Associação Livre
Arquivo para o Mês: October 2010
O aprendizado e a constituição identitária
Acabei de ter mais uma aula de francês. Como tenho muita dificuldade na pronúncia do R, estava pensando nas dificuldades de aprendizagem em relação a constituição identitária. No meu caso, analisando minha história pessoal, é possível entender o porquê desta dificuldade, que não se trata apenas de um desconhecimento do fonema, mas algo que está diretamente ligado a um trauma infantil com a pronuncia deste mesmo R. Sem entrar em grandes detalhes em relação a essa história, penso também em histórias de outras pessoas (adultos e crianças) e suas diversas dificuldades no aprendizado de línguas e/ou de conteúdos diversos (matemática, história, etc).
(Vale lembrar que no Podcast sobre Ensino de Língua Inglesa – que tem duas partes, eu a Prof. Dilma falamos um pouco sobre a questão identitária e como ela interfere no aprendizado de línguas. E hoje quero escrever um pouco mais sobre o assunto, porque acredito que a questão da identidade está ligada a qualquer aprendizado, suas possibilidades e seus limites).
Quando vejo uma criança com dificuldades na escola, em qualquer matéria, tento entender de que forma a dificuldade pode ser não só de conteúdo, mas de algo que não é “visível”, ou seja, uma dificuldade prática que é reflexo de um dificuldade psíquica, ligada à questões de construção identitária mesmo. Faço o convite a essa reflexão: que cada um de vocês pense sobre uma dificuldade especifica no aprendizado de qualquer coisa, e como isso pode estar ligado a questões internas, traumas, dificuldades emocionais, etc. Não é tão fácil perceber essas ligações quanto se imagina. Porque não necessariamente elas acontecem no nível consciente. Mas continuem ai pensando…
Para a Psicologia, falar em identidade é falar da noção de sujeito. Segundo Lacan (1966) “o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detém as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto (do desejo do homem) é de ser reconhecido pelo outro”. O sujeito, ou a identidade, são então construídos através de oposições, conflitos e negociações, permanentemente inventadas por estes sujeitos em um processo aberto, inacabado. A identidade aqui é compreendida com uma construção, fundamentada numa concepção de sujeito caracterizado pela fragmentação. Ao contrário de perspectivas que apontam o homem como um sujeito racional (movido fundamentalmente pela razão) ou como um ser produto do social (determinado pela sua origem sócio histórica), a identidade do sujeito pós-moderno pode ser caracterizada pela fragmentação: suas características, atitudes e valores são situados em contextos singulares.
Assim, não dá pra pensar uma disciplina ou uma linguagem sem pensar no sujeito que está ali aprendendo. A idéia e criar um o objetivo olhando os sujeitos envolvidos, porque todo processo de aprendizagem provém de alguém que tem suas marcas identitárias específicas que o localizam na vida social e que o posicionam nas situações de aprendizagem de um modo singular assim como seus interlocutores.
A construção da identidade, para a psicanálise, é um processo que passa pela língua, que, representando para o sujeito a dimensão simbólica, cria a possibilidade de que haja identificação. Ao falarmos de identidade e sujeito, falamos, portanto, de língua e de sujeitos, já que entramos no espaço do simbólico, de uma mediação simbólica que permite a produção-compreensão de uma língua. Essa imersão no simbólico que possibilita ao sujeito colocar-se na língua. (leia mais aqui)
Portanto, supor que as dificuldades de um sujeito em relação a um disciplina ou língua está situada somente no consciente, no lado racional e prático é ignorar toda uma série de relações que influenciam aquele sujeito e sua história.
Deixo vocês com essas reflexões, e trago alguns vídeos do Café Filosófico, com o programa tema “O que forma o sujeito hoje?. São vários vídeos, mas vale a pena refletir um pouco sobre essas questões.
Você sabe o que é baixa visão?
Além de uma limitação perceptiva, os deficientes visuais são caracterizados por uma ausência de visão, total ou parcial, que influencia diretamente no modo como apreendem as informações do mundo externo.
Na medicina, um deficiente é caracterizado pelo que pode ou não ver e o quanto isto pode ser medido. Assim, para saber se uma pessoa á deficiente visual, sua capacidade visual é medida pela acuidade visual, ou seja, como o grau de aptidão do olho para discriminar os detalhes espaciais (Rocha e Ribeiro-Goncalves, 1987).
Entre um grupo de deficientes visuais, ainda ocorrem subdivisões de tipos de deficientes, de acordo com as limitações que apresentam, e também no quanto de acuidade visual possuem. Há os cegos (ausência total de visão) e aqueles com baixa visão, ou visão subnormal (ainda possuem algum tipo de visão residual).
Segundo Torres & Corn (1990) visão subnormal, ou baixa visão é uma perda severa de visão que não pode ser corrigida por tratamento clínico ou cirúrgico nem com óculos convencionais. Também pode ser descrita como qualquer grau de enfraquecimento visual que cause incapacidade funcional e diminua o desempenho visual. No entanto, a capacidade funcional não está relacionada apenas aos fatores visuais, mas também às reações da pessoa à perda visual e aos fatores ambientais que interferem no desempenho. Muitas funções visuais podem estar comprometidas no indivíduo com visão subnormal, como: acuidade visual, campo visual, adaptação à luz e ao escuro e percepção de cores, dependendo do tipo de patologia apresentada, isto é, do tipo de estrutura ocular que apresenta lesão. Essa condição, no entanto, não deveria ser confundida com cegueira. Pessoas com visão subnormal ainda têm visão útil a qual pode ser melhorada com recursos ópticos especiais. A deficiência visual pode ser menor ou maior dependendo da patologia ou lesão ocular de cada indivíduo.
Para determinar melhor essa divisão, existe uma classificação feita por médicos e oftalmologistas, segundo a qual cegos são aqueles que apresentam acuidade visual de 0 a 20/200 (enxergam a 20 pés de distancia aquilo que uma pessoa normal enxerga a 200 pés), no melhor olho após correção com ajuda de óculos, ou que tenham no máximo um ângulo visual de 20º de amplitude. São considerados indivíduos com visão subnormal aqueles que apresentem acuidade visual de 20/200 pés a 20/70 pés no melhor olho, após correção máxima. (Amiralian, 1997)
O grupo de cegos é formado por aqueles que apresentam desde a ausência total de visão, até a perda de percepção de luz. O grupo de baixa visão é formado por pessoas que teriam desde a condição de indicar a projeção de luz, até o grau em que a redução de visão chega a limitar seu desempenho. (Amarilian, 1986) Ainda segundo esta autora, uma classificação de acordo com a idade também é importante, pois o valor da interação visual nos primeiros anos de vida, não só para formação de conceitos, como de espaço, mas também o estabelecimento das relações afetivas.
As crianças que já nascem com baixa visão têm suas formas próprias de apreender a realidade a sua volta. A grande questão que se coloca para elas é como são vistas pelos outros ao seu redor. Ora são tratadas como cegas, ora são tratadas como se tivessem uma visão normal. (Amiralian, 2004). Muitos pais parecem só conseguir assimilar a realidade de quem enxerga ou de quem é cego, não entendendo que existe outra realidade entre elas. Assim, a atitude materna pode oscilar entre tratar o filho como cego e tratar o filho como uma pessoa que enxerga. Essa situação pode gerar dificuldades emocionais e angústia tanto para os pais quanto para a criança.
Segundo Amiralian (2004), essas dificuldades passadas pelo pelos pais em entender a realidade dos filhos podem levar ao conformismo, ao desinteresse, ao desânimo, ou a uma necessidade de luta pelo filho. Sabe-se o que é enxergar ou não enxergar, mas é muito difícil compreender limitações que variam não só em relação à acuidade visual, mas, também, em relação ao campo visual, à sensibilidade aos contrastes, à adaptação à luz e ao escuro, à percepção de cores e principalmente, à eficácia no uso da visão. A ausência de identificação das crianças que possuem baixa visão constitui-se como um problema nuclear, o que já foi demonstrado por diferentes pesquisas… (Amiralian, 2004)
Por isso, na fase inicial na vida da criança com baixa visão, é de extrema importância a forma como ela se relaciona e se constitui como sujeito. Segundo Amiralian (2004), no estágio inicial de desenvolvimento, a interação com a mãe é considerada primordial, sendo as qualidades dessa interação, e os cuidados fornecidos, elementos essenciais.
Que mãe é essa que consegue ou não sustentar essa posição para seu filho? Amiralian (1997, p.59) comenta que muitos estudos psicanalíticos sobre o desenvolvimento de um bebê deficiente visual mostram as dificuldades principalmente do contato mãe – bebê, no qual estas, ao invés do orgulho natural de conceber, sentem injustiça, orgulho ferido, culpa, depressão, entre outros. Tudo isso, muitas vezes de forma inconsciente, as afasta de seus filhos e, como resultado, o bebê reage a este afastamento com passividade. Segundo Hoffmann (2000), ocorre entre os pais uma espécie de anestesia da função que deveria exercer, e por isso elas acabam restritas somente aos cuidados fisiológicos (…), enceguecidos, os pais não conseguem ver para além dos olhos que não lhes respondem da forma que desejavam. (Hoffmann, 2000).
(Vídeo 2: Como você pode adaptar a escola; como uma pessoa com baixa visão vê)
(Vídeo 3: Adaptações e Recursos)
Saiba mais:
- Laramara
Múltiplas personalidades: para ler e assistir
Sybil conta a história de Shirley e suas 17 personalidades. O livro, de 1971, foi escrito por Flora Rheta Schreiber com ajuda da própria Shirley e sua psicanalista – Cornélia Wilbur. No livro, a autora consegue descrever e contar a história com riquezas de detalhes. Descobrimos um pouco de cada personalidade, suas curiosidades, a forma como as transições aconteciam e que tipo de tratamento ela desenvolveu durante anos.
O livro nos dá a oportunidade de conhecer um pouco sobre personalidades multiplas e ao mesmo tempo de discutir a questão diagnóstica, uma vez que ainda hoje se discute se o caso dela era realmente de multiplas personalidades, histeria ou mesmo pura sugestão.
No filme, Sally Field faz o papel de Sybil, e mesmo com grandes diferenças na história adaptada para o filme, vale a pena assistir pela brilhante atuação de Sally Field.
No mesmo tema, a série de TV United States os Tara nos apresenta Tara, uma dona de casa com diversas personalidades. Com momentos de humor e de drama, vamos descobrindo junto com a protagonista os detalhes de suas transições e suas possíveis causas. Atualmente a série terá uma terceira temporada.
