Associação Livre
Arquivo para a Categoria: Educação
Colóquios Multidisciplinares 2011 PET Letras UFU
DIA 12 DE ABRIL, ANFITEATRO 5-O
15h: Luar as avessas- Raul Seixas: vida e obra
Com Bruno de Sousa Figueira
16h: Cultura Hispânica: Colômbia e Espanha
Com nativos em intercâmbio na UFU
DIA 14 DE ABRIL, SALA 1U-209
14h: Tipologia de eventos acadêmicos
Com a Profª. Drª. Maria Cecília de Lima
15h: Sexualidade e Preconceito: desejo, prazer e culpa
Com a Psicóloga e Psicanalista Aline Accioly Sieiro
Realização: PET/LETRAS UFU
Obs.: emissão de certificados pela lista de presença. Não é necessário fazer inscrição prévia.
Médicos e Enfermeiras que punem para “ensinar”
Não é de hoje que escutamos todo tipo de história envolvendo pacientes, médicos e enfermeiros. Histórias sobre situações constrangedoras, horríveis e traumatizantes, mas que seguem sendo apenas histórias que beiram a fantasia e não a realidade. Não acreditamos muito nessas histórias porque ainda temos na nossa memória aquela imagem do profissional da saúde como alguém paternal, que está ali para cuidar e zelar do nosso bem estar. Para contrapor essa imagem quase santificada do médico e do enfermeiro, vamos pensar no complexo de Deus que ronda os hospitais e seus profissionais.
Lidar diretamente com a tensão de poder “salvar vidas” é algo que realmente mexe muito com a cabeça de uma pessoa. Imagine uma equipe de médicos e enfermeiros que vivem disso grande parte de suas vidas? Eles assistem ali na prática, pessoas que entram com uma série de problemas e que algum tempo depois saem “curadas”. Por mais pé no chão que essa equipe seja, alguma coisa “lá dentro” fica mexida, diferente, sentindo que se é possível “salvar uma vida”, então pode-se tudo.
Mas, se analisarmos de perto, o médico foi treinado para isso (que chamamos de salvar vidas). Ele foi treinado para consertar órgãos, para detectar problemas biológicos e físicos antes que eles possam desligar o sistema que chamamos de corpo. Então o médico é apenas um técnico do nosso corpo. Ele sabe e é treinado para consertar o que deu errado, de forma que possamos continuar vivos. Sei que esse olhar pode parecer um tanto quanto cruel, até porque o corpo humano não é apenas uma máquina, mas proponho esse olhar parcial com um objetivo. O médico, no final das contas, não é Deus e não faz mágicas. Ele faz aquilo que aprendeu e foi treinado para fazer. As vezes isso funciona e as vezes não funciona e pessoas morrem.
Mas viver essa vida e essa posição de “salvar vidas” se torna um papel tão importante na vida desses profissionais que eles se esquecem que essas pessoas não são apenas corpos. Elas tem subjetividade, histórias, experiências e livre arbítrio. Muitas brigas acontecem nos hospitais, entre o que o médico acha melhor para o seu paciente e o que o paciente quer pra si. E tantas vezes o paciente não é ouvido, extamente porque o médico tem até mesmo o poder de desautorizar o desejo do paciente, dependendo de qual desejo for esse.
Por isso tem se tornado comum que médicos e enfermeiros, além de apenas cuidar dos problemas dos pacientes, tentem “ensinar” lições a seus pacientes. Mas eles faltaram na aula de Psicologia, e tentam aplicar punições sem nem ao menos saber como funciona esse procedimento na Psicologia Comportamental, por exemplo. E ai começam as histórias (e aposto que se você parar pra pensar, deve ter uma também, sua ou de alguém próximo):
Chorando em um hospital, agulhada pelas dores das contrações do parto, mulheres brasileiras ainda têm de ouvir maus-tratos verbais como: “Na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe. Por que tá chorando agora?“; ou “Não chora não que no ano que vem você está aqui de novo“; ou ainda “Se gritar, eu paro agora o que estou fazendo e não te atendo mais“. (Reportagem completa aqui)
“Quando o paciente tenta o suicidio, a gente maltrata mesmo. Fazemos tudo de uma forma que ele sinta muita dor e aprenda que esse tipo de coisa não se faz. Por que você sabe né, esses meninos são todos mimados, só querem chamar atenção e dar trabalho.”
Histórias como essas acontecem todos os dias pelos hospitais brasileiros. A equipe do hospital se coloca numa posição em que se permite tomar atitudes que “beneficiarão” os pacientes. Mas eles se esquecem que não foram treinados para isso. Sem entender e sem saber como agir corretamente, saem passando “corretivos”, punições, em situações que eles julgam de acordo apenas com o senso comum e com seus valores pessoais.
Para certos casos eles demoram propositalmente no atendimento – “deixa sofrer pra aprender” – ou atendem da forma mais agressiva e dolorida possível “pra lembrar bem que isso não deve ser feito porque tem conseqüências”, como se isso pudesse surtir algum efeito positivo para o paciente.
Que a equipe médica se coloca nessa posição, a gente já sabe. E também sabemos que o paciente aceita tudo isso calado, em geral por se sentir culpado. Essa situação se assemelha aos casos de abuso e agressão, em que a vítima se sujeita ao agressor, por medo e tantos outros sentimentos. Mas médicos e enfermeiros não têm esse direito, e têm o dever de tratar igualmente todas as pessoas que chegam ao seu consultório, sem julgar cada caso a partir de seus valores. E se acham isso difícil, que larguem a medicina.
Mas, numa sociedade que valoriza o complexo de Deus dos médicos, incentivando e apoiando a Lei do ato médico***, parece mesmo que cada vez mais incentivamos os médicos a atuar nessa posição de lei, punido aleatoriamente enquanto fechamos os olhos para esses maus tratos. Até o dia que isso acontecer com você ou com alguém da sua família.
Temos que prestar mais atenção ao poder que estamos dando aos profissionais da saúde. E se um corpo não é apenas uma máquina, devemos começar também a prestar atenção na formações que esses profissionais estão tendo, já que passam anos voltados apenas para o funcionamento do corpo e esquecem que não somos apenas uma massa de carne, temos subjetividade e desejos, e merecemos respeito.
Vamos continuar lutando para a inserção de profissionais da Psicologia nos hospital e na equipe médica, não apenas para atender os pacientes, mas também para dar apoio e suporte aos profissionais da saúde.
** Com essa quantidade de séries sobre médicos e hospitais, podemos ver situações como essas sendo reproduzidas com facilidade. Nesse episódio da série Private Practice, uma médica que atende uma paciente cega, acredita que ela não é capaz de cuidar de sua filha, por causa da cegueira, e faz de tudo para que ela perca a guarda da criança.
*** Não ao projeto do ato médico: http://www.naoaoatomedico.org.br/index/index.cfm
Documentos comprobatórios do Lattes? Oh não…
Se você tem algum envolvimento com o currículo lattes, esse texto é pra você. Pode pular para o item Proposta. Vou fazer um apelo e tenho certeza que você também vai gostar da idéia. Agora se você não conhece o Lattes, leia que o texto é grande mas muito interessante!
Mas o que é o Lattes?
Segundo o site do CNPq, a plataforma Lattes é a base de dados de currículos, instituições e grupos de pesquisa das áreas de Ciência e Tecnologia. Seu objetivo é compatibilizar e integrar as informações coletadas em diferentes momentos de interação da Agência (como Cnpq e Capes) com seus usuários, objetivando aprimorar a qualidade da sua base de dados e racionalizar o trabalho dos pesquisadores e estudantes no fornecimento das informações requeridas pelo Conselho.
Mas pra que tudo isso? Por que não um currículo simples?
O sistema de currículos Lattes surgiu da necessidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de gerenciar uma base de dados sobre pesquisadores em C&T para credenciamento de orientadores no país. Antes do Lattes, tudo isso era feito em papel, em um sistema de currículos específico para credenciamento de orientadores (MiniCurrículo). Nessa época, a Agência acumulou cerca de 35 mil registros curriculares da atividade de C&T no país. Embora esses instrumentos tenham viabilizado a operação de fomento da Agência, a natureza das informações dificultava uma plena utilização dessa base de dados em outros processos de gestão em C&T. Por exemplo, não era possível separar co-autores ou mesmo contabilizar índices de co-autoria nos currículos.
Tá, mas agora me explica como se eu tivesse 5 anos!
O currículo Lattes permite à Instituição uma fácil visão e avaliação curricular dos docentes e discentes contemplando os seguintes pontos (via Wikipedia):
- Estabelecer uma imagem institucional nos sensos;
- Formação de grupos de trabalho e pesquisa;
- Avaliar o seu trabalho enquanto pesquisador;
- Diagnosticar o perfil do pesquisador com outros dentro de sua área de atuação.
- possibilita a visibilidade da produção docente por grupos de pesquisa consulta em qualquer lugar do pais;
- possibilidade de concessão de passagens para eventos científicos;
- participação de projetos.
- Em geral os órgãos de fomento consultam o currículo Lattes tornando-se de suma importância para as avaliações de produção científica.
Resumindo até agora
Para avaliar com mais facilidade alunos e professores envolvidos no meio acadêmico bem como as instituições em que eles fazem parte, o Lattes foi criado para que existisse apenas um único modelo de apresentação de dados. A partir da análise do currículo Lattes as pessoas/instituições podem pedir bolsas, financiamentos e verbas das agências governamentais. A coisa funcionou tanto que ele virou referência para concursos e até mesmo para o mercado de trabalho (algumas empresas já se baseiam no Lattes para escolha de candidatos).
Problemas
Mas nem tudo é lindo como parece. O lattes é cheio de problemas técnicos, problemas que os usuários reclamam desde o começo mas são obrigados a continuar usando. Para exemplificar um deles, você não pode simplesmente entrar e inserir os dados, digitando. É preciso escolher os dados num banco de dados da plataforma. Caso ainda não tenha cadastrado aquilo que você quer escrever, então primeiramente você precisa cadastrar para depois inserir o dado no seu currículo. Imagina fazer isso todo mês e com mil dados diferentes (do Brasil inteiro!)!!! Muitas pessoas passam meses com o Lattes desatualizado, exatamente pelo trabalho que é mantê-lo em dia. Mas se essa pessoa está em contato permanente com o meio acadêmico, é preciso deixar o Lattes sempre atualizado. Isso significa inserir toda e qualquer produção que esta pessoa esteja fazendo (apresentações, publicações, artigos e por ai vai). Quando você é inciante isso parece simples. Mas imagine depois de 10 anos de academia. A coisa vai ficando tensa.
Todo mundo que se preze no meio acadêmico tem um lattes. É a primeira coisa que a gente pesquisa quando quer saber mais (profissionalmente) sobre uma pessoa e sua formação. Lendo seu lattes eu sei “de onde você vem” e o que você tem feito. Dou aqui alguns exemplos de Lattes para que vocês entendem do que se trata: o meu, o da minha mãe e do meu orientador.
Outro grande problema está na tal comprovação. Aqui no Brasil confiança não é uma coisa que a gente tenha de sobra. E as pessoas começaram a mentir, inventar dados na hora de preencher o lattes. Então todas as instituições que utilizam o lattes começaram a pedir os documentos que comprovam que aquelas informações digitadas são verdadeiras. Ah, então você apresentou trabalho em evento? Onde está o certificado? Ah, então você publicou um artigo? Onde está a cópia dele na revista científica ou no livro? Ah, então você foi convidado pra dar aula ou ganhou um prêmio? Onde está o comprovante disso?
Agora você imagina o tamanho da pasta de documentos comprobatórios para uma pessoa como a minha mãe ou o meu orientador? Vocês deram lá uma olhada no currículos deles? Pois é, tem que comprovar CADA UM daqueles itens. Com papéis (xerox). O meu que ainda é curto já dá um trabalhão!!! E quem está envolvido com o meio acadêmico acaba tendo que fazer essa comprovação (documentos xerocados entregues e não devolvidos) muitas vezes no ano. As agências e instituições dizem que isso é necessário pois tudo precisa ficar devidamente comprovado e arquivado. Então o que fazer para não enlouquecer cada vez que for preciso comprovar os dados do lattes?
Proposta
Se os documentos são sempre os mesmos e só vão sendo acrescentados, por que não digitalizá-los e montar um arquivo digital e/ou online? No momento em que surgir a necessidade de comprovação, basta enviar um email com todos os arquivos (no formato desejado pela instituição, PDF por exemplo) ou colocar toda documentação em um CD. Assim não seria necessário gastar árvores e mais árvores com os papéis de xerox, além da economia de tempo e dinheiro.
1. Ah, mas as instituições precisam guardar toda documentação em arquivo para que no futuro tenham como comprovar, caso ocorram problemas.
Ok, se entregamos toda a documentação em CD, esse CD pode ser arquivado tanto quanto eram arquivados os papéis. Ainda ocupando menos espaço em armários. Se as informações forem enviadas por email a instituição pode criar um banco de dados online com direito a backup – que aliás é muito mais seguro.
2. Ah, mas CD estraga!
E papel não? Papel mofa, é comido por cupim e pode pegar fogo.
3. Ah, mas ai cada um vai entregar em um formato diferente, em um CD ou programa diferente e teremos problemas para abrir os arquivos, vai dar muito trabalho.
Uma adaptação será necessária, isso é fato. Toda mudança exige adaptações e problemas não previstos podem acontecer no caminho. Mas é possivel começar instituindo em que formato os arquivos serão aceitos e criando regras a respeito dessa entrega.
4. As pessoas podem alterar documentos no formato digital. Como vamos no precaver contra falsificações? Só o papel tem esse poder. (Tá essa última frase foi irônica!)
Quando as pessoas querem falsificar um documento elas falsificam no formato digital, no papel e em qualquer lugar. Problemas com falsificações ocorrem em qualquer formato. Até porque as xerox que entregamos não são autenticadas em cartório e mesmo se fossem também seriam passíveis de falsificação. Sempre existirão pessoas tentando enganar o sistema, isso independe do formato.
Bom, eu poderia ficar aqui descrevendo os mil problemas que as agências e as instituições vão criar. Mas ao invés disso vou gastar o final do meu texto fazendo um apelo:
Se você é professor e está envolvido em bancas de concursos, escritas de textos dos editais ou é funcionário das agências de fomento, esse apelo é para você. Sabe quando dizem que não é possível mudar o mundo mas é possível mudar nossa realidade? Então, essa é hora. Proponha essa idéia ai no seu campo de trabalho. No próximo edital de concurso, vagas, bolsas ou qualquer um deles, peça a comprovação do lattes em formato digital. Se quiser eu ajudo você a pensar melhor nessa idéia. Mas vamos mudar essa forma caquética e antiquada de fazer as coisas na academia. Essa é a hora!
Os alunos agradecem, as árvores agradecem, o nosso bolso agradece e tenho certeza que você também vai agradecer depois de perceber os benefícios.
Contando histórias e criando sentido – Deficiência Visual
A história
Pra quem ainda não sabe, tenho um filho de 12 anos que possui baixa visão. De acordo com os mil exames e mil médicos que já passamos, ele enxerga 0,03 em um olho e 0,05 no outro. Se você é esperto e foi pesquisar, já percebeu que de acordo com a tabela oficial ele é considerado quase cego. Mas os médicos percebem que essa tabela não consegue ser tão precisa como deveria, já que ele tem essa porcentagem ai mas enxerga como uma pessoa que tem baixa visão. Diagnósticos, como sempre, não dão conta da subjetvidade e da singularidade de cada caso, mas esse não é objetivo desse meu texto. Hoje eu vou começar a contar uma história (das mil que vivemos) sobre como é ser mãe de uma criança com baixa visão nesse mundo ai de doido.
Fazer esportes, para quem é cego ou tem baixa visão, é uma coisa complexa. A maioria dos esportes envolvem corridas ou necessitam de uma relação com um objeto/objetivo distante, que obviamente não podem ser vistos por uma pessoa que não enxerga direito. Então, depois de tentar muitos deles (até mesmo os adaptados) nada deu certo para o Gabi. E não é mesmo da personalidade dele gostar de esportes, então ficamos sem opções para as atividades extra-curriculares. Aqui em casa temos uma ligação muito forte com a música e com isso ele desenvolveu interesse no aprendizado do teclado. Mas pagar por um professor particular estava fora das nossas possibilidades, então bora atrás do Conservatório.
Aqui em Uberlândia o Conservatório Municipal oferece muitas aulas de música: diversos instrumentos para diversas idades e de graça. Basta que no final do ano você se inscreva no processo seletivo e seja selecionado. Ao entrar em contato com eles, em setembro no ano passado, descobri que crianças com “necessidades especiais” (detesto esse termo) têm um processo seletivo a parte já que existem vagas específicas voltadas para esse grupo. Entrei no site e quando terminei de preencher as mil lacunas fui direcionada para uma página que me dizia que a data dos “especiais” era diferente e que eu teria que entrar em contato com o Conservatório. Depois de passar a tarde tentando (porque só dava ocupado) uma pessoa me atendeu, me passou pra outra, que me passou para outra que finalmente me disse que eu teria qe fazer tudo de novo porque a data da entrevista deveria ter aparecido depois do meu Enter final e que se não apareceu é porque eu fiz algo de errado. Já era tarde e eu deixei para fazer no dia seguinte.
No dia seguinte fiz a mesma coisa e o mesmo problema aconteceu. Liguei novamente e depois de novos redirecionamentos da ligação, alguém me diz que os dias de entrevistas seriam em novembro e que era só aparecer lá, já que no site estava dando erro. (Custava ter me dito isso da primeira vez?)
Meses depois, finalmente chega o dia da entrevista. Haviam me pedido para levar o laudo comprovando a deficiência e eu prontamente tirei cópia e levei. Durante a entrevista uma professora de surdos me pediu desculpas pois a professora de cegos não estava, mas ia fazer a entrevista por ela. Perguntou com detalhes quais eram as questões do Gabi e que adpatações deveriam ser feitas. Fomos embora com a sensação de que ele passaria.
Em janeiro deste ano recebemos uma ligação confirmando a aprovação e pedindo nossa presença no dia seguinte (sem falta) com os documentos necessários, para a efetivação da matrícula. Nenhuma outra instrução foi dada, apenas que levássemos os documentos. Era onze horas da manhã e eu teria que largar todo meu planejamento do dia para correr atrás dos documentos (já que eu só poderia efetivar a matrícula no dia seguinte). Me perguntei o que faz uma mulher que não pode mudar seu planejmento porque não tem uma agenda de trabalho tranqüila como a minha – ela perde a matrícula ou o dia de trabalho, claro.
No dia seguinte estávamos lá no Conservatório eu, Gabi e os mil documentos. Chegamos as 14:00 e a senhora da recepção não estava mais distribuindo senhas porque tinha muita gente. (Como se isso fosse problema de quem estava indo fazer matrícula). Mas como o Gabi era “especial” poderia entrar e não precisaria ficar na fila. Esta mesma senhora me levou ao local de matrícula junto com um outro senhor cego que também aguardava, sozinho, ser chamado para a matrícula. Enquanto passávamos pela fila senti olhares furiosos nos fuzilando (o Gabi tem deficiência mas não parece ter, então as pessoas não entendem porque não vêem nada de diferente). Esta senhora nos avisou: vocês tem que fazer matrícula com a D., somente com a D.
Cerca de 20 minutos depois alguém me chamou de dentro da sala (entupida de pessoas). Entramos lá e uma moça gentilmente veio fazer a matrícula. Eu avisei que a senhora lá da frente havia me pedido para fazer matrícula somente com a D. Essa D. estava do meu lado e disse que qualquer um poderia efetivar a matrícula. Entreguei os documentos e avisei que o Gabi era DV. Ela entendeu e me pediu novamente os documentos que eu entreguei no dia da entrevista (Perderam? Claro…) e como eu sou preparada, entreguei tudo de novo. Ela fez a matrícula, escolheu os professores e me disse que estava tudo certo, era só comparecer no primeiro dia de aula. Saímos e pude escutar alguém da fila dizendo para o filho: “Tá vendo, precisa ser “especial” pra ser atendido logo…” Ah, e o senhor que estava sozinho ficou lá, sabe-se lá quem iria se lembrar dele e chamar o próximo. E eu já tinha avisado umas três vezes que ele estava aguardando…
Duas semana depois eis que chega o primeiro dia de aula. Ele teria musicalização e depois a aula prática. Já na aula de musicalização, com 5 minutos de aula, a professora sai da sala e me explica que a apostila que ela trabalha não estava dando certo com ele pois ele não estava enxergando (De que adiantou mesmo os relatórios com laudo, a entrevista para saber as adaptações necessárias?). Pediu meu email para que me passasse o conteúdo e assim eu poderia providenciar as adpatações necessárias. (Mas perai, esse negócio do governo não tem que me fornecer o material já adaptado? Tem né, mas a gente sabe que não é isso que acontece, as mães já estão acostumadas a adaptar elas mesmas…) Terminando essa aula, fomos para a prática. A professora do Gabi era a professora de surdos e logo percebeu que haviam feito a matrícula dele errada. Nos levou na sala da professora de cegos e explicou. Esta nova professora, R., prontamente nos encaixou em seu horário e até aproveitou para encaixá-lo numa prática de grupo (só com cegos). Achei o máximo mesmo achando essa nova professora um tanto simpática demais, até mesmo bajuladora demais. E lá fomos para a secretaria passar os novos horários e explicar a confusão.
Chegando na secretaria, R. explicou tudo o que havia acontecido, aumentando mais ainda o grau de simpatia e bajulação (e foi ai que caiu minha ficha – serviço publico nego tem que bajular, elogiar e plantar bananeiras para que o outro faça aquilo que na verdade é sua obrigação) e logo escutou um “não dá, o sistema não deixa. Pq você não avisou que ele era DV na matrícula?“. Juro que minha vontade era de esganar um, mas com minha grande paciência avisei que isso tinha sido feito mas aparentemente o engano havia ocorrido da mesma forma. Depois de me olhar com aquela cara de “você está errada e agora não tem jeito”, virou para o colega e começou a conversar. Oi, e eu? … R. me olha e pede que eu aguarde uma vaga no horário dela. Isso poderia levar 6 meses, até mesmo um ano. Eu olhei bem séria pra ela e disse que não seria possível aguardar e que o Gabriel poderia perfeitamente continuar com a prof. de surdos até ela conseguir uma vaga (até pq eu tinha gostado mais dela mesmo). E assim voltamos para a sala e tocou o sinal. E o Gabriel não teve sua primeira aula.
Trocando em miúdos
Serviço público funciona? Claro que funciona. O problema não é o funcionar ou o não funcionar e sim o COMO funciona. Que o Gabriel terá aulas de teclado isso eu tenho certeza. Agora todo o estresse que se passa para que isso aconteça é que é demais. Imagina aquela pessoa que precisa do serviço público pra tudo na vida? E o pior, você não tem onde reclamar, não tem SAC, não pode sair dando piti dizendo que vai procurar o concorrente…
Agora a reflexão que eu proponho aqui é: adianta sair por ai dizendo que tudo é culpa do governo ou do político corrupto? Claro que muitos desses problemas acabam refletidos no dia-a-dia, mas tudo que eu vi ali foi uma porção de gente fazendo seu trabalho de qualquer jeito, cometendo uma série de erros, um atrás do outro, como se a população tivesse que agüentar pois não paga nada e está recebendo um “favor”. Queridos amigos: o problema é sempre a pessoa, aquela que está ali fazendo seu trabalho de qualquer jeito porque se acha mal paga, coitada, ou sei lá mais o que. Ao invés de lutar por seus direitos, faz o seu trabalho de qualquer jeito e prejudica uma outra pessoa que provavelmente luta pelos mesmos problemas que ela no seu trabalho. Então meu amigo, você que está ai pensando que é um coitado, um ferrado pelo sistema, acorda! Vai pensar em que responsabilidade você tem nisso tudo e nessa cadeia de porcaria que tem se tornado sua vida e a vida de quem depende de você.
Agora em relação as deficiências e o seus “direitos”, continua sendo difícil exigir aquilo que temos direito porque ficamos cansados e, se temos condições, preferimos pagar para não ter tanta dor de cabeça. Se eu fosse exigir o material adaptado, meu filho ficaria pelo menos 30 dias tendo aula sem material. Se eu fosse exigir a professora “correta”, ficaria de seis meses a um ano esperando a vaga. E por ai vai.
Vou viver um pouco mais dessa experiência e depois volto aqui para contar mais.
….
Anexo
Essa sou eu fazendo minha parte: http://www.sitiodainclusao.com.br/
Falarei mais sobre isso em um novo texto logo logo.
Podcast Episódio 7 – A “pedagogização” da internet
Nesse episódio eu e a prof. Dilma conversamos sobre o uso da internet e de novas tecnologias na educação (twitter, facebook, video-games, etc), inclusão digital e reconhecimento de produção acadêmica em novas linguagens na internet.
Mencionado durante a gravação:
Revista A Margem (PET Letras/UFU)
A educação é responsabilidade de quem?
A responsabilidade na educação de uma criança é de quem? Família, Escola ou Estado? Pensando no que é melhor para a criança, é possível acontecer uma divisão de responsabilidade?
Essas questões têm se tornado cotidianas entre pais e educadores, preocupados com o futuro das crianças. Há um certo desconforto em todas os setores sobre a importância dessa responsabilidade e de como ela vem sendo divida. Os pais, por exemplo, se queixam de não ter mais autonomia para decidir o que é bom ou não para seus filhos. Ao mesmo tempo exigem que a escola e o Estado garantam uma educação que englobe desde regras de higiene à construção de subjetividade e identidade social. A escola, por outra lado, critica a falta de engajamento dos pais no dia-a-dia escolar da criança e se diz sobrecarregada pois, além de ensinar as disciplinas exigidas, ainda tem que ensinar temas sociais, leis, e ajudar diretamente na construção da identidade pessoal. Já o Estado exerce sua posição de Lei, aquele que tudo deve prover e tudo deve regulamentar, proteger e garantir. Como resultado dessa postura, por exemplo, assistimos ao surgimento de novas leis familiares que por vezes destituem família e escola e não conseguem garantir de fato o que propoem.
Enquanto essas questões se colocam tiramos o foco da criança e no que ela está vivendo. Quem sabe o que é melhor para ela? Será que essa discussão não mascara a questão da responsabilidade? Todos querendo apontar deveres pode ser um indício de que ninguém que ser responsável sozinho pelo sujeito que se constiuirá ou não a partir dessa infância. Mas isso não necessariamente é um problema. Vamos pensar mais sobre isso.
1. O lugar da família e a destituição subjetiva da função paterna
“Houve uma época em que os filhos eram produtores (…) Estamos na época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional. (…) Quando se trata de objetos de consumo, a satisfação esperada tende a ser medida pelo custo – busca-se valor em dinheiro” Bauman (2004)
Observando o desenvolvimento social e a construção familiar, percebemos que muito mudou. Por muito tempo a educação das crianças era responsabilidade única de seus familiares. Elas só frequentavam os bancos escolares para um contato com a alfabetização e para a uma educação voltada a cognição, conteúdista. Era no contato com os adultos, por observação, que ela aprendia detalhes diversos sobre como deveria ser e se portar socialmente. (Ramos, 1992)
O filho, ao nascer, deveria se juntar aos seus familiares para somar ao trabalho, e por isso podiam ser tratados com dureza, pois esse era o tratamento comum dado a qualquer trabalhador. Os filhos, portanto, eram um bom investimento. Quanto mais, melhor. (Bauman, 2004)
Segundo Ramos (1992) foi somente a partir do século XVII que a criança deixou de ser misturada com os adultos e passou a ter uma educação voltada só para ela. E isso aconteceu num processo que envolveu escola e família. A mudança de paradigma foi acontecendo varagosamente, na medida em que passaram a ver na criança uma pessoa com necessidades próprias. Nesse momento, Bauman defende que as crianças passaram a ser vistas como um objeto de consumo e com muitas despesas atreladas. Objetos de consumo servem as necessidades, desejos ou impulsos do consumir, e os filhos estariam também nessa posição.
Se pararmos para analisar, ter filhos atualmente é uma das coisas mais caras que uma pessoa faz ao longo da vida. Bauman acrescenta a essa despesa outras necessidades que se colocam, como diminuição de ambições pessoais, sacrifício da carreira e até mesmo aceitar que alguém será dependente de você por um tempo indefinido. Tudo isso sendo irrevogável. Tomar consciência de tudo isso, segundo Bauman, pode ser uma experiencia traumática. E ai podemos apontar o começo da divisão desta responsabilidade. Por que os pais teriam que ter um peso tão grande sozinhos?
Por outro lado, Julien (2004) tentou traçar historicamente como os pais foram sendo retirados e ao mesmo tempo se retirarm de seu lugar de autoridade e modelo na educação de seus filhos. Para isso, aborda a distinção entre o que é público ou privado e como isso influencia na parentalidade. Essa distinção se torna mais clara a partir do sécuclo XX, quando o social, pela via política – de Estado, passa a avançar sobre o território familiar. Cada vez mais representantes sociais interferem na relação entre pais e filhos. O que isso denuncia é uma caracteristica da modernidade de tratar os sujeitos como pessoas que não têm condições de se relacionar sem que existam regras, leis e normas. Portanto, uma criança não poderia ser deixada ao arbítrio dos pais. Assim, em nome do bem da criança aparece um terceiro social. Segundo Julien (2004) esse terceiro social aparece de diversas formas: o Estado, a escola, a psicóloga, o pediatra, enfim, circula. Eles aparecem com a pretensão de ajudar, salvar, colocar a seguranca e os interesses da criança em primeiro lugar. O aparecimento desse terceiro é possibilitada pela propria estrutura familiar que, com a modernidade, também está cada vez mais diferente e menos coesa.
Segundo Ramos (1992) cada vez mais os sujeitos se sentem incompletos e incapazes de cuidar de suas próprias questões familiares, buscando cada vez mais uma ajuda que vem de fora, para explicar e consertar o que estaria errado internamente. O processo de desresponsabilização subjetiva é central na sociedade moderna, e com isso as pessoas tendem a buscar fora uma terceira figura, este detentora da verdade e da ordem, para dar sentido aos problemas que passam em sua intimidade, de coro familiar e pessoal.
Assim, a parentalidade passa a depender abertamente do social, por intermédio de peritos chamados para dizer quais são os direitos da criança, e os deveres de seus cuidadores. (Julien, 2004) Assim, há uma questão que se coloca: se cada vez mais a parentalidade é pública, como ficam as relações familiares? Complicadas desde que a criança nasce. Os pais sao obrigados a reconhece-la legalmente, em troca de uma autoridade parental. Ai já começa o cruzamento da fronteira entre privado e público. É uma dualidade que não tem lógicas similares, apesar de aparentemente terem o mesmo objetivo, que é o cuidado da criança.
Portanto, ao invés de responsabilizar somente uma ou duas pessoas pela educação de uma criança, essa responsabilidade foi dividida, delegada. Agora, a educação das crianças se tornava também responsabilidade do Estado e da escola. Assim, os pais não tem mais que escolher entre trabalho ou família. Eles podem continuar escolhendo suas individualidades, e delegar o cuidado familiar a terceiros, simbolizados prioritariamente pelo Estado e ela escola.
2. A escola
A sociedade atribui a escola a tarefa de passar os valores culturais, os conhecimentos instituídos por esta mesma sociedade para as novas gerações. Na posição de consumidores, eles pagam e cobram por um retorno. Essa postura pode colocar a escola em uma situação delicada já que educar é um processo complexo, que muitas vezes muda durante seu percurso e não necessariamente dá em retorno os alunos que os pais desejam ter. Em alguns momentos, educar socialmente é ir contra as aspirações e desejos aos próprios pais e esses estão ali presente para brigar, pois compraram um produto, e querem o resultado final. Exemplos de situações assim temos visto todos o dias nos jornais: alunos que maltratam professores, e são protegidos por seus pais, já que estes – no direito do consumidor e como pagadores – acham que a escola deve aceitar tudo que seus filhos fazem dentro dela; e muitos outros exemplos.
Mas a escola também tem sua parcela de culpa nesse caminho que escolheu. Como supostamente detentora do saber, cada vez mais excluiu os pais do processo de aprendizagem dos filhos, já que estes não tinham fomação pedagógica para tal. A Escola assumiu uma postura de única sapiencia sobre o que deve ou não ser ensinado , e quando esse processo de aprendizagem falha, por motivos diversos, tem pais ali prontos para cobrar e apontar erros. Entre tantos erros tomandos pela escola, observamos também como esta está se tornando ultrapassada, ao deixar de fora o avanço da tecnologia, o próprio saber que o aluno traz de sua vida pessoal e como pode usar tudo isso a seu favor.
A transmissão pedagógica se baseia em um modelo de comunicação simples, no qual o professor transmite um conhecimento e os alunos apreendem. Ela ainda está calcada em modelo de educação antiga, no qual aluno era tábula rasa e o professor detentor do saber. Os pais ficam de fora dessa equação. Portanto, quando falha no educar, ela culpa os pais – que supostamente não participam da educação dos filhos – que ela mesmo exlcuiu dessa processo. Culpa também a sociedade como um todo, as mudanças de paradigmas causadas pelas tecnologias, e não percebe que a mesmo arma usada para culpa a falha pode ser usada para avançar nos estudos.
3. O Estado
O Estado entra nesse círculo para garantir a ordem e o bem estar social. Ele vem assegurar que cada um exerça sua função: o dever dos pais, os direitos dos filhos, e também assegurar segurança, proteção e assistência a sociedade. Ou será que o:
“Estado, vêm pregar um controle generalizado,que invade a vida privada, com o pretexto de uma pretensa segurança justificada pelo bioterrorismo, a ampliação da religião em seu aspecto mais fundamentalista” (Quinet, 2009)
Segundo Lacan (Quinet, 2009), no discurso capitalista – que é o discurso que embasa a modernidade – não há espaço para a Heteridade. Só ha espaço para uma lógica do “Um”, ao qual todos deveriam se sacrificar, e que todos são iguais, e devem obedecer ao Um. A tendência é formar grupos, formar uma massa comandada por um lider, o Um completo, sem falta, um Pai que responderia a todas as interrogações e imporia todas as leis e regras. Essa postura dá um conforto ao grupo, pois deixa o poder de decisão, a responsabilidade pessoal legado a Um outro, suposto inteiro e conhecedor do bem e do mal. Assim, a Estado se coloca nessa posição de Um, e passa a adentrar a instância privada, e, para o bem de todos, impõe regras e leis, e passa a dizer o que é certo e errado na instânca social e pessoal.
Para alguns, essa postura do Estado seria a salvação do sujeito de si mesmo. Para outros, o Estado está na posição de garantir no pessoal aquilo que individualmente as pessoas não conseguem garantir por si mesmas. Mas como se definem conceitos tão subjetivos e multiplos? Como definir o que é bom para todas as crianças, quando pensamos no um, no sujeito psicanalitico, que sendo olhado em sua singularidade se torna tão difernte e tem necessidades diversas um do outro? Com que critério estabelecemos o que é melhor para todos, o que é ruim e o que deve ser incluído ou deixado de lado, em termos de educaçao?
4. Educa-se uma criança? Uma educação possível.
Melman (1994) aponta que o primeiro problema quando se fala de educação de crianças é o lugar no qual nos colocamos. Segundo o autor, cada um de nós recebeu um tipo de educação, e por isso já temos conceitos formados sobre o que é melhor ou não, o que funciona e o que não funciona. Assim, já começamos tentando educar nossas crianças deixando de lado a criança de hoje, e colocando as queixas e reinvidações da nossa educação em primeiro lugar.
A melhor educação talvez seja essa que fracassa. Melman (1994) faz essa afirmação, pois acredita que toda educação hoje tem a tendência a colocar o mesmo ponto de vista em todas as crianças, e tem a pretensão de formar cidadãos iguais. Partindo do ponto de vista do sujeito da psicanálise, um sujeito único, com direito de escolha, talvez faça mesmo parte da constiuição do sujeito viver contra e a favor da educação que recebeu, pelo resto de sua vida.
Melman acredita que o erro, em todos os setores está em tratar as crianças como papagaios, meros repetidores de um discurso familiar, escolar e social. Discurso esses que as crianças cada vez mais tem se recusado a repetir, e nós assistimos aos milhares de sintomas que aparecem todos os dias no âmbito escolar.
Os pais, na sua responsabilidade com o erro, se recusam a aceitar que seus filhos não aceitem o que eles esperam dele, e que o mesmo está autenticamente dividido em uma posição dialética. Eles se colocam na posição de analisar a educação que seus próprios pais tiveram e desejam retransmitir e recusar, se for o caso. Que saber os pais transmistem a seus filhos? Se a educação é vista como uma transmissão de saber, então este saber transmitido pelos pais, e pela escola é um saber fracassado, ultrapassado, pois vem de um posição ideal que obviamente nossos filhos percebem as falhas e fracassos. Melman acredita que essa é uma falha estrutural na chamada educação escolar, social e moral, e está no centro da discussão.
As crianças, apesar de muito novas, já sabem perceber todas as falhas e fracassos no nosso dicurso ideal, e os apontam o tempo todo, nos colocando frente a frente com aquilo que nos mesmos fracassamos em entender. Portanto, para Melman, uma grande dificuldade com as crianças hoje, é que elas nos jogam de volta o nosso próprio inconsciente, aquilo que não entendemos e não queremos lidar.
Melman afirma que talvez essa seja a maior educação que podemos dar: a do encontro com o inconsciente e tudo que nele é estranho e não conseguimos lidar. É transmitir o nada, o Real, o vazio e a falta de sentido presente na estrutura da vida de um ser humano. Mas essa transmissão não é fácil, e só acontece via trauma, conflito.
Estou falando dos pais, mas essa educação vale também para a escola. É no conflito que a escola pode alcançar e educar as crianças, tirando-as da posição de objeto, e colocand0 -as na posição de sujeitos que vão ter que passar por conflitos e traumas para adultescer.
No final, a criança no meio de tudo isso virou produto. Ela nao é vista mais como sujeito individual e sim como uma coisa parte do rebanho, que vai continuar o ciclo social e do Estado e vai fazer a mesma coisa com seus filhos. Como retomar a responsabilizaçao dos sujeitos pais, do sujeito professor e da educaçao no Um a Um?
Podcast Episódio 06: Formação de professores
Depois tem um tempo sem gravar, estamos de volta com o tema “Formação de Professores”. Eu e a Prof. Dilma Mello conversamos sobre o tema passando pela graduação, pós-graduação e também pelos Institutos e cursos de formação continuada e de extensão. (Falamos brevemente também sobre a formação do psicólogo).
*Pedimos desculpas por alguns problemas no som, durante a gravação, pois gravamos em um local que não facilitou a edição posterior.
Filmes que tratam de deficiência
Sugestões de filmes e documentários com temáticas da Educação Especial e da Inclusão.*
As atividades com filmes tem sido uma das estratégias utilizadas em cursos de formação profissional, assim como um meio de sensibilizar as pessoas quanto a questões voltadas para a deficiência e a inclusão. Neste sentido, estamos disponibilizando uma lista de filmes com uma pequena sinopse como sugestão. Não deixe de sugerir a amigos e profissionais da área, assim estaremos ajudando, de alguma forma, a sensibilizar as pessoas quanto a questões voltadas para temas ligados à diferença/diversidade humana.
Nos ajude a aumentar essa lista com novas sugestões.
1. Aforçadeumcampeão-umjovemdeumafamíliaproblemáticaqueencontroua força interior para se tornar um campeão.
2. A filha da luz – associação entre autismo de uma criança de seis anos com poderes extraordinários gera o seu envolvimento com uma seita religiosa.
3. A história de Carrie Buck – garota com deficiência mental fica grávida e é indicada pela instituição para ser esterilizada.
4. A história de Ryan White – adolescente, portador do vírus HIV, enfrenta dificuldades advindas da sua condição e das interações sociais.
5. Além dos meus olhos – aborda percepções e sentimentos de deficientes visuais. 6. Almas gêmeas – amizade entre duas garotas envolve a fusão e dificuldades de limites.
7. A música e o silêncio - uma jovem é a ponte de comunicação entre os pais surdos e o mundo exterior, em uma pequena cidade do Sul da Alemanha.
8. Ao mestre com carinho – alunos com problemas de aprendizagem se transformam a partir de uma abordagem pedagógica diferenciada.
9. À primeira vista - homem adulto cego recupera a visão após intervenção cirúrgica e precisa aprender a “ver” ou interpretar os estímulos que passa a perceber.
10.A prova – relata experiências e percepções de um homem adulto cego.
11.Asas da liberdade – interação entre adultos jovens com problemas de comportamento e seus familiares.
12.À sombra do piano – mostra a relação problemática de uma mãe, frustrada pela impossibilidade de seguir a carreira artística, com suas filhas, sendo uma delas autista; esboço da diferença entre um possível tratamento hospitalar e a relação familiar com a jovem autista.
13.Borboleta de Zargosk (Série “Os transformadores”) – documentário veiculado pela TV Cultura sobre a escola russa para crianças com deficiências múltiplas, fundamentada nos pressupostos da Psicologia de Vygotsky (produzido pela BBC, Londres, 1989).
14.Cegos, surdos e loucos - um homem surdo que é dono de uma banca de jornal e seu empregado, que é cego, se metem em apuros após uma tentativa de assassinato ocorrer perto do local em que trabalham.
15.Código para o inferno – um garoto autista de nove anos consegue decifrar códigos secretos de uma instituição de segurança que procura eliminá-lo.
16.Conrack – desafios e desempenho de um professor em uma comunidade distanciada da cultura urbana e letrada, com alunos considerados “problemas”.
17.Dominick e Eugene – trata do relacionamento entre dois irmãos e dos estereótipos sobre a deficiência mental.
18.Encontrando Forrester – relacionamento de um jovem com seu ídolo esportivo, que teve impacto marcante em sua história de vida (EUA, 2000).
19.Experimentando a vida - aos 28 anos Molly, que é autista, volta a viver com seu atarefado irmão, após deixar a instituição onde morava. A relação entre os dois é difícil, até que Molly aceita submeter-se a um tratamento revolucionário.
20.Feliz Ano Velho – caso de deficiência física adquirida em que são externadas as percepções mais subjetivas de seu portador. Enfoca a superação da negação e da depressão, causadas pela perda de mobilidade e da autonomia do paraplégico.
21.Filhos do Silencio – apresentação de comportamentos, interações e possibilidades de adultos com deficiência auditiva.
22.Forest Gump – homem relata sua história, levando-nos a questionar a deficiência mental.
23.Gênio indomável – rapaz com bom desempenho em matemática enfrenta adversidades e busca organizar sua vida.
24.Gilbert Grape – aprendiz de sonhador – rapaz cuida do irmão com deficiência mental. O filme mostra algumas dificuldades dos familiares e da pessoa com deficiência mental.
25.Janelas da Alma – documentário brasileiro com depoimentos de portadores de deficiências visuais.26.Johnny vai à guerra – sensações e pensamentos de um jovem mutilado pela guerra, que se encontra hospitalizado, sem ver, ouvir, falar u se mover.
27.Lágrimas do silêncio – relata um caso de deficiência auditiva adquirida em uma jovem atriz de teatro.
28.Loucos de amor - um jovem com uma espécie de autismo se apaixona por uma mulher que tem o mesmo problema e que freqüenta seu grupo de ajuda. Ele gosta e precisa seguir um padrão em sua vida, para que possa levá-la de forma normal. Entretanto ao conhecer Isabelle em seu grupo de ajuda tudo muda em sua vida, por estar apaixonado por ela.
29.Mentes perigosas – alunos de gueto americano, estigmatizados pelo racismo e com condutas hostis e agressivas, encontram formas diferenciadas de interação com uma professora de literatura.
30.Mentes que brilham – garoto com talentos especiais e excelente desempenho escolar vai para a universidade e convive com adultos, vivenciando conflitos.
31.Meu filho meu mundo - comovente e delicada história de um casal que luta para tratar de seu filho autista, apesar dos diagnósticos médicos desfavoráveis.
32.Meu mestre, minha vida – escola envolvida com violência, tráfico de drogas e racismo passa a ser o desafio de um novo diretor.
33.Meu nome é rádio – história verídica de um jovem americano com deficiência mental que se tornou famoso no mundo dos esportes; ênfase nos relacionamentos interpessoais e nas mediações de seus instrutores.
34.Meu pé esquerdo – caso de paralisia cerebral em que o portador de necessidades especiais se torna uma figura central na estrutura familiar. Enfoca interações familiares e sociais, além de atendimentos especializados pelos quais passa o sujeito.
35.Mr. Holland, adorável professor – músico torna-se professor e, posteriormente, pai de um garoto surdo. Mostra as dificuldades de comunicação entre um pai ouvinte e um filho surdo.
36.Nascido em 4 de julho – soldado retorna paralítico da Guerra do Vietnã. Questionamento da guerra.
37.NELL – isolamento social: jovem, encontrada vivendo afastada da cidade, tem comportamentos inesperados após interações sociais.
38.O amor é cego – visão cômica sobre os valores sociais e as dificuldades com as diferenças.
39.O encantador de cavalos – adolescente sofre uma amputação após acidente e procura retornar as atividades por meio da equitação.
40.O enigma de Kaspar Hause – trata do isolamento social e da falta de construção de funções básicas do sujeito, com ênfase nas relações entre linguagem e pensamento. Baseado em relato histórico do preceptor de Kaspar Hause, de 1832, na Alemanha.
41.O filho da noiva – relações familiares em torno de uma mulher com problemas de memória.
42.O milagre de Anne Sullivan – história de Helen Keller, caso real de jovem com deficiências múltiplas, e sua interação com a educadora Anne Sullivan.
43.O oitavo dia – mostra a sensibilidade e a afetividade de um jovem com síndrome de Down e as alterações que as suas capacidades provocam nos outros.
44.O óleo de Lorenzo – pais procuram descobrir acura para seu filho, portador de uma doença rara: a adrenoleucodistrofia (ADN).
45.Os segredos de Adam – garoto autista apresenta comportamentos intrigantes.
46.Os melhores dias de nossas vidas – Rory é um jovem rebelde, bem humorado, que fala o que pensa, não liga para as convenções sociais, nem para nada, nem para ninguém. Seu oposto é Michael, que sempre levou uma vida completamente sem graça e enfadonha. Estas duas pessoas tão diferentes têm em comum a deficiência. Rory é tetraplégico e Michael tem paralisia cerebral. Descontentes com as “regras da vida”, estes dois amigos inusitados planejam deixar a instituição onde estão internados com a ajuda de Siobhan para que eles finalmente atinjam seus objetivos: viver a vida em toda a sua intensidade.
47.Os pais dos surdos – a que se assemelha o mundo para milhões de pessoas que, desde seu nascimento, vivem no silêncio? O filme nos faz penetrar e descobrir esse país longínquo, reinado pelos sistemas de comunicação específicos, onde tudo passa pelo olhar e pelo toque.
48.Perfume de mulher – apresentação de comportamentos e possibilidades de adulto com deficiência visual.
49.Ray Man – exposição dos comportamentos e possibilidades de um adulto com a síndrome do autismo.
50.Meu filho, meu mundo – intervenções intuitivas de uma mãe, a partir de seu relacionamento com o filho autista.
51.Sempre amigos – pessoas muito diferentes que descobrem possibilidades de boa interação.
52.Shine – brilhante – um jovem talentoso na música precisa enfrentar o pai dominador e seus próprios problemas psicológicos em busca da perfeição.
53.Simples como amar – uma garota com problemas mentais arranja um namorado. O relacionamento é desaprovado por sua mãe protetora, o que faz com que a garota queira cada vez mais liberdade em sua vida.54.Stanley e Ìris – homem adulto enfrenta dificuldades por ser analfabeto.
55.Tempo de despertar – médico se envolve se envolve na investigação de uma doença (encefalite), que altera o comportamento dos sujeitos, e se dedica ao acompanhamento experimental de intervenções terapêuticas. Baseado na obra do neurologista Oliver Sacks.
56.Tortura silenciosa – uma professora de educação física surda não percebe quando um de seus alunos esconde uma moeda, rara e roubada, em sua bolsa. Logo depois, o rapaz morre na explosão de seu carro e um policial corrupto (Sheen), que sabia do roubo, começa a persegui-la, tentando reaver a moeda. Desesperada, a professora pede a ajuda a um amigo do aluno morto, que passa a protegê-la e decide denunciar o caso ao F.B.I.
57.Uma janela para o céu I e II – baseado na história real de Jill Kinmont, trata-se de história passada em 1955, quando a jovem Jill, então com 18 anos de idade, revela-se um enorme talento para o esqui e aposta certa para vencer os Jogos Olímpicos de Inverno de 1956. Mas acontece uma fatalidade: Jill por pouco não perde a vida após uma queda brutal na neve, mas fica paralisada do pescoço para baixo. Ainda que esteja impedida de praticar esportes para sempre, Jill agora tem uma outra batalha: viver e conviver com sua deficiência. Para isso ela vai contar com a ajuda de amigos, dos pais e parentes.
58.Uma lição de amor – homem com deficiência mental luta na justiça pela guarda da filha.
59.Uma mente brilhante – homem com excelente desempenho em matemática apresenta problemas mentais.
60.Mar adentro - Ramón era um mecânico de barcos que aos 20 anos já dava a volta ao mundo e aos 26, num mergulho em águas rasas, tornou-se tetraplégico e instalou-se para sempre numa cama, entre as quatro paredes torturantes de seu quarto. Luta na justiça para legalizar a eutanásia e finalmente poder “morrer com dignidade”.
* Material elaborado por Sônia Bertoni em dezembro de 2009.
Ensinando Homofobia
Reproduzo aqui para vocês um texto muito bom sobre homofobia. (blog e texto na íntegra aqui – Obrigada pela autorização Lilah!)
Um menino americano de cinco anos, chamado Boo pediu a mãe para se fantasiar de Daphne, a personagem de Scooby Doo, no Halloween. A mãe não viu nenhum problema no pedido, além do fato de que ele poderia mudar de ideia, como qualquer criança de cinco anos. Então ela esperou alguns dias para comprar a fantasia, até ter certeza que era isso mesmo que ele queria. No dia da festa ela levou seu menino para a escola, mas do alto do sua vida de apenas cinco anos, Boo expressou medo de ser ridicularizado. Veja bem, ele não tinha dúvidas que ele queria usar a fantasia, ele só temia que outros não gostassem da escolha que tinha feito ele tão feliz alguns dias antes. Sua mãe o assegurou que o Halloween é um tempo de fantasias e que ninguém veria problema na sua vestimenta tão linda. Ela estava errada e Boo estava certo.
Várias mães expressaram desgosto pela escolha da fantasia de Boo. Pelo apoio que sua mãe deu, para que ele se vestisse do jeito que queria. Alegaram que não era direito ou que não ficava bem. E que Boo seria vítima de chacota de outras crianças. Mas veja bem, naquele momento Boo brincava com outras crianças de quatro e cinco anos que não tinham visto problema nenhum. Ah sim, elas vão aprender a ver problema nisso. Com suas mães e pais. As mesmas que estavam naquele momento criticando a mãe de Boo, por simplesmente ter permitido que uma criança escolhesse uma fantasia de Halloween.
O post que essa mãe escreveu tem mais de 44mil comentários. Muitos de apoio e vários de crítica. Como ela mesmo diz, talvez Boo seja gay. Talvez não seja. Isso não faz diferença para ela, que se preocupa em criar uma criança feliz que será um adulto bem resolvido e equilibrado. Ela não está preocupada em dizer a Boo que sua vontade de se vestir de Daphne, num feriado cujo ponto alto são fantasias, é errada, principalmente por que aos cinco anos Boo ainda está formando sua identidade de gênero e sua sexualidade. O que ela quis dizer, e disse, ao comprar aquela roupa é que seja que caminho ele seguir, ela vai estar lá.
O outing do Lucas foi logo depois do seu aniversário de 17 anos. E guardadas as devidas proporções eu ouvi coisas bem semelhantes de parentes, amigos e até de professores. Que eu estava “incentivando” ele a ser gay por ter aberto minha casa para amigos e namorados. Que eu devia ser mais rígida e menos “moderninha”. Que sendo tão novo era possível ainda “consertar o problema”. Claro que junto disso vinham também as recriminações sobre eu ter sido muito mole na educação dele. Ou de não ter tomado cuidado com as companhias. Que isso podia ser uma fase e que eu devia incentivá-lo a namorar uma menina, por que ele não podia saber se era gay sem ter namorado meninas antes. Como se algum hétero precisasse namorar meninos, para descobrir que gosta mesmo de meninas.
São essas atitudes que expõe claramente o quanto nossa sociedade é homofóbica. Ok, então seu filho é gay. Você já errou em algum lugar e fez ele virar gay, não precisa agora incentivar isso, né? Tenha um pouco de respeito por nós, cidadãos de bons costumes, e ensine seu filho que lugar de gay é onde eu não precise olhar para ele. Preconceito não é inato. Pessoas não nascem preconceituosas. Minha neta não tem nenhum problema com a sexualidade do tio, ela ri pra ele com o mesmo entusiasmo que ri para qualquer um que dê atenção a ela. O bebê de 2 anos filho do vizinho também. Infelizmente esse bebê de 2 anos vai aprender com o pai, um homofóbico de carteirinha, a não sorrir mais para o Lucas.
Muita gente que me aplaudiu quando eu “aceitei” o filho adolescente gay, me crucificou anos depois quando o Mario foi morar conosco. Muita gente que diz admirar minha relação com o Lucas, leva essa admiração apenas até a página dois. Tudo bem você aceitar o seu filho gay, mas não acha que é demais deixar seu filho caçula sair com ele e o namorado? Ou permitir que eles se beijem na frente dele? Isso não é legal para uma criança assistir. Você pode respeitar, mas não devia ficar incentivando esse comportamento ou trazendo os amigos para dentro de casa. Ou ficar conversando sobre o assunto com ele. Ou comprando camisinhas. Ele devia respeitar a família. Ou em outras palavras, você devia fingir que esse assunto não existe e deixar ele lá. Lá é o lugar que essa sociedade diz que gays deviam ficar.
O menino dessa história tem sorte de ter uma mãe que entende que, vestir-se de Daphne não vai determinar sua sexualidade no futuro. Que está disposta a deixá-lo experimentar e buscar a construção de sua própria identidade, sem limitações machistas e homofóbicas. Assim como não é a sexualidade do Lucas que vai influenciar, moldar ou contaminar a sexualidade do Saulo ou da bebê que eu estou esperando. Talvez, apenas desse a eles mais segurança para falar, por crescerem em um ambiente onde a homossexualidade é só um aspecto da personalidade.
Eu não poderia consertar o Lucas. Por que não tinha nada quebrado com ele. A mãe do Boo não está incentivando seu filho a ser gay ou travesti, ela está apenas respeitando uma escolha de fantasia do Halloween! Que aliás, provavelmente seja só isso: uma fantasia de Halloween. A maldade está na cabeça de quem transformou uma festa e uma brincadeira de criança, numa declaração de homofobia. E de quem ensina seus filhos que o diferente é para ser hostilizado ou ridicularizado. De quem perpetua uma sociedade machista, homofóbica e misógina onde um garotinho fantasiado de Daphne vira gay por ousar brincar.
Abuso ou Preconceito?
Falar de educação e sexualidade tem sido minha prioridade no ano de 2010. Fiz uma série de palestras e aulas sobre o tema, tanto em escolas públicas como em cursos de pós-graduação e formação de professores. Nesses momentos, tento tratar a questão pelo olhar da sexualidade e não do sexo, pois é comum tomarmos um pelo outro, ou pensar tudo como uma coisa só. Outra tentativa é de discutir questões importantes como homossexualidade, sexualidade nas deficiências e abuso sexual, tentando propor um novo olhar que passa pelo afeto e não pelo tradicional preconceito que encontramos tão enraizados nas pessoas.
Com essas experiências aprendi muitas coisas ao longo desse ano. Aprendi o quanto é difícil mudar um conceito e seus reflexos sociais. Aprendi também que quando se fala de sexualidade nada é simples e claro. A subjetividade é tanta que fica difícil estabelecer o que é certo e errado quando tratamos de desejo e do gozo (psicanalítico). Tudo depende do contexto (história, pessoas envolvidas, momento, etc), e por isso que hoje vou tentar falar um pouco do caso “do dia”.
“Jovem de 18 anos é preso por beijar garoto de 13 em cinema de shopping”
Notícia completa aqui.
Quando discuto abuso sexual infantil e adolescente, faço uma linha do tempo que começa no conceito de família e infância. Acredito que pensar as evoluções culturais e sociais são extremamente importante para pensar o presente e tudo que têm acontecido e se tornado corriqueiro socialmente. Em resumo, podemos pensar que o conceito de infância foi criado (já que antes elas eram vistas apenas como pequenos adultos), e depois dele veio o conceito de adolescência. Porém, com as evoluções sociais, a infância anda sendo achatada e precocemente transformada em adolescência. Crianças de 7 anos, por exemplo, que ainda estão longe da puberdade já mostram comportamentos adolescentes. E nossa sociedade como um todo tem apoiado essa “evolução” com uma naturalidade que assusta.
Vamos pensar juntos: se crianças com 7, 8 anos já se comportam como adolescentes e têm uma relação antecipada com as questões de sexo e sexualidade, não seria natural que com 13 anos elas se sentissem experientes e espertas o suficiente pra saber o que desejam e o que deixam de desejar? Nossa sociedade nos evidencia isso de diversas maneiras, como por exemplo o número de adolescentes grávidas com idades cada vez menores, aumentando diariamente os gráficos na área da saúde. Programas de tv como Malhação mostram que as crianças já se preocupam em namorar ou gostar de alguém. Nesse mesmo programa, jovens ainda menores se casam e descasam, engravidam e abortam e por ai vai…
Vamos adicionar mais uma pimenta nesse olhar: nós sabemos que nossa sociedade é ainda muito preconceituosa. Quando trabalho com os professores percebo como eles (que refletem nossa sociedade) aceitam namoro na escola (de meninas entre 13/14 anos com meninos mais velhos, 17/18 anos), mas quando alguma proximidade acontece entre dois meninos, as atitudes variam de nojo, incompreensão e até mesmo ao ato de chamar os pais dos meninos para dizer que algo de errado está acontecendo. Como podemos ver nesses vídeos patrocinados pelo Ministério da Cultura, Homofobia na escola I e Homofobia na escola II, certos comportamentos são socialmente aceitos para casais heterossexuais e são proibidos para casais homossexuais. Assim, se esse menino da reportagem fosse uma menina de 13 anos, será que tudo isso teria acontecido? Será que eles teriam sido tão notados pela bilheteira, pela pipoqueira e pelos outros adultos no cinema?
Pra finalizar essa linha de argumentação ficam as perguntas: Será que se fosse um casal de heterossexuais isso teria tomado essa proporção? Se a nossa sociedade instiga o comportamento sexualizado precocemente e o naturaliza diaramente, o menino de 13 anos não sabia muito bem do que estava fazendo e assim consentindo todo o namoro? Então, qual o crime?
Agora vamos pensar em outro olhar. Esse olhar é visto para muitos como tradicionalista, conservador e antiquado. Talvez seja. Vou deixar pra vocês essa resposta. Seguindo aquela linha de estudos sobre a importância dos conceitos e da evolução da família e da sociedade, será que não estamos “naturalizando” e instigando a sexualidade infantil muito precocemente? De pequenos adultos à crianças, podemos pensar que o conceito de infância foi uma conquista: dar espaço e tempo para que a criança se constitua e descubra o mundo sem as dificuldades do mundo adulto, entre outras coisas, foi uma conquista social. Mas com o achatamento dessa infância e com o esticamento da adolescência, o que tem acontecido é uma permissividade sexual precoce. Pensamos que hoje a sociedade é rápida, flexível e que as crianças estão preparadas para tanta informação, tão cedo. Mas será mesmo? Porque se isso fosse verdade, não teríamos indices altíssimos de crianças deprimidas (que inclusive cometem suicídio), estressadas, ansiosas, enfim, crianças com problemas psicológicos diversos (que afetam aprendizado, sociabilidade, etc). Sem falar do grande número de casos de abuso sexual infantil/adolescente.
Pensamos que elas são preparadas o suficiente e sexualizamos as relações, a infância, de forma que quando elas são vítimas de abusos, tendemos o culpá-las. E essa linha tênue fica mais tênua ainda quando a idade está entre os 13 – 16 anos.
“Ah, mas aquela menina estava pedindo, olha como ela andava vestida…”
“Essa ai tem 16 anos mas se comporta como uma de 18, é rodada, sabe tudo. Então não é crime.”
Mas será que o crime não está em permitir uma sexualidade precoce e um desenvolvimento tão rápido que jovens dessa idade se comportem como adultos? Porque eles exibem essa sexualidade “super desenvolvida” mas é frequente escutar dessas mesmas pessoas, quando mais velhas (30, 40 anos) que não sabiam o que estava fazendo, mas achavam que sabiam. Será que o crime não é mesmo do adulto por – 1: permitir uma sexualização precoce; – 2: se relacionar sexualmente com esses jovens usando o mesmo argumento de que eles provocam pois sabem o que fazem?
“Oras, isso sempre aconteceu, porque seria diferente agora?”
Então quando algo se torna cotidiano ele também se torna correto? Em algumas sociedades e famílias, adolescente devem se preocupar com estudo, com a construção identitária e com a descoberta daquilo que lhes move. Namorar faz parte, mas essa sexualidade exacerbada fica para a maioridade. E essa maioridade é alcançada subjetiva e historicamente, não deveria ser forçada e instigada socialmente.
Para adicionar mais um pimenta a essa linha de argumentação, vamos pensar no papel da escola e da sociedade. Criança e adolescente interessado na educação demoram mais tempo pra se sexualizar. Porque se eles conseguem obter prazer pelo conhecimento (que é o grande objetivo da existência de uma infância e uma adolescência) mais tempo vão dar para que o corpo e a mente evoluam em seu tempo. Quando temos uma escola desgastada, um ensino que não sabe provocar desejo e um sistema de educação que preza pela quantidade e não pela qualidade, é preciso encontrar prazer de viver em algum lugar, o mais rápido possível. E já sabemos em que lugar elas vão encontrar.
Assim, deixo mais perguntas: Nossa sociedade sexualiza as crianças cedo demais com o argumento social de que o mundo mudou e tudo está mais rápido? Temos o hábito de tirar a responsabilidade do adulto e arrumar uma maneira de sempre culpar a criança e o adolescente? Não estamos voltando a tratá-los como pequenos adultos?
Como podemos perceber, nunca é fácil determinar qual argumento é o correto. Porque, mais uma vez, cada caso é um caso. Não dá pra dizer que uma coisa é errada e outra é certa, porque ambos tem aspectos importantes a serem considerados. Ao mesmo tempo não podemos dizer que uma atitude foi determinante para um comportamento, e vice versa, porque se considerarmos toda a subjetividade desses temas, fica impossível estabelecer linhas objetivas de causa-conseqüência. Mas uma coisa fica: precisamos repensar a importância dada a sexualidade precoce na nossa sociedade e insistir na discussão sobre as questões de preconceitos de gêneros. São os temas polêmicos que evidenciam o que de pior e o que de melhor existe nas pessoas a na sociedade.












