo no twitter – Informação, opinião e fala vazia
No dia da morte de Bin Laden, o twitter registou mais de 4000 tweets por segundo sobre o assunto. Na minha timeline do twitter não foi diferente: piadas, comentários, links para notícias e posts sobre o tema e tudo mais que possamos imaginar. E no dia seguinte os posts em blogs pessoais pipocavam. Irritada, comentei sobre isso no twitter, e acharam que eu não estava sendo sensível com um momento histórico: “oras, essa informação não é apenas mais uma notícia do dia, é a história acontecendo”.
Me expliquei um pouco, mas naquele momento me calei. Em geral, quando estamos bravos com alguma coisa, não conseguimos explicar com clareza o que queremos dizer. Mas agora, depois de um tempo refletindo, tenho mais clareza sobre minha crítica e porque ela aconteceu.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a história está acontecendo todo dia, o tempo todo. Portanto, dizer que uma notícia deve ser falada até o exagero porque se trata da história acontecendo é apenas uma desculpa para falar quando não se tem o que dizer. O que você quer pontuar quando fala o tempo inteiro, ou melhor, repassa o tempo inteiro uma notícia de algo que está acontecendo agora? Que você está em dia com a informação? Que você é conectado? Que você marca a importância do momento? Dúvida: o importante é você marcar que o momento é importante ou mostrar para todo mundo que você marcou a importância do momento? Me parece que esse exagero em repassar a notícia pende para o mostrar que você está em dia e ciente, mais do que realmente parar para entender o que a tal notícia reflete em você e na sua vida…
Em segundo lugar, lendo o texto de Bondía, intitulado Notas sobre a experiência e o saber de experiência, encontrei alguém que explica tudo isso muito melhor do que eu poderia escrever nesse momento. Apresento alguns trechos para vocês:
Em primeiro lugar pelo excesso de informação: A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informados, e toda a retórica destinada a constituir- nos como sujeitos informantes e informados; a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. A primeira coisa que gostaria de dizer sobre a experiência é que é necessário separá-la da informação. (…) Como se o conhecimento se desse sob a forma de informação, e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação.
Em segundo lugar, a experiência é cada vez mais rara por excesso de opinião. O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça.
Vamos agora ao sujeito da experiência. Esse sujeito que não é o sujeito da informação, da opinião, do trabalho, que não é o sujeito do saber, do julgar, do fazer, do poder, do querer. (…) o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponi- bilidade fundamental, como uma abertura essencial.
Então, a reflexão que deixo é a seguinte: Será que vivemos a experiência de tudo aquilo que falamos, ou nossas falas são meras repetições dos ditos dos outros? O que temos a dizer quando falamos, quando escrevemos um texto e quando repassamos informações?
Sexualidade e Preconceito: desejo, prazer e culpa
Palestra proferida na semana do PET-Letras UFU, em abril de 2011.
PLC 122 e Jean Wyllys
Acabei de ler o texto de Jean Wyllys para o Jornal do Brasil. É o tipo de conteúdo que precisamos passar adiante e discutir. A liberdade não deveria ser negociável.
(Fonte: Leandro Fortes, texto completo aqui)
Em primeiro lugar, quero lembrar que nós vivemos em um Estado Democrático de Direito e laico. Para quem não sabe o que isso quer dizer, “Estado laico”, esclareço: O Estado, além de separado da Igreja (de qualquer igreja), não tem paixão religiosa, não se pauta nem deve se pautar por dogmas religiosos nem por interpretações fundamentalistas de textos religiosos (quaisquer textos religiosos). Num Estado Laico e Democrático de Direito, a lei maior é a Constituição Federal (e não a Bíblia, ou o Corão, ou a Torá).
Logo, eu, como representante eleito deste Estado Laico e Democrático de Direito, não me pauto pelo que diz A Carta de Paulo aos Romanos, mas sim pela Carta Magna, ou seja, pelo que está na Constituição Federal. E esta deixa claro, já no Artigo 1º, que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana e em seu artigo 3º coloca como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A república Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos princípios da prevalência dos Direitos Humanos e repúdio ao terrorismo e ao racismo.
Sendo a defesa da Dignidade Humana um princípio soberano da Constituição Federal e norte de todo ordenamento jurídico Brasileiro, ela deve ser tutelada pelo Estado e servir de limite à liberdade de expressão. Ou seja, o limite da liberdade de expressão de quem quer que seja é a dignidade da pessoa humana do outro. O que fanáticos e fundamentalistas religiosos mais têm feito nos últimos anos é violar a dignidade humana de homossexuais.
Seus discursos de ódio têm servido de pano de fundo para brutais assassinatos de homossexuais, numa proporção assustadora de 200 por ano, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia e da Anistia Internacional. Incitar o ódio contra os homossexuais faz, do incitador, um cúmplice dos brutais assassinatos de gays e lésbicas, como o que ocorreu recentemente em Goiânia, em que a adolescente Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, que, segundo a mídia, foi brutalmente assassinada por parentes de sua namorada pelo fato de ser lésbica. Ou como o que ocorreu no Rio de Janeiro, em que o adolescente Alexandre Ivo, que foi enforcado, torturado e morto aos 14 anos por ser afeminado.
O PLC 122 , apesar de toda campanha para deturpá-lo junto à opinião pública, é um projeto que busca assegurar para os homossexuais os direitos à dignidade humana e à vida. O PLC 122 não atenta contra a liberdade de expressão de quem quer que seja, apenas assegura a dignidade da pessoa humana de homossexuais, o que necessariamente põe limite aos abusos de liberdade de expressão que fanáticos e fundamentalistas vêm praticando em sua cruzada contra LGBTs.
Assim como o trecho da Carta de Paulo aos Romanos que diz que o “homossexualismo é uma aberração” [sic] são os trechos da Bíblia em apologia à escravidão e à venda de pessoas (Levítico 25:44-46 – “E, quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das gentes que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas…”), e apedrejamento de mulheres adúlteras (Levítico 20:27 – “O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles…”) e violência em geral (Deuteronômio 20:13:14 – “E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todo varão que houver nela passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e comerás o despojo dos teus inimigos, que te deu o SENHOR, teu Deus…”).
A leitura da Bíblia deve ensejar uma religiosidade sadia e tolerante, livre de fundamentalismos. Ou seja, se não pratica a escravidão e o assassinato de adúlteras como recomenda a Bíblia, então não tem por que perseguir e ofender os homossexuais só por que há nela um trecho que os fundamentalistas interpretam como aval para sua homofobia odiosa.
Não declarei guerra aos cristãos. Declarei meu amor à vida dos injustiçados e oprimidos e ao outro. Se essa postura é interpretada como declaração de guerra aos cristãos, eu já não sei mais o que é o cristianismo. O cristianismo no qual fui formado – e do qual minha mãe, irmãos e muitos amigos fazem parte – valoriza a vida humana, prega o respeito aos diferentes e se dedica à proteção dos fracos e oprimidos. “Eu vim para que TODOS tenham vida; que TODOS tenham vida plenamente”, disse Jesus de Nazaré.
Não, eu não persigo cristãos. Essa é a injúria mais odiosa que se pode fazer em relação à minha atuação parlamentar. Mas os fundamentalistas e fanáticos cristãos vêm perseguindo sistematicamente os adeptos da Umbanda e do Candomblé, inclusive com invasões de terreiros e violências físicas contra lalorixás e babalorixás como denunciaram várias matérias de jornais: é o caso do ataque, por quatro integrantes de uma igreja evangélica, a um centro de Umbanda no Catete, no Rio de Janeiro; ou o de Bernadete Souza Ferreira dos Santos, Ialorixá e líder comunitária, que foi alvo de tortura, em Ilhéus, ao ser arrastada pelo cabelo e colocada em cima de um formigueiro por policiais evangélicos que pretendiam “exorcizá-la” do “demônio”.
O que se tem a dizer? Ou será que a liberdade de crença é um direito só dos cristãos?
Talvez não se saiba, mas quem garantiu, na Constituição Federal, o direito à liberdade de crença foi um ateu Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Aforjá, Jorge Amado. Entretanto, fundamentalistas cristãos querem fazer uso dessa liberdade para perseguir religiões minoritárias e ateus.
Repito: eu não declarei guerra aos cristãos. Coloco-me contra o fanatismo e o fundamentalismo religioso – fanatismo que está presente inclusive na carta deixada pelo assassino das 13 crianças em Realengo, no Rio de Janeiro.
Reitero que não vou deixar que inimigos do Estado Democrático de Direito tente destruir minha imagem com injúrias como as que fazem parte da matéria enviada para o Jornal do Brasil. Trata-se de uma ação orquestrada para me impedir de contribuir para uma sociedade justa e solidária. Reitero que injúria e difamação são crimes previstos no Código Penal. Eu declaro amor à vida, ao bem de todos sem preconceito de cor, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de preconceito. Essa é a minha missão.
Jean Wyllys (Deputado Federal pelo PSOL Rio de Janeiro)
Cresce inclusão de estudantes com deficiência em sala comum
Nos últimos dez anos, o número de alunos com deficiência matriculados em turmas regulares de escolas públicas aumentou 493%. Em 2000, eram 81.695 estudantes; em 2010, 484.332 ingressaram em classes comuns.
Os dados do Censo Escolar são comemorados pela secretária de Educação Especial do Ministério da Educação, Cláudia Dutra. Segundo ela, os dados positivos são resultado de uma política de inclusão que começou a ser discutida com a sociedade e sistemas de ensino em 2003. “Esta é uma conquista que representa um amplo processo de mobilização educacional”, observa.
A secretária explica que, a partir da implementação dessa política, o foco passa a ser a acessibilidade e não a deficiência do estudante. “Antes, acreditava-se que o estudante com deficiência não tinha condições de estudar e que esta falta de condição estaria nele, quando na verdade pouco havia sido feito para eliminar as barreiras de acesso ao aprendizado dessas pessoas”, afirma.
De acordo com a secretária, outro marco para a educação especial ocorreu em 2008, quando foi dobrado o valor investido por aluno com deficiência no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Em 2010, foram investidos R$ 317 milhões em ações que vão desde o incentivo à implementação de salas multifuncionais e obras de acessibilidade até formação de professores para atuar com alunos com deficiência.
A secretária destaca que, a partir do projeto pedagógico, é importante que o aluno com deficiência frequente a classe comum, e no turno oposto tenha um atendimento na sala de recursos multifuncionais. Para estimular essa política nas redes estaduais e municipais de educação, o MEC financiou a implantação de 24.301 salas de recursos multifuncionais, em 83% dos municípios e 42% das escolas públicas, no período de 2005 a 2010.
As redes locais que queiram instalar as salas multifuncionais podem fazer o pedido no Plano de Ação Articulada (PAR). Já as escolas interessadas em melhorar a acessibilidade devem solicitar os recursos por meio do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE Escola). Os recursos são repassados direto para a escola.
Outra iniciativa considerada importante é a formação de professores. Em 2010, 68.117 professores receberam formação para atuar em educação especial em cursos financiados pelo MEC.
Assessoria de Comunicação Social
Fonte: MEC
Somos responsáveis pela sexualização infantil precoce
Lendo a coluna do Provocador, me lembrei do que sempre falo nas minhas palestras sobre sexualidade: os pais reclamam da sexualização precoce de seus filhos e adoram culpar a sociedade, mas não conseguem perceber a responsabilidade que eles têm nesse processo.
Não sou radical, portanto não acredito ser possível (muito menos necessário) que as crianças sejam completamente isoladas e protegidas do que acontece social e culturalmente. Mas dai ao pulo de incentivar esse comportamento há um espaço muito grande. Chegamos ao absurdo dos sutiãs com bojo para crianças! Os pais e mães não conseguem ver isso?
Muitas mães se desesperam porque suas filhas adolescentes se tornam mulheres muito cedo. Mas poucas admitem o quanto dessa precocidade foi patrocinada dentro de casa.
Sem moralismo, por gentileza. Mesmo eu, na minha perversidade, não consigo imaginar uma menina de seis anos usando sutiã com enchimento. Mas tem mãe que, não só consegue, como estimula.
(…)
Quer dizer que não há limites para essa adultização da infância? Gravidez na adolescência, início cada vez mais precoce da vida sexual, o corpo feminino exposto antes mesmo de existir sensualmente? Assunto encerrado?
As mães nunca querem isso para uma filha. Mas são elas que incentivam seus bebês a se comportar como modelos numa passarela. É brincadeira, dizem. Inocência pura.
(…)
Acha bom sexualizar uma criança? Quer ensiná-la a se sentir um objeto de desejo? Tudo bem. Mas depois não venha jogar a responsabilidade na sociedade permissiva em que vivemos. Cuida da sua filha, mulher.
Não há sentido prévio: o desentendido é o resto
Com essa frase de humor negro, começo a pensar em como escrever um texto sobre tudo que aconteceu na escola do Rio de Janeiro. Quase não assisti televisão nessa época e da mesma forma evitei ler muitas reportagens que saíram discutindo o tema. Mas o pouco que vi me deixou incomodada, e fiquei me perguntando sobre a ética profissional e pessoal: que ética é essa?
Para tentar responder essa pergunta, comecei a pensar em como uma tragédia reaviva em nós o sentimento e o desejo de que a vida tenha um sentido pronto, uma verdade única e absoluta. No meio de tanta confusão, tristeza e mortes, surge o desejo de entender, compreender, refazer os passos da tragédia para encontrar algum alívio, alguma resposta que dê sentido a angústia da dor e incompreensão. Mas é nesse ponto que os problemas começam.
Na tentativa de entender quando tudo ainda está muito confuso e muito próximo ao evento, começamos a fazer associações e tecer teorias que falam menos do que aconteceu e respondem mais ao nosso desejo de descobrir a verdade sobre aquilo. E a mídia entra nesse viés produzindo entrevistas, reportagens e vídeos, repassando o senso comum e interpretações selvagens, radicais e em recortes fragmentados. Chuvas de interpretações, acusações e culpas que só contribuem para a perpetuação de verdades parciais e tendenciosas.
Parece difícil sustentar o não saber. Nem tudo tem um sentido e uma explicação racional, principalmente quando falamos de tragédias. Achar culpados é evitar pensar no não sentido da vida e de muitas experiências que vivemos ao longo dela.
Evitei escrever sobre o tema porque ainda acho muito cedo para tecer teorias. Talvez isso nem mesmo será possível. Entendo a necessidade social dessa prática, mas acredito que precisamos relembrar a ética que envolve a criação e a divulgação dessas interpretações desesperadas que se propagam com muita velocidade nos temos atuais.
A ética da psicanálise, entre tantas coisas, está no sustentar o não saber, o desentendido e tudo aquilo que não podemos compreender. Será que não estamos fazendo as perguntas erradas? Um exemplo: Não vamos pensar no por que ele matou tanta gente (era louco, fanático, psicótico?), mas sim no que todas as pessoas que passaram pela vida dele deixaram de fazer para que ele chegasse a agir da forma que agiu. O que nossa sociedade e nossa escola tem feito, dia a dia, para perceber e evitar que atitudes como essa aconteçam? E no pessoal, o que você, na especificidade da sua profissão, tem feito para mudar essa realidade e não perpetuar interpretações selvagens e especulativas? Qual é a linha que separa a escrita crítica da escrita que perpetua ações sensacionalistas? Qual a diferença entra uma pessoa desinformada que assiste a programas sensacionalistas e de você que faz críticas a esses programas mas continua assistindo? Por que pensamos primeiro em proibir o porte de armas e não em investir na educação, saúde, serviços psicológicos para que as pessoas não precisem buscar uma arma e uma ação de assassinato em massa?
Como sempre, deixarei vocês com mais perguntas e reflexões do que respostas. Por que a verdade é sempre parcial e singular.





