Associação Livre

Todas as crianças são adotadas

Por Aline Sieiro em 17/02/2011 13:21

Ao contrário do que a nossa sociedade vende, o amor de mãe não é natural. O amor de mãe não é um ato mágico que acontece durante a gravidez e/ou no parto do bebê. Esse amor, como qualquer outro, é cultivado e construído. É bom que possamos conversar um pouco sobre isso porque esse mito do amor materno pode dificultar muito a vida de centenas de mãe que não vivem essa história de conto de fadas. Muitas sofrem em silêncio por se sentirem excluídas dessa fantasia, pois não sentem que a “mágica” aconteceu com elas.

São tantas coisas que podem dar errado nesse começo do relacionamento entre uma mãe e seu bebê que incentivar essa culpa não ajuda em nada, só atrapalha esse momento inicial da maternagem. Vamos falar um pouco sobre esses mitos socialmente construídos.

Mito 1

A mãe tem nove meses para aprender a amar o seu filho. Assim, quando ele nasce, o amor já aconteceu. O pai tem que começar do zero.

Discussão

Durante os nove meses de gravidez a mãe não aprende a amar o seu filho, até porque ela ainda não o conhece. Tudo o que ela faz e aprende a fazer é construir uma imagem e uma fantasia do que será aquele bebê quando nascer. Quando consegue fazer isso (e nesse ponto o pai também já pode participar do mesmo processo), a mãe vai imaginando, se deixando fantasiar sobre como será essa criança. Então o que a mãe passa a amar, durante a gravidez, é uma imagem fantasiosa de um bebê que vai nascer e não o que de fato o bebê será. Isso é bom? Claro que é bom, porque a criança que nasce precisa disso que chamamos de subjetivação, ela precisa dessa atenção voltada pra ela, ainda que seja imaginarizada e fantasiada.

Dificuldades

Nem todas as mães conseguem viver a gravidez dessa forma. Algumas passam por grandes dificuldades na criação das fantasias sobre o bebê que elas nunca viram concretamente. Podemos perceber, por exemplo, algumas mães que têm facilidade em falar com a barriga, enquanto outras acham isso um pouco desconfortável, estranho. Outras mães sentem a gravidez como um processo invasivo, como se seu corpo não respondesse mais as suas ordens. Sentem muitas dores, muitos desconfortos que acabam não deixando espaço para que elas sintam algum prazer.

Conclusão

Se a mãe tem nove meses para aprender a amar o filho, o pai também têm. Mas esse filho que eles estão aprendendo a amar ainda é só uma construção, uma fantasia em relação ao bebê que ainda vai nascer. Isso não é ruim, mas não resolve a questão do amor materno como um movimento natural.

Mito 2

Assim que o bebê nasce, após o parto, o amor entre eles é automático. Basta a primeira troca de olhares e a mãe já ama seu bebê e o bebe já sabe que poderá contar com aquele amor pra sempre.

Discussão e Dificuldades

Se no mito anterior percebemos que o amor (quando é) construido durante a gravidez é para um bebê imaginário, será que esse amor se transfere para o bebê real automáticamente após o parto? Pode ser que sim, mas nem sempre. Muitas mães que tiveram o parto em boas condições conseguem olhar para o bebê que nasceu e enxergar tudo aquilo que elas sonharam durante a gestação. Ao longo dos primeiros meses, essas mães enfretarão as dificuldades do dia a dia, mas conseguirão olhar para seu bebê e energar tudo aquilo que sonharam para ele.

Mas para muitas não acontece dessa forma. Com as dores e os medos do parto, com as dificuldades iniciais nos cuidados em relação ao bebê, a maioria das mães não consegue transferir a imagem que tinham do seu bebê, durante a gravidez, para o bebê que nasceu. Envergonhadas e tristes, não encontram espaço para conversar sobre isso e podem se tornar até um pouco mecanicistas em seu contato com a criança, pois sabem quais são suas obrigações mas não conseguem sentir “o que deveriam sentir”. Aqui podem acontecer as depressões pós-parto (que são mais comuns do que imaginamos), as mortes de bebês e até mesmo a instalação de uma série de problemas e doenças no bebê (como o austismo).

Conclusão

O amor materno imediatamente após o parto não é automático. Ele pode acontecer de forma mais rápida e fácil para algumas mulheres, mas para muitas é um processo de construção assim como qualquer outro relacionamento. É a partir dali que a mãe vai começar a conhecer o seu bebê e pode ter ou não facilidade para subjetivar aquele ser que ela acabou de colocar no mundo. Crianças que nascem com deficiência, por exemplo, costumam trazer muitas dificuldades iniciais para essa construção do amor materno, já que os pais se vêem numa situação em que a criança não é aquilo que eles imaginaram e sonharam que seria. (Mas conversaremos sobre essa particularidade em outro texto).

Existem muitos mitos em relação a gravidez e a maternidade. Mas com esses dois podemos iniciar um dialógo sobre esse processo. Por que não existe um grávida correta. Cada mulher vive sua gravidez de forma peculiar e esse mito da gravidez perfeita só atrapalha as mães que vivem sua gravidez de outras maneiras. O mesm acontece com o amor materno. Ele pode ser construído de diversas maneiras, e seja qual fora, a única certeza que temos é que ele não é natural. Assim, podemos dizer que todas as crianças são adotadas, pois todas elas passarão pelo processo de construção e criação do seu lugar na família indepentente de terem sido concebidas biologicamente por eles ou por outros. O parto não garante amor e facilidades, isso é uma ilusão que construímos. (Falaremos disso em outro texto também.)

Falar desse assunto é delicado porque essa fantasia que se criou sobre o amor materno é tão forte que parece impossível ser desconstruída. Se fosse possível falar sobre o tema com mais franqueza e seriedade, muitas mães poderiam ter uma ajuda mais precisa e não sofreriam de uma série de problemas como a depressão pós parto. E as crianças, por sua vez, poderiam desenvolver menos doenças como o autismo e outras com falhas na inserção da linguagem. Mas o medo de admitir que essa construção na maternidade passa por dificuldades acaba por incentivar o silêncio e a falta de incentivo para mudanças e investimentos nessa área.

São pequenas coisas que podemos fazer e mudar, como acompanhamento psicológico obrigatório para a mãe durante o pré-natal (junto com a ida ao obstetra, por exemplo) e durante as primeiras idas ao pediatra. Durante esse momentos, a preocupação da saúde pública ainda parece estar apenas no corpo, no desenvolvimento biológico satisfatório. Sabemos o quanto é importante também a saúde psíquica, e um movimento de inserção da psicologia nesses setores e nesses momentos cruciais da relação mãe-bebe poderia fazer uma grande diferença na hora de atuar nos grandes problemas que assistimos acontecer. Mães que conseguem esse tipo de acompanhamento, por exemplo, relatam como conseguiram passar por dificuldades de forma menos dolorosa e solitária.

Para saber mais

Um amor conquistado: o mito do amor materno, ElisabethBadinter

A construção do amor materno na relação mãe-bebê: reflexões a partir da psicanálise, Cléa M. B. Lopes

O complexo da mãe morta: sobre os transtorno do amor na relação mãe-bebê, Issa Damous

A criança, sua doença e a mãe: um estudo sobre a função materna na constituição de sujeitos precocemente atingidos por doença ou deficiência, Leyla A. V. Falsetti

Amar, cuidar, subjetivar – implicações educacionais na primeira infância, Valéria R. Baptista

Comentários

  1. Tem uma coisa que essa romantização da maternidade tem acarretado: tenho visto mais e mais vezes meninas na faixa dos 30 dizendo que não querem ter filhos não porque não tenham uma vontade disso, mas porque não se “se sentem em condições de criá-los convenientemente”. O mais gozado é que as meninas que fazem esse tipo de enunciado normalmente são mulheres super responsáveis e conscientes, bem como amorosas; ou seja, é muito difícil que fossem mães ruins. Mas com essa pressão de que tudo é maravilhoso, com uma Gisele Bundchen dizendo que não tem babá, que vai pra balada, trabalha e viaja cuidando dos filhos sozinha, com toda essa coisa de que vc tem que parar sua vida pra ter filho, todo mundo apavora.
    Seria mais fácil se as pessoas falassem que maternidade pode ser algo muito bacana e ímpar, mas que é uma escolha que implica em abrir mão de certos prazeres para se ter outros. E que como tudo na vida, tem seu lado bom e o ruim (eu acho que os bons superam os ruins de lavada, mas sou eu, a sortuda :-p)

  2. Concordo plenamente com você. Essa visão romantizada é alimentada socialmente hoje com outro peso que é o da possibilidade de uma maternidade perfeita. É impressionante como os movimentos sociais caminham todos para essa exigência de felicidade e perfeição 100% do tempo. Mas o pior é que as pessoas que vivem isso (e que sabem que não é nada assim) ainda se prestem a esse papel de confirmar uma mentira. É uma pena que as pessoas que poderiam “servir de exemplo” prefiram manter e repassar a fantasia.

  3. Seria tão mais fácil se mais pessoas dissessem: olha, adoro ser mãe, mas tem horas que quero ficar sozinha; adoro ser mãe, mas acordar de 3 em horas pra amamentar é um suplício e tem horas em que vc pensa em fingir que não ouviu ele chorando, e que vc não vai arder no fogo do inferno por pensar isso ou verbalizar tal pensamento. Mas não, se a maternidade não passar a ser a razão da sua vida, vc é uma Lilith odiosa. Maternidade muda a vida da gente, mas é inclusive pouco inteligente não deixar vivas outras facetas da vida. Parabéns pelo texto, vou compartilhar!

  4. Lei de Hume e falácia naturalista, ambos profundamente incutidos no conjunto de crenças comuns.

    Ser mãe —> dever de amar a cria —> bom (juízo de valor)

    Não exatamente o mesmo assunto, mas uma vez quase fui linchado no Orkut por ter dito que o desejo de ser mãe/ter um filho era uma das coisas mais egoístas do neverso.

  5. Sim, seria ótimo que os pais assumissem seus sentimentos, conflitos e medos. Seria um mundo quase ideal, onde teríamos provavelmente menos pacientes. Mas assumir tudo isso demanda um amadurecimento raro. Demanda reconhecer imperfeições e falhas, bem como matar uma fantasia que é praticamente constitutiva (introjetada em cada um de nós desde sempre). É quase uma ruptura. Lembro-me de um pai que foi comentar meu texto contra bater nos filhos. Argumentou, argumentou e depois disse “mas tem esse segundo filho que eu não consigo lidar sem bater, logo sua teoria está errada e etc”. Aí eu respondi que a questão era a incapacidade dele diante daquele filho, e não minha teoria. Foram dezenas de xingamentos rs

  6. Tive minha pequena numa época atribuladíssima, em um parto bem difícil. Ainda assim, me preocupei com ela desde o principio, montei a imagem de como ela seria, e me apaixonei logo. Porém quando falo que não foi ‘um raio de luz e o amor surgiu’ todas as mães me olham como se algo em mim estivesse quebrado.
    Outro ponto, é que não posso dizer que não sei se quero outro neném pois da trabalho. É pedir um linchamento…

  7. Olá, tudo bem? Eu sou estudante de Psicologia da Universidade Estadual do centro-Oeste do Paraná, e estou realizando um estudo sobre adoção, no meu estudo gostaria muito de citá-la como referência bibliográfica, por isso vim perguntar se você tem algo publicado cientificamente ou se seus textos estão disponiveis apenas em blogs. Muito obrigado Aline, até mais. Parabens pelo texto!

  8. Ronny, respondi seu comentário via email. Espero que tenha recebido.

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