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Não vamos transformar a violência em uma discussão de gêneros

Por Aline Sieiro em 10/03/2011 21:00

Inspiradas no dia internacional da mulher, blogueiras escreveram diversos textos sobre a violência sofrida por mulheres. Belos textos (Toda mulher tem uma história de horror para contar I e II) que contam um pouco pedaços de histórias e narrativas sobre violência. Toda mulher já deve ter passado por isso algum dia. Mas fiquei um pouco incomodada com a separação de gêneros nessa questão. E, apesar de concordar completamente com a discussão que se coloca no universo feminino, venho aqui falar um pouco sobre a violência masculina, para defender que violência não deveria ser combatida com a separação de gêneros.

 

“A violência é uma organização dos poderes da pessoa a fim de provar seu próprio poder, a fim de estabelecer o valor do eu (…) mas ai unir os diferentes elementos do eu, omite a racionalidade” – R. May

 

1. O ato violento na infância

Sabemos que as histórias de violência têm suas raízes ainda bem no começo da vida, nos primeiros anos de vida. Já nessa época, centenas de pessoas sofrem algum tipo de violência – desde o tapinha e gritos para educação, até algum tipo de abuso sexual por parte de pais e familiares.

Podemos dizer que as histórias de violência infantil são tão comuns que se tornaram corriqueiras a ponto de acontecer com uma certa aceitação social. Se presenciamos alguma cena que nos indique que a criança está sofrendo algum tipo de abuso, a nossa tendência é achar que estamos “vendo coisas” e que é preciso respeitar a indivudalidade de cada família e suas regras internas. Não é a toa que a grande maioria de casos de abuso sexual infantil, quando descobertos – já tardiamente, sempre vêm acompanhados de histórias em que a vítima contou e pediu ajuda mas não foi atendida. As histórias de violência sempre apresentam três personagens: a vítima, o agressor e a testemunha. Há sempre alguém que se cala.

Violências físicas e psicológicas estão presentes em grande parte das famílias, e parecem já instituidas, tão coladas as histórias familiares que as vezes parece impossivel interferir nessa realidade. Em seu livro sobre violência, Anamaria Neves nos conta um pouco sobre como a violência se apoia em algumas concepções sociais (sobre como deve ser a infância) e como certo grau de violência é socialmente e históricamente aceito. Esse tipo de violência, já tão cedo, foi e ainda é exercida com a cumplicidade de muitas instituições como igrejas, escolas e até mesmo o Estado. Ainda hoje podemos escutar histórias em que a violência familiar não pode ser impedida porque têm a cumplicidade de uma determinada religião e aceitação social.

Muitos pais agressores, quando participam de alguma intervenção psicológica, por vezes parecem vítimas de seu próprio comportamento agressivo e quando paramos para escutar essa história, percebemos que a violência infantil por vezes tem raízes na história familiar, de forma transgeracional.

 

2. Agressor já foi vítima

A violência infantil aparece nas histórias como uma estranha forma de amar. “Faço isso porque amo, para educar”. Desde pequena, a criança vai aprendendo um pouco mais sobre essa estranha maneira de amar. E quando adultos, tendem a reproduzir essa busca por amor à sua maneira. Violência e amor/desejo aparecem de uma forma tão colada, que parece ser impossível amar ou desejar sem atuar de forma violenta. Por essas e tantas outras razões, a maioria dos agressores de hoje foi a vítima de ontem.

É comum escutarmos de homens agressores, quando questionados sobre o porque da violência, que eles de fato acreditam que as mulheres “estavam pedindo, gostando”. Ficamos enojados com esse tipo de frase mas não paramos para escutar as raízes dessa crença, que em geral veio lá da história desse agressor. Afinal, frente a uma história de horror, é muito mais natural que usemos a dicotomia do bem contra o mal, porque é muito mais complicado tentarmos compreender um pouco tudo que está envolvido nesse horror. Ser agredido é terrível, mas encontrar na agressão a única forma de relacionamento com o outro também pode ser terrível. Se falhamos em olhar para esse agressor quando ele ainda era vítima, não podemos falhar duas vezes e negar seu direito de também ser olhado, cuidado, escutado – talvez pela primeira vez.

3. Violência sexual contra o homem

Sabemos o quanto as mulheres sofreram abusos e violência ao longo da história, e também sabemos que essa história aos poucos está mudando. As vítimas cada vez mais tem tido apoio suficiente para contar suas histórias e têm a oportunidade de exorcizar seus medos e seus horrores. Já algum tempo essas histórias são bem vindas, e a luta para mostrar que a culpa da violência não é da vítima deu essa oportunidade para muitas pessoas.

Mas quando falamos apenas da violência sofrida por mulheres, deixamos de lado as muitas histórias de violência contra o homem. Com histórias de horror, esses homens também têm muita dificuldade de contar e procurar justiça, já que sabemos o quanto a postura social machista impede certos comportamentos masculinos.

Quantas vezes ainda ouvimos que “homens devem sofrer calados” e que uma história de vítima “é coisa de viado”, ou ainda que o homem é forte, jamais teria como sofrer abusos de mulheres – ou de outros homens. Mas isso acontece muito mais do que imaginamos. E ao contrário das mulheres, os estudos sobre violência com vítimas masculinas é ínfimo, uma pesquisa superficial no google pode demonstrar isso. Presos em seus papéis sociais, homens também sofrem violência calados e têm muita dificuldade em procura ajuda.

4. Violência e discussão de Gêneros

Entendo e acho muito importante essa onda de proteção as vítimas femininas de violência. Mas acredito que esse contraponto é sempre necessário em qualquer discussão, já que a violência não é exclusividade de um gênero. Sabemos que homens, mulheres, transexuais e homossexuais sofrem todo tipo de violência o tempo todo. Devemos incentivar as vítimas a denunciar e contar suas histórias, sempre. E não podemos congelar a imagem do agressor como alguém do sexo masculino. Como vimos, pessoas que tem uma imagem social de delicadeza e sensibilidade (mães, por exemplo) podem facilmente se encaixar no perfil de agressores, assim como os mais terríveis agressores já podem ter sido vítimas de terríveis violências.

 

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro.Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda razão. Não é que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.” – Fernando Pessoa

Médicos e Enfermeiras que punem para “ensinar”

Por Aline Sieiro em 25/02/2011 14:25

Não é de hoje que escutamos todo tipo de história envolvendo pacientes, médicos e enfermeiros. Histórias sobre situações constrangedoras, horríveis e traumatizantes, mas que seguem sendo apenas histórias que beiram a fantasia e não a realidade. Não acreditamos muito nessas histórias porque ainda temos na nossa memória aquela imagem do profissional da saúde como alguém paternal, que está ali para cuidar e zelar do nosso bem estar. Para contrapor essa imagem quase santificada do médico e do enfermeiro, vamos pensar no complexo de Deus que ronda os hospitais e seus profissionais.

Lidar diretamente com a tensão de poder “salvar vidas” é algo que realmente mexe muito com a cabeça de uma pessoa. Imagine uma equipe de médicos e enfermeiros que vivem disso grande parte de suas vidas? Eles assistem ali na prática, pessoas que entram com uma série de problemas e que algum tempo depois saem “curadas”. Por mais pé no chão que essa equipe seja, alguma coisa “lá dentro” fica mexida, diferente, sentindo que se é possível “salvar uma vida”, então pode-se tudo.

Mas, se analisarmos de perto, o médico foi treinado para isso (que chamamos de salvar vidas). Ele foi treinado para consertar órgãos, para detectar problemas biológicos e físicos antes que eles possam desligar o sistema que chamamos de corpo. Então o médico é apenas um técnico do nosso corpo. Ele sabe e é treinado para consertar o que deu errado, de forma que possamos continuar vivos. Sei que esse olhar pode parecer um tanto quanto cruel, até porque o corpo humano não é apenas uma máquina, mas proponho esse olhar parcial com um objetivo. O médico, no final das contas, não é Deus e não faz mágicas. Ele faz aquilo que aprendeu e foi treinado para fazer. As vezes isso funciona e as vezes não funciona e pessoas morrem.

Mas viver essa vida e essa posição de “salvar vidas” se torna um papel tão importante na vida desses profissionais que eles se esquecem que essas pessoas não são apenas corpos. Elas tem subjetividade, histórias, experiências e livre arbítrio. Muitas brigas acontecem nos hospitais, entre o que o médico acha melhor para o seu paciente e o que o paciente quer pra si. E tantas vezes o paciente não é ouvido, extamente porque o médico tem até mesmo o poder de desautorizar o desejo do paciente, dependendo de qual desejo for esse.

Por isso tem se tornado comum que médicos e enfermeiros, além de apenas cuidar dos problemas dos pacientes, tentem “ensinar” lições a seus pacientes. Mas eles faltaram na aula de Psicologia, e tentam aplicar punições sem nem ao menos saber como funciona esse procedimento na Psicologia Comportamental, por exemplo. E ai começam as histórias (e aposto que se você parar pra pensar, deve ter uma também, sua ou de alguém próximo):

Chorando em um hospital, agulhada pelas dores das contrações do parto, mulheres brasileiras ainda têm de ouvir maus-tratos verbais como: “Na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe. Por que tá chorando agora?“; ou “Não chora não que no ano que vem você está aqui de novo“; ou ainda “Se gritar, eu paro agora o que estou fazendo e não te atendo mais“. (Reportagem completa aqui)

Quando o paciente tenta o suicidio, a gente maltrata mesmo. Fazemos tudo de uma forma que ele sinta muita dor e aprenda que esse tipo de coisa não se faz. Por que você sabe né, esses meninos são todos mimados, só querem chamar atenção e dar trabalho.”


Histórias como essas acontecem todos os dias pelos hospitais brasileiros. A equipe do hospital se coloca numa posição em que se permite tomar atitudes que “beneficiarão” os pacientes. Mas eles se esquecem que não foram treinados para isso. Sem entender e sem saber como agir corretamente, saem passando “corretivos”, punições, em situações que eles julgam de acordo apenas com o senso comum e com seus valores pessoais.

Para certos casos eles demoram propositalmente no atendimento – “deixa sofrer pra aprender” – ou atendem da forma mais agressiva e dolorida possível “pra lembrar bem que isso não deve ser feito porque tem conseqüências”, como se isso pudesse surtir algum efeito positivo para o paciente.

Que a equipe médica se coloca nessa posição, a gente já sabe. E também sabemos que o paciente aceita tudo isso calado, em geral por se sentir culpado. Essa situação se assemelha aos casos de abuso e agressão, em que a vítima se sujeita ao agressor, por medo e tantos outros sentimentos. Mas médicos e enfermeiros não têm esse direito, e têm o dever de tratar igualmente todas as pessoas que chegam ao seu consultório, sem julgar cada caso a partir de seus valores. E se acham isso difícil, que larguem a medicina.

Mas, numa sociedade que valoriza o complexo de Deus dos médicos, incentivando e apoiando a Lei do ato médico***, parece mesmo que cada vez mais incentivamos os médicos a atuar nessa posição de lei, punido aleatoriamente enquanto fechamos os olhos para esses maus tratos. Até o dia que isso acontecer com você ou com alguém da sua família.

Temos que prestar mais atenção ao poder que estamos dando aos profissionais da saúde. E se um corpo não é apenas uma máquina, devemos começar também a prestar atenção na formações que esses profissionais estão tendo, já que passam anos voltados apenas para o funcionamento do corpo e esquecem que não somos apenas uma massa de carne, temos subjetividade e desejos, e merecemos respeito.

Vamos continuar lutando para a inserção de profissionais da Psicologia nos hospital e na equipe médica, não apenas para atender os pacientes, mas também para dar apoio e suporte aos profissionais da saúde.

** Com essa quantidade de séries sobre médicos e hospitais, podemos ver situações como essas sendo reproduzidas com facilidade. Nesse episódio da série Private Practice, uma médica que atende uma paciente cega, acredita que ela não é capaz de cuidar de sua filha, por causa da cegueira, e faz de tudo para que ela perca a guarda da criança.

Blind Love – Private Practice

*** Não ao projeto do ato médico: http://www.naoaoatomedico.org.br/index/index.cfm

Todas as crianças são adotadas

Por Aline Sieiro em 17/02/2011 13:21

Ao contrário do que a nossa sociedade vende, o amor de mãe não é natural. O amor de mãe não é um ato mágico que acontece durante a gravidez e/ou no parto do bebê. Esse amor, como qualquer outro, é cultivado e construído. É bom que possamos conversar um pouco sobre isso porque esse mito do amor materno pode dificultar muito a vida de centenas de mãe que não vivem essa história de conto de fadas. Muitas sofrem em silêncio por se sentirem excluídas dessa fantasia, pois não sentem que a “mágica” aconteceu com elas.

São tantas coisas que podem dar errado nesse começo do relacionamento entre uma mãe e seu bebê que incentivar essa culpa não ajuda em nada, só atrapalha esse momento inicial da maternagem. Vamos falar um pouco sobre esses mitos socialmente construídos.

Mito 1

A mãe tem nove meses para aprender a amar o seu filho. Assim, quando ele nasce, o amor já aconteceu. O pai tem que começar do zero.

Discussão

Durante os nove meses de gravidez a mãe não aprende a amar o seu filho, até porque ela ainda não o conhece. Tudo o que ela faz e aprende a fazer é construir uma imagem e uma fantasia do que será aquele bebê quando nascer. Quando consegue fazer isso (e nesse ponto o pai também já pode participar do mesmo processo), a mãe vai imaginando, se deixando fantasiar sobre como será essa criança. Então o que a mãe passa a amar, durante a gravidez, é uma imagem fantasiosa de um bebê que vai nascer e não o que de fato o bebê será. Isso é bom? Claro que é bom, porque a criança que nasce precisa disso que chamamos de subjetivação, ela precisa dessa atenção voltada pra ela, ainda que seja imaginarizada e fantasiada.

Dificuldades

Nem todas as mães conseguem viver a gravidez dessa forma. Algumas passam por grandes dificuldades na criação das fantasias sobre o bebê que elas nunca viram concretamente. Podemos perceber, por exemplo, algumas mães que têm facilidade em falar com a barriga, enquanto outras acham isso um pouco desconfortável, estranho. Outras mães sentem a gravidez como um processo invasivo, como se seu corpo não respondesse mais as suas ordens. Sentem muitas dores, muitos desconfortos que acabam não deixando espaço para que elas sintam algum prazer.

Conclusão

Se a mãe tem nove meses para aprender a amar o filho, o pai também têm. Mas esse filho que eles estão aprendendo a amar ainda é só uma construção, uma fantasia em relação ao bebê que ainda vai nascer. Isso não é ruim, mas não resolve a questão do amor materno como um movimento natural.

Mito 2

Assim que o bebê nasce, após o parto, o amor entre eles é automático. Basta a primeira troca de olhares e a mãe já ama seu bebê e o bebe já sabe que poderá contar com aquele amor pra sempre.

Discussão e Dificuldades

Se no mito anterior percebemos que o amor (quando é) construido durante a gravidez é para um bebê imaginário, será que esse amor se transfere para o bebê real automáticamente após o parto? Pode ser que sim, mas nem sempre. Muitas mães que tiveram o parto em boas condições conseguem olhar para o bebê que nasceu e enxergar tudo aquilo que elas sonharam durante a gestação. Ao longo dos primeiros meses, essas mães enfretarão as dificuldades do dia a dia, mas conseguirão olhar para seu bebê e energar tudo aquilo que sonharam para ele.

Mas para muitas não acontece dessa forma. Com as dores e os medos do parto, com as dificuldades iniciais nos cuidados em relação ao bebê, a maioria das mães não consegue transferir a imagem que tinham do seu bebê, durante a gravidez, para o bebê que nasceu. Envergonhadas e tristes, não encontram espaço para conversar sobre isso e podem se tornar até um pouco mecanicistas em seu contato com a criança, pois sabem quais são suas obrigações mas não conseguem sentir “o que deveriam sentir”. Aqui podem acontecer as depressões pós-parto (que são mais comuns do que imaginamos), as mortes de bebês e até mesmo a instalação de uma série de problemas e doenças no bebê (como o austismo).

Conclusão

O amor materno imediatamente após o parto não é automático. Ele pode acontecer de forma mais rápida e fácil para algumas mulheres, mas para muitas é um processo de construção assim como qualquer outro relacionamento. É a partir dali que a mãe vai começar a conhecer o seu bebê e pode ter ou não facilidade para subjetivar aquele ser que ela acabou de colocar no mundo. Crianças que nascem com deficiência, por exemplo, costumam trazer muitas dificuldades iniciais para essa construção do amor materno, já que os pais se vêem numa situação em que a criança não é aquilo que eles imaginaram e sonharam que seria. (Mas conversaremos sobre essa particularidade em outro texto).

Existem muitos mitos em relação a gravidez e a maternidade. Mas com esses dois podemos iniciar um dialógo sobre esse processo. Por que não existe um grávida correta. Cada mulher vive sua gravidez de forma peculiar e esse mito da gravidez perfeita só atrapalha as mães que vivem sua gravidez de outras maneiras. O mesm acontece com o amor materno. Ele pode ser construído de diversas maneiras, e seja qual fora, a única certeza que temos é que ele não é natural. Assim, podemos dizer que todas as crianças são adotadas, pois todas elas passarão pelo processo de construção e criação do seu lugar na família indepentente de terem sido concebidas biologicamente por eles ou por outros. O parto não garante amor e facilidades, isso é uma ilusão que construímos. (Falaremos disso em outro texto também.)

Falar desse assunto é delicado porque essa fantasia que se criou sobre o amor materno é tão forte que parece impossível ser desconstruída. Se fosse possível falar sobre o tema com mais franqueza e seriedade, muitas mães poderiam ter uma ajuda mais precisa e não sofreriam de uma série de problemas como a depressão pós parto. E as crianças, por sua vez, poderiam desenvolver menos doenças como o autismo e outras com falhas na inserção da linguagem. Mas o medo de admitir que essa construção na maternidade passa por dificuldades acaba por incentivar o silêncio e a falta de incentivo para mudanças e investimentos nessa área.

São pequenas coisas que podemos fazer e mudar, como acompanhamento psicológico obrigatório para a mãe durante o pré-natal (junto com a ida ao obstetra, por exemplo) e durante as primeiras idas ao pediatra. Durante esse momentos, a preocupação da saúde pública ainda parece estar apenas no corpo, no desenvolvimento biológico satisfatório. Sabemos o quanto é importante também a saúde psíquica, e um movimento de inserção da psicologia nesses setores e nesses momentos cruciais da relação mãe-bebe poderia fazer uma grande diferença na hora de atuar nos grandes problemas que assistimos acontecer. Mães que conseguem esse tipo de acompanhamento, por exemplo, relatam como conseguiram passar por dificuldades de forma menos dolorosa e solitária.

Para saber mais

- Um amor conquistado: o mito do amor materno, ElisabethBadinter

- A construção do amor materno na relação mãe-bebê: reflexões a partir da psicanálise, Cléa M. B. Lopes

- O complexo da mãe morta: sobre os transtorno do amor na relação mãe-bebê, Issa Damous

- A criança, sua doença e a mãe: um estudo sobre a função materna na constituição de sujeitos precocemente atingidos por doença ou deficiência, Leyla A. V. Falsetti

- Amar, cuidar, subjetivar – implicações educacionais na primeira infância, Valéria R. Baptista

Ronaldo e o hipotireoidismo

Por Aline Sieiro em 15/02/2011 12:48

Na manhã de ontem todo mundo viu ou escutou o anúncio da aposentadoria do Ronaldo. Escutaram também sobre o hipotireoidismo e as conseqüências dessa doença na vida do atleta. Mas algo parecia errado. Em menos de trinta minutos, médicos de todo Brasil colocavam na internet que a doença de Ronaldo não era totalmente responsável por aquilo que ele disse na entrevista. A partir dai as pessoas começaram a fazer reportagens sobre a doença e suas “verdadeiras” conseqüências, enquanto outros aproveitaram para tirar sarro do jogador pela “desculpinha esfarradapa” que ele deu.

Mas quando se trata de psiquê nem tudo é tão simples assim. Cada um acredita e atribui um sentido ao diagnóstico que recebe. E é por isso que a psicanálise é contra esses diagnósticos. Quando um médico fala as palavras mágicas: “você foi diagnosticado com X doença”, a partir dai a pessoa entende o que a sua mente quer. E ela vai criar uma fantasia, uma ficção dessa doença que não necessariamente vai caminhar junto com o que de fato a doença desenvolve como problemas.

Fora isso, o doente tende a escutar aquilo que lhe é conveniente (inconscientemente também), e sua carga de sofrimento em relação a doença será particular. Por isso nem todas as pessoas reagem do mesmo jeito a uma doença. Porque cada um escuta o diagnóstico de um jeito diferente e cada um vive esse diagnóstico de outro jeito completamente diferente também.

Atribuir sentido é algo que fazemos o tempo inteiro com as experiências que passamos e quando somos diagnosticados, começamos a atribuir sentido a doença também. Então, por algum motivo, pode ser que o Ronaldo realmente acredite que todos os problemas que ele teve foram pelo hipotireoidismo. Quem sabe que sentido ele deu para esse diagnóstico na sua vida? Assim como muitos, ele pode ter se deixado definir não por uma doença, mas por um diagnóstico dado em determinado momento de sua vida.

Com a explosão de novos diagnósticos de problemas mentais, cada vez mais as pessoas são diagnosticadas com problemas que as vezes nem existiam. Mas como foram “nomeadas” daquela forma, “vestem a roupa” da doença de uma forma tão profunda que passam a definir a vida e a si mesmos a partir daquele diagnóstico. Tudo passa a ser em função daquilo. Veja a Clara Averbuck com o seu “sou bipolar e minha filha também é”, ou mesma a Tulla Luana como seu “eu sou esquizofrênica”, e tantas outras pessoas que saem pela internet se definindo por seus diagnósticos. Criam uma vida, uma história baseada em um nome, um diagnóstico que possa explicar porque elas se sentem tão diferente de todo mundo e da sociedade em que vivem.

Para essas pessoas como Ronaldo talvez seja “mais fácil” (nada é fácil, mas não vamos nos aprofundar nisso agora) se identificar a partir de um sintoma porque é com ele que será possível justificar todas as estranhezas que sentem em relação ao mundo e que o mundo sente por ele. “Ah, eu sou bipolar, e é por isso que você me acha meio estranha. É por isso também que eu sempre fui meio esquisita”. E essa posição é “confortável” no sentido da mudança. O diagnóstico justifica uma situação e te permite não se preocupar em entendê-lo para mudar. Você se torna uma pessoa estática, presa ao nome que te deram.

Não se escondam atrás de um diagnóstico. Você não é só uma doença. E não desacreditem ou dêem risada de quem se apresenta a partir de uma doença: provavelmente a identidade da pessoa está tão atrelada a esse diagnóstico, que ela não consiga perceber. Por que uma pessoa pode ter uma doença qualquer, mas não necessariamente ela precisa se tornar apenas aquela doença.

Você tem o direito de ser triste

Por Aline Sieiro em 14/02/2011 14:29

Se você está numa roda de amigos e começa a falar de algum problema seu, em cerca de cinco minutos cada um deles começará a falar de seus problemas pessoais tentando mostrar como o problemas deles é maior. Para eles você está reclamando por pouco e precisa parar de sofrer. É a competitividade por tragédias, podem reparar. O mesmo acontece com doenças: se um pessoa reclama que a gripe está forte demais, logo chegará alguém para dizer que aquilo não é sofrimento, “sofre mesmo quem tem câncer”. Pensando nessa competição no dia-a-dia, as pessoas têm se esforçado para mostrar que a modernidade trouxe facilidades e que nossos sofrimentos de hoje são (ou deveriam ser) muito menores do que os antigos.

Acontece que sofrimento não tem medida comparativa em tabela objetiva. A dor pessoal não pode ser mensurada como se gostaria e devíamos começar a pensar na tal da tolerância e empatia. Por que tendemos a diminuir a dor alheia? Por que achamos que racionalizar a dor do outro mostrando que há coisas piores no mundo ajudará a pessoa a não sentir a dor que ela sente?

Uma pessoa pode sofrer com um simples caquinho de vidro no pé com a mesma sensação de uma mãe que acabou de perder seu filho para o câncer. Será que devemos ficar medindo quem “merece” sofrer mais, quem está mais certo e tem mais direito de sentir suas dores?

Cada pessoa tem seu modo de lidar com a dor e o sofrimento assim como cada uma consegue ou não lidar com elas de uma forma mais silênciosa ou escandalosa. Por que nos permitimos exercer essa posição de julgadores do outro se só temos a nossa experiência como base da análise de dados?

Se alguém está sofrendo horrores porque não sabe o seu lugar no mundo e não sabe ainda o que vai querer de si e da vida, por que não podemos aceitar que aquele sofrimento deve realmente ser insuportável para aquela pessoa e que pode ser possível que ela sofra por anos a fio de depressão e melancolia? Não é só porque crianças passam fome na África que o sentimento dela é diminuido ou menos dolorido.

Vamos deixar que as pessoas sintam suas dores e sofrimentos do jeito que elas estão sentindo, mesmo que para nossa realidade possa parecer exagerado e absurdo. Vamos permitir que as pessoas sejam tristes quando elas quiserem e parar de entrar nessa exigência social de felicidade 100% do tempo.

Tudo NÃO está maravilhoso e muitos estão tristes com essa exigência de felicidade que a modernidade impõe. Antes eu demorava 5 meses e agora demoro uma hora para chegar em algum lugar graças a tecnologia? Ok, isso é muito legal. Mas não me obriga a ser feliz o tempo todo. Novos problemas aparecem quando novas tecnologias são inventadas e isso é mais do que natural. É parte da evolução.

Nossa sociedade nos oferece mil formas de ter prazer (e com isso ser feliz) e nos coloca essa idéia de que não podemos sofrer com nada. “Ah, você vai sofrer porque não sabe o que quer do futuro? Mas tem tanta coisa pra ser feliz, por que você vai sofrer com isso?” Não somos obrigados a ser felizes só porque a sociedade nos oferece mil formas de obter prazer. Da mesma forma, não temos que medir nossa dor em comparação com a dor dos outros, porque cada uma dessas dores são reais e doloridas para cada uma dessas pessoas.

Você não precisa entender o sofrimento do outro. Só precisa deixar que ele sofra o quanto for necessário naquele momento. Empatia e tolerância.

Recomendações de Leitura – Janeiro

Por Aline Sieiro em 10/01/2011 19:39

Muitas pessoas perguntam qual é a diferença entre Psicólogo, Psicoterapeuta, Psiquiatra e Psicanalista. Já comentei sobre isso aqui no meu blog, em outros textos. E também é possível encontrar por ai alguns textos e vídeos que explicam a diferença básica entre essas profissões. Pensando nesse tema, compartilho hoje com vocês um texto do Lucas Napoli sobre “O que um psicanalista faz?”. Nessa segunda parte do texto ele tenta explicar um pouco do que é o trabalho de uma análise.

O que um psicanalista faz? – Lucas Napoli

Outro dia comentei que quando os bebês nascem, o amor entre ele e sua mãe não acontece de forma automática. Ao contrário do que pensam, o amor materno e até mesmo a função materna não nascem no parto do bebê. Fiquei surpresa de perceber que a maior parte das pessoas nunca parou pra pensar nisso. É como se o momento do parto fosse mágico, cheio de fantasias e histórias de contos de fada. E no meio desse mito muitos pais sofrem por não sentir essa mágica acontecer em relação aos seus filhos: acontecem depressões, suicídios, homicídios e tudo que poderia ser de alguma forma amenizado se fosse trabalhado junto com os nove meses de pré-natal.

Pensando nisso, indico o texto do Vladimir Melo – “O ódio que a mãe sente do bebê” pra começarmos a pensar um pouco mais sobre esse tema tão polêmico.

O ódio que a mãe sente pelo bebê – Vladimir Melo

Agora vamos falar um pouco de Sexualidade. Uma notícia da semana passada me chamou atenção e convoco vocês à reflexão:

Personagens gays do cinema e da Tv são entregues a atores heterossexuais. Por que?

E se você já usou a frase: “Eu não tenho nada contra homossexuais, mas eles não precisam fazer essas coisas em público”, ou alguma parecida, esse texto é pra você:

“A defesa do indefensável: o caso do AI-5 gay ” – Paulo Cândido

Indicação de Leitura – Livro “Como se constitui o sujeito”, do Luciano Elia.

Boas Leituras!

Podcast Episódio 06: Formação de professores

Por Aline Sieiro em 30/11/2010 14:49

Depois tem um tempo sem gravar, estamos de volta com o tema “Formação de Professores”. Eu e a Prof. Dilma Mello conversamos sobre o tema passando pela graduação, pós-graduação e  também pelos Institutos e cursos de formação continuada e de extensão. (Falamos brevemente também sobre a formação do psicólogo).

*Pedimos desculpas por alguns problemas no som, durante a gravação, pois gravamos em um local que não facilitou a edição posterior.

Ofício do Psicanalista: formação vs regulamentação

Por Aline Sieiro em 29/11/2010 23:31

Um dos textos mais acessados aqui no meu blog fala da formação do psicanalista. Um assunto que sempre desperta muito interesse e muitas dúvidas.

Hoje mesmo eu estava lendo esse texto do Psicologia dos Psicólogos, “Pastores evangélicos e… psicanalistas?” e voltei a pensar no assunto.

O livro da Sonia Alberti vem para contribuir nessa discussão.

“Este livro é, antes de mais nada, um testemunho do trabalho que os psicanalistas reunidos na Articulação das Entidades Psicanáliticas tiveram, nos últimos oito anos, para fazer frente a ataques de instituições que deturpam completamente os conceitos da psicanálise em cursos e programas de treinamentos e que os divulgam sem o menor rigor. mas expõe, tambpem, a público, a possibilidade do encontro de psicanalistas brasileiros de diferentes instituições que se sentaram juntos em uma mesma mesa de debates para enfrentar esse ataque e conversar entre si sobre as dificuldades e esperanças do crescimento desse discurso que se sustenta, sobremaneira, na ética do psicanalista. Este livro convoca ao debate! Sonia Alberti.”

Ensinando Homofobia

Por Aline Sieiro em 28/11/2010 22:29

Reproduzo aqui para vocês um texto muito bom sobre homofobia. (blog e texto na íntegra aqui – Obrigada pela autorização Lilah!)

Um menino americano de cinco anos, chamado Boo pediu a mãe para se fantasiar de Daphne, a personagem de Scooby Doo, no Halloween. A mãe não viu nenhum problema no pedido, além do fato de que ele poderia mudar de ideia, como qualquer criança de cinco anos. Então ela esperou alguns dias para comprar a fantasia, até ter certeza que era isso mesmo que ele queria. No dia da festa ela levou seu menino para a escola, mas do alto do sua vida de apenas cinco anos, Boo expressou medo de ser ridicularizado. Veja bem, ele não tinha dúvidas que ele queria usar a fantasia, ele só temia que outros não gostassem da escolha que tinha feito ele tão feliz alguns dias antes. Sua mãe o assegurou que o Halloween é um tempo de fantasias e que ninguém veria problema na sua vestimenta tão linda. Ela estava errada e Boo estava certo.

Várias mães expressaram desgosto pela escolha da fantasia de Boo. Pelo apoio que sua mãe deu, para que ele se vestisse do jeito que queria. Alegaram que não era direito ou que não ficava bem. E que Boo seria vítima de chacota de outras crianças. Mas veja bem, naquele momento Boo brincava com outras crianças de quatro e cinco anos que não tinham visto problema nenhum. Ah sim, elas vão aprender a ver problema nisso. Com suas mães e pais. As mesmas que estavam naquele momento criticando a mãe de Boo, por simplesmente ter permitido que uma criança escolhesse uma fantasia de Halloween.

O post que essa mãe escreveu tem mais de 44mil comentários. Muitos de apoio e vários de crítica. Como ela mesmo diz, talvez Boo seja gay. Talvez não seja. Isso não faz diferença para ela, que se preocupa em criar uma criança feliz que será um adulto bem resolvido e equilibrado. Ela não está preocupada em dizer a Boo que sua vontade de se vestir de Daphne, num feriado cujo ponto alto são fantasias, é errada, principalmente por que aos cinco anos Boo ainda está formando sua identidade de gênero e sua sexualidade. O que ela quis dizer, e disse, ao comprar aquela roupa é que seja que caminho ele seguir, ela vai estar lá.

O outing do Lucas foi logo depois do seu aniversário de 17 anos. E guardadas as devidas proporções eu ouvi coisas bem semelhantes de parentes, amigos e até de professores. Que eu estava “incentivando” ele a ser gay por ter aberto minha casa para amigos e namorados. Que eu devia ser mais rígida e menos “moderninha”. Que sendo tão novo era possível ainda “consertar o problema”. Claro que junto disso vinham também as recriminações sobre eu ter sido muito mole na educação dele. Ou de não ter tomado cuidado com as companhias. Que isso podia ser uma fase e que eu devia incentivá-lo a namorar uma menina, por que ele não podia saber se era gay sem ter namorado meninas antes. Como se algum hétero precisasse namorar meninos, para descobrir que gosta mesmo de meninas.

São essas atitudes que expõe claramente o quanto nossa sociedade é homofóbica. Ok, então seu filho é gay. Você já errou em algum lugar e fez ele virar gay, não precisa agora incentivar isso, né? Tenha um pouco de respeito por nós, cidadãos de bons costumes, e ensine seu filho que lugar de gay é onde eu não precise olhar para ele. Preconceito não é inato. Pessoas não nascem preconceituosas. Minha neta não tem nenhum problema com a sexualidade do tio, ela ri pra ele com o mesmo entusiasmo que ri para qualquer um que dê atenção a ela. O bebê de 2 anos filho do vizinho também. Infelizmente esse bebê de 2 anos vai aprender com o pai, um homofóbico de carteirinha, a não sorrir mais para o Lucas.

Muita gente que me aplaudiu quando eu “aceitei” o filho adolescente gay, me crucificou anos depois quando o Mario foi morar conosco. Muita gente que diz admirar minha relação com o Lucas, leva essa admiração apenas até a página dois. Tudo bem você aceitar o seu filho gay, mas não acha que é demais deixar seu filho caçula sair com ele e o namorado? Ou permitir que eles se beijem na frente dele? Isso não é legal para uma criança assistir. Você pode respeitar, mas não devia ficar incentivando esse comportamento ou trazendo os amigos para dentro de casa. Ou ficar conversando sobre o assunto com ele. Ou comprando camisinhas. Ele devia respeitar a família. Ou em outras palavras, você devia fingir que esse assunto não existe e deixar ele lá. Lá é o lugar que essa sociedade diz que gays deviam ficar.

O menino dessa história tem sorte de ter uma mãe que entende que, vestir-se de Daphne não vai determinar sua sexualidade no futuro. Que está disposta a deixá-lo experimentar e buscar a construção de sua própria identidade, sem limitações machistas e homofóbicas. Assim como não é a sexualidade do Lucas que vai influenciar, moldar ou contaminar a sexualidade do Saulo ou da bebê que eu estou esperando. Talvez, apenas desse a eles mais segurança para falar, por crescerem em um ambiente onde a homossexualidade é só um aspecto da personalidade.

Eu não poderia consertar o Lucas. Por que não tinha nada quebrado com ele. A mãe do Boo não está incentivando seu filho a ser gay ou travesti, ela está apenas respeitando uma escolha de fantasia do Halloween! Que aliás, provavelmente seja só isso: uma fantasia de Halloween. A maldade está na cabeça de quem transformou uma festa e uma brincadeira de criança, numa declaração de homofobia. E de quem ensina seus filhos que o diferente é para ser hostilizado ou ridicularizado. De quem perpetua uma sociedade machista, homofóbica e misógina onde um garotinho fantasiado de Daphne vira gay por ousar brincar.

Abuso ou Preconceito?

Por Aline Sieiro em 11/11/2010 14:23

Falar de educação e sexualidade tem sido minha prioridade no ano de 2010. Fiz uma série de palestras e aulas sobre o tema, tanto em escolas públicas como em cursos de pós-graduação e formação de professores. Nesses momentos, tento tratar a questão pelo olhar da sexualidade e não do sexo, pois é comum tomarmos um pelo outro, ou pensar tudo como uma coisa só. Outra tentativa é de discutir questões importantes como homossexualidade, sexualidade nas deficiências e abuso sexual, tentando propor um novo olhar que passa pelo afeto e não pelo tradicional preconceito que encontramos tão enraizados nas pessoas.

Com essas experiências aprendi muitas coisas ao longo desse ano. Aprendi o quanto é difícil mudar um conceito e seus reflexos sociais. Aprendi também que quando se fala de sexualidade nada é simples e claro. A subjetividade é tanta que fica difícil estabelecer o que é certo e errado quando tratamos de desejo e do gozo (psicanalítico). Tudo depende do contexto (história, pessoas envolvidas, momento, etc), e por isso que hoje vou tentar falar um pouco do caso “do dia”.

“Jovem de 18 anos é preso por beijar garoto de 13 em cinema de shopping”

Notícia completa aqui.

Quando discuto abuso sexual infantil e adolescente, faço uma linha do tempo que começa no conceito de família e infância. Acredito que pensar as evoluções culturais e sociais são extremamente importante para pensar o presente e tudo que têm acontecido e se tornado corriqueiro socialmente. Em resumo, podemos pensar que o conceito de infância foi criado (já que antes elas eram vistas apenas como pequenos adultos), e depois dele veio o conceito de adolescência. Porém, com as evoluções sociais, a infância anda sendo achatada e precocemente transformada em adolescência. Crianças de 7 anos, por exemplo, que ainda estão longe da puberdade já mostram comportamentos adolescentes. E nossa sociedade como um todo tem apoiado essa “evolução” com uma naturalidade que assusta.

Vamos pensar juntos: se crianças com 7, 8 anos já se comportam como adolescentes e têm uma relação antecipada com as questões de sexo e sexualidade, não seria natural que com 13 anos elas se sentissem experientes e espertas o suficiente pra saber o que desejam e o que deixam de desejar? Nossa sociedade nos evidencia isso de diversas maneiras, como por exemplo o número de adolescentes grávidas com idades cada vez menores, aumentando diariamente os gráficos na área da saúde. Programas de tv como Malhação mostram que as crianças já se preocupam em namorar ou gostar de alguém. Nesse mesmo programa, jovens ainda menores se casam e descasam, engravidam e abortam e por ai vai…

Vamos adicionar mais uma pimenta nesse olhar: nós sabemos que nossa sociedade é ainda muito preconceituosa. Quando trabalho com os professores percebo como eles (que refletem nossa sociedade) aceitam namoro na escola (de meninas entre 13/14 anos com meninos mais velhos, 17/18 anos), mas quando alguma proximidade acontece entre dois meninos, as atitudes variam de nojo, incompreensão e até mesmo ao ato de chamar os pais dos meninos para dizer que algo de errado está acontecendo. Como podemos ver nesses vídeos patrocinados pelo Ministério da Cultura, Homofobia na escola I e Homofobia na escola II, certos comportamentos são socialmente aceitos para casais heterossexuais e são proibidos para casais homossexuais. Assim, se esse menino da reportagem fosse uma menina de 13 anos, será que tudo isso teria acontecido? Será que eles teriam sido tão notados pela bilheteira, pela pipoqueira e pelos outros adultos no cinema?

Pra finalizar essa linha de argumentação ficam as perguntas: Será que se fosse um casal de heterossexuais isso teria tomado essa proporção? Se a nossa sociedade instiga o comportamento sexualizado precocemente e o naturaliza diaramente, o menino de 13 anos não sabia muito bem do que estava fazendo e assim consentindo todo o namoro? Então, qual o crime?

Agora vamos pensar em outro olhar. Esse olhar é visto para muitos como tradicionalista, conservador e antiquado. Talvez seja. Vou deixar pra vocês essa resposta. Seguindo aquela linha de estudos sobre a importância dos conceitos e da evolução da família e da sociedade, será que não estamos “naturalizando” e instigando a sexualidade infantil muito precocemente? De pequenos adultos à crianças, podemos pensar que o conceito de infância foi uma conquista: dar espaço e tempo para que a criança se constitua e descubra o mundo sem as dificuldades do mundo adulto, entre outras coisas, foi uma conquista social. Mas com o achatamento dessa infância e com o esticamento da adolescência, o que tem acontecido é uma permissividade sexual precoce. Pensamos que hoje a sociedade é rápida, flexível e que as crianças estão preparadas para tanta informação, tão cedo. Mas será mesmo? Porque se isso fosse verdade, não teríamos indices altíssimos de crianças deprimidas (que inclusive cometem suicídio), estressadas, ansiosas, enfim, crianças com problemas psicológicos diversos (que afetam aprendizado, sociabilidade, etc). Sem falar do grande número de casos de abuso sexual infantil/adolescente.

Pensamos que elas são preparadas o suficiente e sexualizamos as relações, a infância, de forma que quando elas são vítimas de abusos, tendemos o culpá-las. E essa linha tênue fica mais tênua ainda quando a idade está entre os 13 – 16 anos.

“Ah, mas aquela menina estava pedindo, olha como ela andava vestida…”

“Essa ai tem 16 anos mas se comporta como uma de 18, é rodada, sabe tudo. Então não é crime.”

Mas será que o crime não está em permitir uma sexualidade precoce e um desenvolvimento tão rápido que jovens dessa idade se comportem como adultos? Porque eles exibem essa sexualidade “super desenvolvida” mas é frequente escutar dessas mesmas pessoas, quando mais velhas (30, 40 anos) que não sabiam o que estava fazendo, mas achavam que sabiam. Será que o crime não é mesmo do adulto por – 1: permitir uma sexualização precoce; – 2: se relacionar sexualmente com esses jovens usando o mesmo argumento de que eles provocam pois sabem o que fazem?

“Oras, isso sempre aconteceu, porque seria diferente agora?”

Então quando algo se torna cotidiano ele também se torna correto? Em algumas sociedades e famílias, adolescente devem se preocupar com estudo, com a construção identitária e com a descoberta daquilo que lhes move. Namorar faz parte, mas essa sexualidade exacerbada fica para a maioridade. E essa maioridade é alcançada subjetiva e historicamente, não deveria ser forçada e instigada socialmente.

Para adicionar mais um pimenta a essa linha de argumentação, vamos pensar no papel da escola e da sociedade. Criança e adolescente interessado na educação demoram mais tempo pra se sexualizar. Porque se eles conseguem obter prazer pelo conhecimento (que é o grande objetivo da existência de uma infância e uma adolescência) mais tempo vão dar para que o corpo e a mente evoluam em seu tempo. Quando temos uma escola desgastada, um ensino que não sabe provocar desejo e um sistema de educação que preza pela quantidade e não pela qualidade, é preciso encontrar prazer de viver em algum lugar, o mais rápido possível. E já sabemos em que lugar elas vão encontrar.

Assim, deixo mais perguntas: Nossa sociedade sexualiza as crianças cedo demais com o argumento social de que o mundo mudou e tudo está mais rápido? Temos o hábito de tirar a responsabilidade do adulto e arrumar uma maneira de sempre culpar a criança e o adolescente? Não estamos voltando a tratá-los como pequenos adultos?

Como podemos perceber, nunca é fácil determinar qual argumento é o correto. Porque, mais uma vez, cada caso é um caso. Não dá pra dizer que uma coisa é errada e outra é certa, porque ambos tem aspectos importantes a serem considerados. Ao mesmo tempo não podemos dizer que uma atitude foi determinante para um comportamento, e vice versa, porque se considerarmos toda a subjetividade desses temas, fica impossível estabelecer linhas objetivas de causa-conseqüência. Mas uma coisa fica: precisamos repensar a importância dada a sexualidade precoce na nossa sociedade e insistir na discussão sobre as questões de preconceitos de gêneros. São os temas polêmicos que evidenciam o que de pior e o que de melhor existe nas pessoas a na sociedade.