Associação Livre
Arquivo para o Mês: June 2010
Feminilidade e Sexualidade – O corpo
Na busca de uma resposta para a falta de significante especifico de seu próprio sexo, a menina busca também respostas no seu corpo e na forma como vive sua sexualidade. Após Freud, outros autores como Melanie Klein adicionaram outras problemáticas pertinentes a realidade feminina. Para ela, é importante a forma como a menina representa seu genital, pois isso pode afetar a forma como ela lida com sua sexualidade e feminilidade.
De acordo com Klein, a primeira dificuldade para a menina seria de reconhecer seu genital, entende-lo e aceitar sua condição. Bernstein, por sua vez, propõe três termos para melhor entendermos essa fase da menina. O primeiro deles é o acesso, momento em que a menina percebe que não tem acesso aos próprios genitais, não pode vê-los da mesma forma que o menino, e por isso cria uma dificuldade de representação mental das partes de seu próprio corpo, principalmente em um lugar que gera sensações intensas. A falta de familiarização com seu genital torna-o alvo de fantasias proibidas ou sentimentos culposos, gerando angustia consigo mesma e sua sexualidade. Esse segundo momento denomina-se difusão.
O terceiro ponto seria a penetração. O formato da vagina, aberto, e cujo fechamento não há controle coloca a menina numa insegurança contra a sua proteção. Fantasiam sobre seu buraco e se sentem vazias, inertes. Não conhecem a origem de suas sensações e por vezes se incomodam com as mesmas, quando eventualmente ocorrem. Para a menina é como se ela tivesse um buraco aberto através do qual coisas podem sair e entrar, e que não há como abrir ou fechar, nem controlar o acesso. Assim, a menina sente como se estivesse sempre em perigo de penetração, e teme se machucadas pelo que pode entrar. Além disso, a autora complementa que, a questão de proximidade da vagina com o anus pode deixar a sensação, na menina, que sua vagina é suja.
Essa variedade de angústias, segundo Bernstein, é central no processo de definição da sexualidade e feminilidade na menina. Porém, segundo Mcdougall, um caminho possível para neutralizar essas angústias e buscas seria a menina deixar de querer ter para poder ser, ou seja, sua falta do pênis se transformaria em um desejo pelo pênis. Outra solução poderia ser a maternidade, e assim por diante.
Eu acho toda essa teoria inglesa muito interessante, mas não concordo com ela. Acredito que ela é muito apegada a concretude da “inveja do pênis”. Lacan criticava muito a escola inglesa mais ou menos nesse caminho.
No Seminário 20, Lacan fala muito sobre feminilidade. Ele trata de gozo e demanda de amor, e quando fala de sexualidade feminina diz que esse sexo fálico masculino não diz nada para a mulher, porque ela não é toda (não tem o falo). Portanto o sexo só poderá lhe dizer alguma coisa através do gozo do corpo. Para Lacan, nada distingue a mulher como ser sexuado, a não ser pelo sexo. O gozo fálico seria o grande obstáculo do homem para entender a mulher, porque são gozos distintos. Então podemos pensar que tratar a feminilidade a partir da idéia fálica de inveja do pênis seria limitar e simplificar demais a questão.
(Continua…)
Para saber mais:
- J.Lacan – Seminario Mais, Ainda
Feminilidade e Complexo de Édipo Feminino
O que quer uma mulher? Essa pergunta atravessa gerações e parece nunca obter uma resposta satisfatória. Mulheres e homens tentam ano após ano descobrir o que deseja uma mulher. Freud tentou esclarecer esse mistério discutindo sobre algumas questões femininas. No final de suas obras ele deixa a certeza de que o Édipo produz o homem, mas não produz a mulher. No entanto, manteve aberta a questão sobre o desejo feminino e deixou o caminho aberto para novas discussões, apontando, desde então, a complexidade do tema.
Lacan também discutiu a questão do feminino e polemizou com sua famosa declaração de que a mulher não existe. Entre outras coisas, Lacan dizia que o feminino é um não-lugar, um vazio.
Considerando a vida prática, pode-se dizer que a mulher passa a vida tentando se identificar, se descobrir. Essa busca começa ainda cedo, quando a menina tenta encontrar respostas naquela que é a primeira mulher de sua vida, sua mãe. Desde cedo a relação mãe e filha já se mostra complexa, cheia de cobranças, de raiva, de culpa, de identificação, de competitividade, enfim, um eterno vínculo em busca de respostas.
Mas essa busca por identificação não para na infância. Em geral, a mulher continua sua busca, e tenta se encontrar em diversos momentos: no casamento, na maternidade, enfim, tenta se descobrir nos vários papéis que lhe são propostos. Mas quando isso acontece? Quando a mulher se identifica, se encontra? Será que esse processo de descobrimento chega efetivamente a ocorrer?
O tema sobre o feminino não é simples. Embora tenha dedicado um espaço em sua obra para discutir o tema, Freud fala do asunto como obscuro e de difícil acesso. Posteriormente, Lacan, ao estudar a obra freudiana, aborda a feminilidade, mas resgata e ressalta a importância da figura do pai, um recorte que não trata da perspectiva específica mãe-filha. Alguns autores acreditam que é nessa relação que estaria a chave para o entendimento do torna-se mulher.
(Continua…)
Para ler mais sobre o assunto:
Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa – J. Nasio
Pós Graduação na USP em Psicanálise
Pessoal, este curso é muito bom, recomendo muito fervorosamente.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE CULTURA E EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA “TEORIA, TÉCNICA E ESTRATÉGIAS ESPECIAIS EM PSICANÁLISE”
Departamento de Psicologia Clínica – IPUSP
COORDENAÇÃO:
PROF. DR. AVELINO LUIZ RODRIGUES
COORDENADORA CLÍNICA e PEDAGÓGICA
PROFª DRª MARIA LÚCIA DE ARAÚJO ANDRADE
O Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo oferece o curso “Teoria, Técnica e Estratégias Especiais em Psicanálise”, para psicólogos, médicos e terapeutas ocupacionais em busca de uma sólida evolução profissional. Ministrado por um corpo docente altamente qualificado, segue a abordagem freudiana-lacaniana, o que o posiciona na vanguarda da psicanálise atual, e proporciona um consistente e significativo diferencial em seu currículo.
Este Curso, agora pertencente à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, já existe desde 1998, quando foi criado pela Profª Drª Maria Lúcia de Araújo Andrade, junto com um grupo de professores do Instituto de Psicologia, além de outros convidados notáveis em suas especializações, não pertencentes aos quadros da Universidade. Ela é docente, pesquisadora e supervisora do Departamento de Psicologia Clínica; orientadora no programa de pós-graduação em stricto-sensu e psicanalista lacaniana. `A mesma época a professora criou o Laboratório Sujeito e Corpo, SuCor, onde coordena atualmente o Grupo “Sujeito, Corpo, Sintoma e Instituição” voltado ao ensino, à pesquisa e aos atendimentos clínicos oferecidos à coletividade.
O Curso oferece disciplinas de fundamentação teórica além de enfatizar a prática clínica, através dos atendimentos supervisionados realizados pelos alunos, grupos de discussão clínica e seminários.
O curso oferece ainda, aos seus alunos, o benefício de partilhar das atividades e dos resultados obtidos através das pesquisas e publicações do Laboratório Sujeito e Corpo.
Para você que procura ampliar seus horizontes profissionais, nada melhor do que acrescentar a seu currículo o título de Especialista, fornecido por uma das mais respeitadas instituições do país: a Universidade de São Paulo. Peça agora mesmo maior informações, e faça sua inscrição no curso “Teoria, Técnica e Estratégias Especiais em Psicanálise”, do Instituto de Psicologia da USP.
Programa*
Primeiro Semestre
- Introdução à teoria psicanalítica em Freud. Principais conceitos.
- A dinâmica das pulsões: representações clínicas.
- A transferência: seu manejo e peculiaridades.
- Introdução a Lacan.
- Introdução à prática clínica. Triagem e acolhimento. Entrevistas preliminares. O pedido e a demanda. O momento da entrada em análise.
- As estruturas clínicas.
- A complexidade Psico-Socio Cultural brasileira. A psicanálise neste contexto.
- O trabalho institucional.
Segundo Semestre
- Diagnósticos. Releituras feitas pela psicanálise.
- O lugar do corpo na psicanálise. O desejo, o gozo e a lei.
- Os distúrbios psicomotores dentro do campo da psicanálise.
- A deficiência mental e a pseudodeficiência. Novas propostas de tratamento.
- O autismo. Particularidades do diagnóstico e tratamento.
- A psicose e a neurose. Manejos na situação analítica.
Terceiro Semestre
- Topologia: os lugares em psicanálise.
- A genética e o lugar do psicanalista nas síndromes genéticas.
- As intervenções psicanalíticas possíveis em bebês.
- As relações entre psicanálise e a psiquiatria. O uso de medicamentos.
- As instituições psiquiátricas.
- Os distúrbios de aprendizagem vistos pela psicanálise.
- A contribuição de Piaget – modalidades do real: os possíveis e o necessário.
Quarto Semestre
- Questões técnicas – os quatro discursos em psicanálise.
- Questões técnicas – a associação livre. A palavra justa. O ato psicanalítico.
- Questões específicas no desenrolar de uma psicanálise – de crianças, de adultos e de adolescentes.
- Questões forenses e a psicanálise.
- A questão dos pais na psicanálise infantil.
- O término de uma análise.
- Desafios do trabalho psicanalítico dentro do contexto psicossocio-cultural brasileiro.
*Programa passível de revisão a juízo da coordenação quando for necessário,
Para que o aluno possa obter o certificado ele deverá ter 85% de freqüência, nota mínima de 7,0 e ter apresentado e defendido oralmente uma Monografia com nota mínima de 7,0.
Constituição do Curso:
O Número de vagas é Limitado
Total de horas/aula: 790
Aulas formais em sala de aula: 230hs
Monografia: 51hs
Seminários: 59hs
Aulas Práticas ou de campo: 450hs
Atendimento clínico 200 h
Supervisão: 150 h
Discussão de Casos Clínicos: 50 h
Dia e Horário das aulas:
As aulas se realizarão às terças-feiras, das: 08:30 às 16:30hs
Duração: 02 anos (4 semestres)
Inscrições:
Inscrições abertas a partir de 17 de JUNHO de 2010 à 22 de JULHO de 2010
Local das inscrições e informações:
Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP – Av. Prof. Mello Moraes, 1721 – Bloco F – Sala 16 – Cidade Universitária – São Paulo SP.
Telefone: 3091-1948 - E-mail: labsucor@usp.br
Entrar em contato com Letícia, secretária do Laboratório Sujeito e Corpo.
Inicio das aulas:
24 de Agosto de 2010
Local: Departamento de Psicologia Clínica – Bloco F
Documentos necessários:
02 vias do curriculum; 02 cópias do RG (frente e verso), CPF, C.R.P, CRM ou do Conselho Regional do candidato; 02 fotografias; 01 carta explicando o motivo do interesse pelo curso.
Taxa de inscrição: R$ 40,00
Taxa de seleção: De R$ 300,00 com desconto de 25% perfaz o valor de R$ 225,00.
* CERTIFICADO EMITIDO PELA PRO-REITORIA DE CULTURA EXTENSÃO – USP*
Os alunos deverão se inscrever e serão chamados após uma primeira seleção feita através da analise dos documentos solicitados.
Aqueles que forem selecionados, nessa primeira fase, serão convocados para uma entrevista com um dos professores do Curso.
2 Matriculas (1 por ano):
1º Matrícula com desconto de 25%, perfazendo o valor de R$ 450,00, a mesma equivale a 1 parcela.
2º Matrícula com o valor de R$ 600,00, a mesma equivale à 1 parcela.
24 Parcelas (2 delas são matriculas):
As Parcelas do 1º Semestre de R$ 585,00, possuem o desconto de 25%, perfazendo um valor de R$ 438,75 por parcela.
No 2º semestre ao 4º Semestre as parcelas retornarão ao seu valor de R$ 585,00.
Jacques Lacan – Vídeos
Esse vídeo de “Lacan em um minuto” é divertido.
Aqui também o primeiro vídeo de um de seus Seminários. Pra quem tem curiosidade de conhecer e escutar, é uma boa pedida.
Eventos – Psicanálise
1) A Escola Brasileira de Psicanálise mensalmente promove eventos de discussão, seminários e debates sobre temas psicanalíticos, e sempre gratuitos e abertos ao público. Repasso as próximas datas.
Titulo do seminário: Aspectos do delírio em Freud e Lacan
Responsáveis: Blanca Musachi e Cássia Rumenos Guardado
Data: Quinta feira 17 de junho de 2010
Freqüência: quinzenal
Horário: 21:00 às 22:30
Local: Sede EBP-SP, João Mouro 647, cj 193, 19 andar
Titulo do senimário: Leituras do seminário 18 de Lacan.
Responsável: Cássia Gindro
Data: Quarta feira 02 de junho de 2010
Freqüência: quinzenal
Horário: 20:30 às 22:00
Local: Al Raul Roldão da Costa 143 – Vl Betânia - São José dos Campos
Titulo do seminário: “A direção do tratamento e os princípios do seu poder”
Responsável: Eduardo Benedicto
Data: Quinta feira 10 de junho de 2010
Horário: 15:00 hs às 16:30 hs
Frequência: quinzenal
Local: sede do COPI – Campus USP / Ribeirão Preto (Rua: Clóvis Vieira, casa 32) telefones, (16) 3602-3494 / 3623-6302.
Titulo do seminário: Psicanálise e Filosofia: Psicanálise Século XXI – Paixão e Destino.
Responsável: Mª Bernadette Soares de Sant’ana Pitteri
Data: Sexta feira 11 de junho de 2010
Horário: 16:00 às 17:30.
Frequência: semanal
Local: Rua Cardoso de Almeida, 60 conj. 44 – Perdizes / Cep 05013-000 – Tel. 3861-0013 falar com Goreth.
Titulo do seminário: “Comer o nada” - A prática lacaniana e os transtornos alimentares
Responsável: Paola Salinas
Data: Quinta-feira 17 e 24 junho de 2010
Local: Rua Adolfo Serra. 364 Ribeirão Preto – SP
Freqüência: quinzenal
Horário: das 19:30hs
Informações: (16) 3635-6906
Titulo do seminário: Angústia: relendo Freud e Lacan
Responsável: Márcia Szajnbok
Data: Sextas-feiras 11 de junho de 2010
Local: Sede da EBP-SP, R. João Moura 647 Ap. 193 19º andar
Freqüência: Quinzenal
Horário: 11:00 às 12:30hs
Informações: (11) 3081-8947
2) Fórum do Campo Lacaniano/SP promove o Encontro com o Autor, com o convidado Mauro Mendes Nogueira. Também é gratuito, mas é necessário inscrição antecipada.
Data: 18/06/2010 as 20:00
Inscrições: (11) 3063-3703
Concurso Público
(Se você é deficiente visual, ou simplesmente não gosta de ler, o audio esta no final deste texto)
Quando assistimos filmes “antigos”, que se situam aproximadamente entre 1970/1980, as famílias em geral são retratadas da mesma forma: classe média, o pai funcionário de uma grande empresa que com seu salário garantido sustenta a família. Essa família, em geral, é composta pela esposa (que por sua vez trabalha em casa ou na rua – por opção) e pelos filhos (dois ou três). Uma família feliz, pois consegue ter uma vida boa, fazer viagens de férias, ter seu carro, seus eletrodomésticos e sua casa própria. Nos encontros com os vizinhos, cada um fala muito bem de sua empresa e de seu trabalho, e de como a estabilidade é o melhor bem que o emprego pode dar.
Mas o tempo foi passando e o capitalismo foi entrando em crise. Com ele, as empresas também mudaram sua forma de tratar os empregados, que cada vez tem que trabalhar mais, com menos benefícios, e sem garantia de que terão o emprego no dia seguinte. Com essa mudança de mercado, o desejo das pessoas também foi mudando. Elas começaram a almejar cargos e posições públicas pois estes oferecem garantia vitalícia de emprego, apesar dos salários não serem tão competitivos como o mercado. Além dessa garantia (que por si só já atrai 90% dos “concursandos”), todos nós sabemos do velho e famoso ditado: quem é funcionário público ganha pra trabalhar pouco. Sem o medo de ser mandado embora não há uma exigência em produção e qualidade de serviço executado. Quem aqui já não precisou de um serviço público? Nessas horas sabemos bem como as coisas funcionam (com raras exceções – que vou discutir mais tarde).
Com esse novo objetivo traçado, centenas de brasileiros começaram a dar uma atenção maior aos chamados concursos públicos. E com isso houve também um crescimento na oferta dos cursinhos, essas escolas que fazem um preparatório para provas de concursos. E a partir daí, acho que podemos dividir essa galera em dois grupos:
1) Qualquer coisa tá valendo: nesse grupo, temos aquelas pessoas que querem ser funcionárias públicas. O cargo? Isso não importa. O primeiro concurso que sair, essa pessoa vai prestar, e vai prestar todos os outros, na sequência, até passar. Um graduado em direito, por exemplo, vai prestar para vagas de delegado, promotor, procurador, juiz, fiscal… Enfim, vai prestar em todas as áreas que sua formação permite. O importante é mamar nas tetas do governo, ter seu emprego garantido, trabalhar o mínimo necessário e ficar tranquilo para o resto da vida. Acontece, muito raramente, de um funcionário público desse grupo realmente se interessar por sua profissão (pura sorte) e aí realmente trabalha pra valer, fazendo valer o salário que o povo paga pra ele.
2) É isso que eu quero: nesse grupo, as pessoas não querem qualquer profissão. Elas já sabem o cargo que querem exercer, e portanto vão estudar e focar naquele objetivo. No fundo, o que elas querem é exercer a profissão, seja onde for. Mas como o mercado não anda bom pra ninguém, os concursos são uma oportunidade de ela exercer sim a profissão que quer, fazendo o que gosta, e ao mesmo tempo tendo o seu salário garantido. Essas pessoas entram com uma sede de trabalho muito grande quando passam no concurso. Mas algumas acabam entrando no esquema folgado, porque percebem que querer trabalhar quando ninguém quer é muito difícil e dá muita dor de cabeça. Algumas poucas continuam brigando pra trabalhar (isso parece ridículo, mas é a mais pura verdade) e trabalham mesmo, pesado.
Acontece que quando uma pessoa decide prestar o concurso público, ela pensa que o mais difícil é a parte do estudo, ou seja, passar na prova. Muitas pessoas passam anos e anos de suas vidas estudando, e por vezes são engabeladas por editais de concursos que só querem mesmo enganar os coitados. Digo isso porque muitas pessoas deixam suas vidas em pausa pra estudar, pagando esses concursos, ou mesmo gastando seu dinheiro com livros, etc. Tudo em prol da tão sonhada vaga. Essas pessoas já enfretam um problema: muitos editais de concursos são feitos só pela burocracia: algumas pessoas já trabalham nos cargos do edital, mas como contratadas, ou substitutas, e os editais pretendem oficializar essas pessoas nos cargos. Mas como são obrigados a dar oportunidades para todos, lançam editais “engana-trouxa”. É horrível esse nome, mas não poderia ser dado outro. Esses editais já são preparados para encaixar exatamente os perfis daqueles para as quais as vagas se destinam, ou seja, os que já trabalham na área (ou os apadrinhados, por ‘n’ motivos). Como um número grande de pessoas consegue preencher os requisitos, o segundo passo é preparar uma prova em que os apadrinhados vão melhor do que o povão. E o terceiro passo, em geral numa fase subjetiva, os critérios não ficam claros, e mais uma vez os apadrinhados terão grandes chances. Esses são os editais em que eles conseguem arrecadar bastante dinheiro (das inscrições) e no final não se vê muita supresa, quando os aprovados são em 80% as pessoas apadrinhadas.
Há ainda aqueles casos em que os apadrinhados não conseguem passar. Aí temos um segundo problema que é a convocação. Então você está feliz da vida porque passou, mas percebe que nunca é convocado. Até desiste, já que a validade desses concursos é cada vez menor. O que você não sabe é que muitas vezes, mesmo com candidatos aprovados, eles continuam contratando (por fora) ao invés de convocar os aprovados. Se você bobeia e deixa de acompanhar o diário oficial (em muitos concursos, o aprovado só tem como acompanhar as convocações e contratações pelo diário oficial), você tem grandes chances de ter sido passado pra trás mais uma vez.
Eu poderia ficar aqui contando todas as situações em que os concursos são mero teatro, mas vou falar do outro lado da história. Muitas pessoas acabam ficando espertas com esse movimento todo, e ficam de olho, atentas. Não desistem, e quando percebem alguma coisa desse tipo, brigam, lutam. Entram com recursos, pedem anulação do edital para o MP… Enfim, há muita coisa que pode ser feita quando se tem indícios de fraude nos concursos. Uma pena que a grande maioria, mesmo sabendo disso, não tem a força para entrar em um processo, e acaba deixando pra lá. Mas quem tem força consegue muitas vezes anular concursos e ter uma nova oportunidade verdadeira. Não posso deixar de falar também nas universidades e estados que fazem sim concursos íntegros, dos quais muitas pessoas se beneficiam. Mas, na dúvida, é bom ficar alerta.
De qualquer forma decidi falar de tudo isso hoje porque percebo a inocência do chamado “povão” quando sonha com o cargo público. Mas a verdade é que poucos se beneficiam e conseguem essas vagas. O grande resto enche os cofres dos cursinhos, da conta do concurso público, e é só número pra fazer volume. Essas pessoas, em geral, nem sabem porque querem prestar o concurso público, porque em geral estão naquele primeiro grupo que eu descrevi acima. E quando falo em inocência, quero dizer das mil maneiras que o governo e a sociedade têm de enganar o povão. Damos os sonhos, dizemos que eles podem sonhar com ‘a’ e ‘b’, e no fundo sabemos que as chances desses sonhos se concretizar são mínimas. E temos que pensar nisso também, que sonho é esse que nossa sociedade produziu, no qual o grande objetivo é mamar nas tetas do governo. Estamos vivendo um momento político muito assistencialista: não produzimos melhores condições, pelo contrário, damos algo para o povo ficar satisfeito e calado. E os sonhos e objetivos das pessoas têm refletido isso, como esse sonho de concursos públicos. Isso é muito perigoso, porque cada vez mais deixamos as pessoas acreditarem que o melhor pra elas é mamar nas tetas de alguém, e não exigir condições para ser independente.
O quanto antes pudermos denunciar essa prática (em todos os setores), mais damos chance para que as pessoas possam pensar criticamene e de fato escolher seus sonhos e objetivos para além daquilo que a sociedade mostra que devemos e podemos desejar. Mas, se o seu sonho for esse mesmo, então tenha peito pra brigar pelo que é certo, porque será um longo caminho a ser trilhado, caminho esse que não termina com sua aprovação.
Leia também: Brasileiro vai ser sempre brasileiro
Podcast Episódio 05 – Educação a Distância
Neste Podcast, eu (Aline Accioly) e a Prof. Dilma Mello conversarmos sobre Educação a distância. Discutimos sobre as concepções e preconceitos que existem sobre o assunto.
Outras opiniões sobre o tema:
Educação a distância: construção de uma proposta sócio-interacionista com mediação tecnológica
Citações:
Chat Educacional
Etienne Wenger – Comunidades colaborativas
Vera Menezes – O papel da educação a distância
Heloisa Collins – Educação a distância para inclusão social
Conceito de Presença – Aqui também
Planos de Saúde
Procuro sempre ter um olhar crítico em relação às “coisas boas” que nos acontecem, principalmente quando elas têm um fundo político ou corporativo. Não seria diferente para os planos de saúde.
Minha briga com planos de saúde já não é de hoje, e já fiz um post aqui em relação a isso. Nunca acreditei que a idéia por trás dos planos de saúde fosse ruim, e sim que é mal executada. E quando se fala em dinheiro, num sistema capitalista, não podemos esperar coisas muito diferentes. Quando os dentistas entraram para o esquema, percebi que eles percorreram (e ainda percorrem) o mesmo caminho. E por fim é a vez dos psicólogos, fonoaudiólogos entre outros “novos” profissionais incluídos nos planos de saúde. Mas vamos por partes.
Meu problema com os planos de saúde está no modo como as coisas ocorrem. Uma pessoa paga um valor mensal, e com isso teria direito a médicos, exames, cirurgias, que se ela fosse pagar, talvez não pudesse arcar com tais valores. Então, pagando um valor mensal, quando houver necessidade de um exame caro, ou mesmo de uma cirurgia, ela não precisaria conseguir o montante necessário em poucos dias. Por outro lado, o médico não ter que tratar de dinheiro com o paciente, poder atendê-lo tranquilamente e no final do mês ter seu “salário” garantido, é considerado um benefício.
As pessoas gostam de fazer planos de saúde pois na saude pública, quando precisam de um médico ou tratamento, são obrigadas a entrar em filas de espera que podem ser de 15 dias a 3 meses. Em uma sala de emergência, a espera para um atendimento pode durar até cinco horas. Por isso ter plano de saúde particular, nos casos de emergência, agiliza e garante o atendimento. Mas quem tem plano de saúde sabe que não é isso que acontece.
O que acontece é que muitas pessoas pagam o plano de saúde, ou seja, os planos conseguem o montante necessário para manter a rede (médicos, exames e hospitais conveniados). Mas, segundo os executivos, esse valor não é suficiente, já que os serviços médicos são muito caros. Ainda sim, pagam para os médicos valores que chegam a dar vergonha de dizer. Se um médico hoje cobra de 100 a 250 reais um consulta (com direito a retorno), muitos planos não pagam nem metade desse valor, e em geral com um, dois meses de atraso. Isso é o início de uma cadeia desagradável, pois já que recebem pouco, os médicos não podem dedicar muito tempo aos pacientes de planos de saúde. Dessa forma, marcam 4, até 5 pacientes para a mesma hora, e em suas agendas, só direcionam alguns dias e horários para pacientes conveniados. Basta ligar e dizer que é particular, e eles tem horário para o mesmo dia. Se for de plano, só mês que vem, as vezes só dali a 2 meses.
Ou seja, ficou ruim pra todo mundo: o médico ganha menos do que acha justo, não fica contente e marca pacientes pra mesma hora, atende a todos eles com rapidez – não conseguindo dar a atenção devida a cada caso; vive com a sala de espera cheia de pacientes bravos porque não são nunca atendidos no horário. Pacientes ficam bravos porque, mesmo pagando seus planos, não conseguem ser atendidos com emergência, e as vezes a espera por uma consulta fica muito parecida com a espera da saúde pública. Quando finalmente conseguem, são sempre atendidos com atraso, e saem de lá com uma lista de exames e pedidos de autorização. Com esses pedidos em mãos, mais burocracia para conseguir as tais autorizações, e quando vão marcar o exame também enfrentam uma demora, que pode perdurar por até um mês. Quando eles finalmente conseguem seus exames e vão marcar retorno com o médico, mais uma vez têm que esperar a agenda, enfrentar novos atrasos, e assim vai o ciclo.
Eu podia continuar aqui falando das exigências dos planos de saúde, da história das doenças pré-existentes, da dificuldade de reclamar, pedir direitos, e das diversas negativas que acontecem quando você precisa de um plano. Mas vou seguir em frente, sem detalhar muito. A idéia principal com essa introdução foi mostrar que o plano de saúde surgiu para prover saúde a todos, e o que temos hoje é uma bagunça exatamente igual a saúde pública. Mas o medo é maior, e mesmo com tantos problemas, continuamos a pagar planos de saúde.
Tempos depois, o mesmo aconteceu com os dentistas (não pretendo me aprofundar no assunto também, só fazer um comentário para seguir a idéia principal do texto). Muitas pessoas deixavam de cuidar de seus dentes, pois era sempre um tratamento caro (e dolorido). É possível que uma pessoa tenha que desembolsar mil, dois mil reais em um tratamento dentário, dependendo da gravidade. Então quando os planos odontológicos surgiram, todos ficamos contentes. Afinal, pagar 20, 50 reais mensalmente e ter direito aos tratamentos tão caros parecia um bom negócio. Mas nada é simples assim: antes você marcava 3, 4 idas ao dentista e conseguia fazer todo seu tratamento. Com os planos, cada ida resultava em apenas um dente feito, ou 1/4 do tratamento realizado. Ou seja, sessões de 15, 20 minutos, e muitas idas ao dentista. E aí fomos descobrindo que os tratamentos realmente caros não estavam incluídos naquele valor mensal. Então era sempre assim: você ia ao dentista e, quando chegava lá, descobria que o que você precisava mesmo fazer teria que pagar do bolso. Oras, mas isso não pode. Pois é, sabemos como as regras funcionam no Brasil.
Então agora vamos falar da inclusão da Psicoterapia nos planos de saúde. Sempre se achou uma injustiça não ter psicólogo, já que saúde mental também é importante para uma pessoa. Com isso, os psicólogos foram incluídos nos planos, mas com algumas condições: a primeira é que o paciente precisa de encaminhamento, ou seja, ele deve passar em um médico, falar de sua condição, e este médico deve decidir se encaminha ou não o paciente para o psicólogo. Depois, se o paciente consegue o encaminhamento, tem direito a 12 sessões no ano. As pessoas ficaram contentes e não pararam pra pensar no que tudo isso significa. Na sequência, outra boa notícia: de 12, passam a ser 40 sessões. É, vendo assim, parece que é bom mesmo. Mas agora, pelo que entendi, só um psiquiatra pode fazer a indicação ao psicólogo, e as 40 sessões vão depender do diagnóstico dado para cada caso. Então vamos falar um pouco de tudo isso?
Pra começar, temos o problema do pagamento: os planos repassam, em geral, o valor de 18 a 30 reais por uma consulta com o psicólogo (valor este que também não costuma ser nem metade do que se cobra em uma consulta particular). E estes valores só são recebidos em 30 dias, com atrasos que chegam até dois meses. Outro problema está no tal encaminhamento: partindo do princípio que o paciente tem que passar primeiro em um médico psiquiatra, os planos de saúde praticam a lei do ato médico, mesmo que as brigas e discussões tenham mostrado que isso é um retrocesso em termos de multidisciplinariedade e respeito profissional. Ou seja, é um médico o responsável por decidir se o paciente deve ou não se consultar com o psicólogo. Eu particularmente acho isso um grande desrespeito com a figura do psicólogo. Sem falar no ponto de vista do paciente: sabemos bem o quanto demora para uma pessoa se decidir e tomar coragem para procurar um psicólogo, com tantos estereótipos sociais que temos. Quando ela finalmente toma coragem, e descobre que primeiro terá que passar em um psiquiatra (sabemos bem outro estereótipo que temos aí), pegar encaminhamento, passar no plano e pegar a autorização, pra daí ir ao psicologo, posso dizer que de 10 pessoas, duas, no máximo, continuarão firmes em suas decisões (as pessoas ligam no consultório querendo atendimento, quando descobrem que tem que fazer tudo isso, não ligam mais, é fato).
Outro problema está em tornar a psicoterapia uma clínica igual a médica, pois parte-se do princípio que temos que diagnosticar para assim decidir quem merece 40 sessões e quem não merece. Nós, que trabalhamos na clínica, sabemos que as coisas não são tão simples assim. Há pacientes cujo “diagnóstico” é complicado e longo, inclusive pacientes difíceis de diagnosticar nesse padrão CID e DSM de ser. Fora isso, as sessões podem ter que acontecer 2 ou até 3 vezes por semana, o que rapidamente esgotaria essa carga de 40 horas, seja um paciente “grave” ou não. E aí, o que acontece depois disso? Ou o paciente interrompe o tratamento, ou ele arcará com o valor para continuar.
Dá-se a ilusão para o paciente de que 40 sessões são suficientes para a “cura”, outro aspecto muito médico, e pouco psicológico, uma vez que a “cura” tem outro sentido para a psicologia.
Assim, chegamos na parte mais importante de todas, que é a diferença entre a forma como a medicina trata o paciente, e a forma como a psicologia trata o paciente. Se falarmos em psicanálise, aí que a distância fica ainda mais gritante. Por isso a grande tendência é encontrar psicólogos comportamentais ou de terapias breves nesses planos de saúde: porque são as práticas psicoterapêuticas que mais se adequam a esse modelo médico de diagnóstico-cura que a medicina propõe.
Portanto, se eu acho uma coisa boa essa novidade? Não, eu não acho. Mas não vamos ser ingênuos. Sabemos que sempre tem coisa boa nessa bagunça toda. Porém ainda acredito que os benefícios são poucos em relação aos problemas. Falando da minha prática: eu não trabalho com planos de saúde. Se é pra receber de 18 a 30 reais de um plano de saúde, prefiro fazer um acordo com meu paciente e receber esse valor, mas diretamente dele, livre para fazermos nosso contrato. É a minha forma de tornar o tratamento acessível a todos e não me vender a esse processo que não acho justo. Não passo um mês sem pensar que poderia me conveniar e assim ter mais pacientes e indicações. E sei que muitos colegas trabalham com planos de saúde e têm boas experiências com eles. Acho que a decisão de cada um conta muito aqui e cada um trabalha da forma como acha mais certo para si.
Fiz esse post porque escuto muito que a psicologia é elitista (a psicanálise, principalmente), que os psicólogos não gostam de convênios e que cobram caro… Estou escrevendo isto para explicar um pouco mais e mostrar que nem tudo é tão simples quanto parece.
Acredito que podemos nos informar mais, ler mais, e a partir daí tirar nossas próprias conclusões. Mas não podemos ser ingênuos para achar que tudo isso é uma verdade absoluta, porque não é. Estou aqui compartilhando com vocês minhas opiniões e os caminhos que estou traçando, e espero que vocês possam também traçar o de vocês.
(E esse assunto sempre dá uma boa briga, rs.)
…
Se você não gosta de ler textos grandes, ou tem algum tipo de deficiência visual, eu fiz uma pequena discussão sobre o texto nos vídeos abaixo.
Audio Books
Como vocês já devem saber, tenho um filho com baixa visão. E não é de hoje que me envolvo em projetos e estou sempre atenta a tudo que acontece sobre deficiência visual.
Sempre tive vontade de gravar audio books, pensando nele e em outras crianças e adolescentes, porque vejo que muito do que já temos é voltado para um público adulto. Hoje tive a felicidade de encontrar dois projetos que já estão fazendo este trabalho. Em um deles, você pode se voluntariar, e gravar livros em português ou em qualquer outra língua.
O primeiro projeto é brasileiro, e você pode ver aqui: Projeto Audiolivros
O segundo não é brasileiro, mas também possui livros em português: LibriVox – Aqui está o catálogo dos livros já gravados, em português.
Se inscrevam e façam também parte desse projeto!





