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Violência e Infância: Precisamos falar sobre todos os Kevins

Por Aline Sieiro em 19/07/2013 16:01

Em abril o GECLIPS (grupo de Psicanálise que faço parte) realizou a Segunda Reunião Aberta do GECLIPS. Eu dividi a mesa de debates com o Promotor de Justiça de Uberlândia, Dr. Epaminondas da Costa. Deixo com vocês o áudio da nossa conversa. 

www.facebook.com/geclipspsicanalise

 

De onde fala meu silêncio

Por Aline Sieiro em 13/06/2013 11:15

Parto do pressuposto que o silêncio diz. A ausência de palavras deixa espaço para o ato de dizer, para além de enunciados. Tão logo os afetos e sentimentos ganham palavras para descrevê-los, algo já se perdeu. Assim como numa tradução entre línguas em que algo sempre se perde, dos afetos e sentimentos para as palavras, algo já se perde também. E estou aqui apenas problematizando sobre o meu lado da história, já que pensar no segundo momento que é o de quem lê, que já lê uma terceira coisa, outra, bem diferentes, nem se fala…

Silencio as palavras para escutar a mim mesma e aos outros. E nesse silêncio eu respondo, Um a Um. Ainda não aprendi como sair dele e usar as palavras sem que elas falem para uma massa e por isso me atenho no meu silêncio. Ele diz que estou invocada e mergulhada no Um a Um. Estou apaixonada por esse sujeito do inconsciente, do desejo, que só se apresenta no seu particular e de maneira bem evanescente. Não consigo mais deixar que as palavras saiam afobadamente num discurso cheio de conhecimento e de saber, mas de pouca verdade. Uma psicanalista disse em um evento, semana passada, que não entende porque tantos psicanalistas são convocados e vão responder sobre questões diversas do mundo. Um psicólogo, um sociólogo ou qualquer outro profissional que estuda o humano poderia muito bem responder essas questões, com propriedade. Um psicanalista não deveria ter que dizer nem formular nenhum saber sobre nada disso, já que ele se sustenta no não saber. Os sujeitos que o convocam é que tem muito a dizer e a partir daí oferecemos a escuta disso, que vem daquele que demanda algo, não o inverso. A frase foi: A psicanálise está em todos os lugares e o psicanalista em outro. Vendo a psicanálise em tantos lugares, estou em outro. Essa tem sido a minha aposta nos últimos anos, mas tenho certeza que existem outras. Por isso aqui falo apenas de mim e de um momento específico, porque também tenho certeza que virão outros. Por hora é esse. $ <> a

 

 *A frase foi enunciada por Nina Leite em um evento que logo será divulgado em vídeo.

*Estou no Um a Um por ai, sempre darei notícias disso. O silêncio é também trabalho.

O fracasso da inclusão

Por Aline Sieiro em 26/09/2012 01:48

Vivemos a época de uma infância marcada por problemas de aprendizagens e de uma sociedade marcada pelo desejo de inclusão. Bom, quanto a isso, posso apenas afirmar que o processo de inclusão, assim como o da educação, está fadado ao fracasso. Porque há sujeito.

Enquanto todos correm para fazer cursos de psicopedagogia ou quaisquer outros cursos que busquem adaptações para os indivíduos, esses mesmo indivíduos se antecipam a criam novos sintomas (novas dificuldades de aprendizagem, rejeições aos objetos facilitadores da tal inclusão, etc). Assim, os doutores na arte da adaptação (em busca de uma “qualidade de vida) ficam loucos e sentam novamente em seus bancos acadêmicos para entender porque tudo isso falha, na esperança de criar novas fórmulas adaptativas e funcionais para esses “errantes”. Chega  a ser uma linda batalha, se não fosse trágica.

Qual erro insistimos em cometer? A psicanálise já repetiu tanto essa resposta… Desde Descartes (e antes) cometemos o mesmo erro: não dar voz ao sujeito. Quantos anos de pesquisas inutilizadas para compreender que o sujeito fala com seu sintoma, com sua recusa a adaptações, com sua dificuldade de aprendizagem? E acho que ao longo dos anos os fracassos ficaram gritantes: esses sujeitos não estão satisfeitos. E no final das contas ninguém está.

“Para a psicanálise, o sujeito está, por principio, implicado em todo ato. Por sinal, como todo aquele que consulta desconhece essa implicação, visa-se no inicio criar condições para que o sujeito se interrogue sobre as causas daqueles episódios que tonto o incomodam” (Lajonquiere). Essa pretensão de alguns educadores e membros da sociedade em achar que podem vir a saber sobre a singularidade subjetiva de uma pessoa (aluno, deficiente, etc) a partir de si mesmo está obviamente fadada ao fracasso!

Charles Melman já falava disso quando escreveu que o primeiro problema quando se fala de educação de crianças é o lugar em que nos colocamos. Cada um de nós recebeu um tipo de educação, e por isso já temos conceitos formados sobre o que é melhor ou não, o que funciona e o que não funciona. Quando trocamos de lugar e passamos ser os responsáveis pela educação de outros, deixamos de lado a criança de hoje, colocando nossas queixas e reinvindicações e fórmulas em primeiro lugar. O mesmo vale para o deficiente, já que a inclusão prevê a criação de diversos mecanismos e aparelhagens para que ele fique menos “prejudicado” e possa seguir “na mesma condição que as outros”. Um ideal impossível esse, seja deficiente ou não. Estar em mesmas condições, quando isso é realidade para qualquer pessoa??

Nesse sentido, a melhor educação é a que fracassa. Melman já dizia isso porque acreditava que toda educação tende a colocar o mesmo ponto de vista em todas as crianças, e tem a pretensão de formar cidadãos iguais. A inclusão repete a mesma bobagem. Partindo do ponto de vista do sujeito da psicanálise, um sujeito único, com direito de escolha, talvez faça mesmo parte da constituição do sujeito viver contra e a favor da educação que recebeu, pelo resto de sua vida. Quando esse sujeito, a sua maneira, fracassa, está de alguma maneira se apresentando como sujeito. Está se recusando a repetir, e nós assistimos aos milhares de sintomas que aparecem todos os dias no âmbito escolar.

“Só podemos concluir que o investimento narcísico na infância, ou a ilusão da criança-esperança, é uma invenção sintomal da modernidade, então, não é casual que a pedagogia hegemônica atual se articule em torno a uma louca exigência, qual seja, demandar à criança que venha de fato a concretizar sem resto nenhum um ideal de completude e bem-estar. Estamos diante de uma fatalidade e, assim sendo, os educadores de hoje estão condenados à lamentação pela suposta ineficácia profissional, uma vez que a educação das crianças não poderia não estar tomada senão por um voto narcísico” (Lajonquiere)

No final das contas, esse discurso social, a partir da educação e da inclusão, sustenta uma proposta que enfatiza a preocupação com a inclusão, mas o que opera é um agrupamento que novamente resulta em crianças e deficientes na posição de objeto. O discurso educacional é pró-inclusão mas o desejo manifesto ainda é de “normalização”, atuando na perspectiva de “curar” algo que falta no desenvolvimento das crianças. Essas práticas normalizantes tratam as pessoas como objetos, e partir de uma norma que é externa a elas. Resultado: fracasso, claro. Aceitar permanecer como objeto no mínimo resulta em certos adoecimentos.

Alguns, como sujeitos, rejeitam. Não aprendem. Não se adaptam. Algo sempre falha. E ao rejeitar aquilo que lhes é oferecido, um mal estar surge e transborda para todos os lado. Certos de que o que oferecem é fundamental para a evolução da criança, os adultos passam a apontar uma série de problemas, como se eles pudessem explicar ou justificar o porquê da recusa. Só não param para pensar que nessa lógica a criança fica em posição de objeto, permanecem alienadas ao desejo do Outro, que dita o lugar que elas devem ocupar, o que devem aceitar e utilizar para se constituir. Se por um lado podem ficar presas nesse lugar de perda ao negar as ofertas de ajuda, ao não aceitar aquilo que lhes é oferecido, esse movimento pode apontar algo de um desejo, de um posicionamento particular em relação ao lugar que lhe é estabelecido dentro da rede de relações sociais e familiares. Ao recusar ocupar esse lugar, algo se desloca dentre de uma lógica em que essa criança está inserida.

Se a recusa acontece pelo desejo de não ocupar um lugar dentro de um grupo (crianças com problemas de aprendizagem, crianças deficientes, etc) e se constituir de forma singular, ou pelo desejo de não aceitar o lugar já estabelecido no âmbito familiar e social, o fato é que já existem muitos lugares fabricados pelo discurso social para essas crianças. A escuta psicanalítica nos permite tomar o fracasso dessas crianças como uma tentativa de implicação subjetiva. Há fracasso porque há sujeito. Então que a inclusão e a educação continuem fracassando.

 

Era apenas uma manhã de segunda-feira

Por Aline Sieiro em 26/03/2012 23:38

Era uma manhã de segunda-feira e eu estava a caminho do meu consultório. Duas quadras antes do prédio, encontrei diversas pessoas paradas fitando uma mulher que, enlouquecida, destruía uma carro estacionado na esquina de uma rua. A cena seduzia e mantinha muitas pessoas paradas, em silêncio,  olhando aquela destruição acontecendo bem ali, na avenida movimentada de um bairro de Uberlândia. Eu parei e olhei. Em cinco minutos percebi que ela já havia destruído os detalhes do carro e agora tentava de todo jeito quebrar os vidros. As mãos sagravam, já que os golpes pouco estragavam os duros vidros do carro, mas faziam um enorme estrago em suas mãos. Não dava mais pra ficar parada testemunhando apenas: me aproximei dela, calmamente.

Eu: “Senhora, tudo bem com você? O que está acontecendo?”

Ela me olhou e continuou destruindo o carro, e agora tentava abrir o compartimento de combustível: “Nada, fica preocupada não, esse carro aqui é do meu marido, aquele filho da puta. Eu vou matar ele, mas antes vou destruir esse carro. Você tem um fósforo ai? Vou por fogo no carro.”

Eu: “Infelizmente eu não fumo e não ando com fogo, mas posso te oferecer um copo de água, papel e álcool para você limpar suas mãos, elas estão sangrando”.

Ela para por alguns segundos e olha para as mãos. Só ai percebe que elas estão destruídas, em pedaços, sangrando. Ela para e me mostra os braço roxos: “Isso não é nada em função do que ele me fez, você não sabe”.

Eu: “Ele te bateu?”

Ela: “Não, isso aqui é roxo do hospital, acabei de sair de lá. Fiquei internada com depressão e convulsão, tudo porque ele me largou. Minha filha está passando fome, não temos o que comer enquanto ele tá ai comprando carro, dando dinheiro pra outra mulher. Eu ajudei ele a construir tudo que ele tem hoje, isso não vai ficar assim”.

Nessa altura ela já estava chorando. Finalmente consigo convencê-la a sentar em um banco da praça para que eu pudesse buscar uma água e papéis para ela se limpar. Nessa hora alguém já havia chamado a polícia (que estava a caminho) e um dos homens, que também observava tudo, foi em busca do marido dela que trabalhava ali perto.

Quando voltei, ela estava sentada sozinha, mais calma. As mãos tremiam e o álcool fez a mão arder. Ela recomeçou o choro, tirou de dentro da bolsa alguns papéis e me pediu para ler. Enquanto eu olhava, ela se limpava e me mostrava as feridas causadas pela psoríase que havia começado junto com as crises de convulsão que teve ao receber aquela ordem judicial. No papel, a convocação era clara: ele pedia o divórcio e oferecia trinta por cento de um salario mínimo de pensão para a filha adotada. Ele declarava que não suportava mais as loucuras da esposa, que o ameaçava constantemente. Ela chorava e explicava que nada daquilo era verdade, que ela havia construído uma vida com ele e agora estava sozinha, sem nada. Perguntei se ela havia entrado em contato com algum advogado e ela disse que a lista de espera era de três meses, mas a audiência era naquela semana.

Perguntei se ela tinha com quem conversar, se fazia algum acompanhamento psicológico e ela me falou o nome do psiquiatra e da psicóloga que a acompanhavam. Sugeri que ela procurasse por eles naquele dia, mas nem consegui terminar de conversar pois fomos interrompidas por um rapaz trazendo notícias do marido dela. Ela se levantou com muita raiva ao escutar o recado do marido: “o carro não era dele e que ela ia ser presa”. Ela se alterou, dizendo que o carro era dele e ele negava pois não tinha habilitação. Disse que ia destruir todo o carro e matar ele. Me direcionando ao rapaz, comento que ela já estava se acalmando, o que ela confirma, me agradece e diz que vai encontrar seus médicos no posto para pedir algum atestado médico que a ajude em sua defesa. Ela falou mais alguma coisa que não entendi direito pois a essa altura ela já estava indo embora.

Pessoas imobilizadas pela loucura de uma mulher. Risadas de escárnio. As mãos de uma mulher completamente machucadas, sangrando. A tentava de destruição do outro que resultava apenas na destruição dela mesma. Lagrimas e sofrimento.

Eu falei pouco, mas senti que precisava estar ali com ela apenas como presença, com escuta.

Isso tudo me fez pensar no projeto do Consultório de Rua, que começou focado no atendimento aos indivíduos envolvidos em situação de risco, drogas e álcool, mas hoje acaba acolhendo várias pessoas como crianças, adolescentes e famílias que passam pela praça e sentem a oportunidade de conversar, contar suas dificuldades e compartilhar dúvidas e tristezas com aqueles profissionais que estão ali toda semana. Essa proposta de intervenção fora do setting tradicional nos conta de um outro lugar para a escuta e para a transferência, mas que tem como aposta a possibilidade de uma intervenção terapêutica que se dirige não ao indivíduo apenas, mas ao sujeito que se arraga a essas pequenas oportunidades para emergir, na tentativa de construção de algum sentido a partir de situações de puro nonsense. Essa disponibilidade para a escuta nas mais variadas situações é o que mais me impressiona nas práticas psicanalíticas fora do setting tradicional.

Há os que dizem que a psicanálise não se encaixa nas exigências sociais modernas. E há também os que apostam que ela consegue (como nunca), dar conta desse Real avassalador que nos cerca o tempo todo, em cada esquina. 

*Consultório de Rua, saiba mais: http://www.brasil.gov.br/enfrentandoocrack/superacao/projetos-bem-sucedidos/consultorio-de-rua

Escrever para que?

Por Aline Sieiro em 14/12/2011 23:25

2011 para mim foi um ano de muita escrita. Escrevi muito aqui e escrevi muito para a academia. E a escrita acadêmica tem algo de trabalhoso, como uma escultura que precisa ser trabalhada pelo escultor, que também não sabe muito bem qual será o resultado final.

Sempre me incomodei um pouco com o processo de autoria e o por quê de escrever um texto. Em algum texto meu anterior aqui no blog eu já havia discutido a idéia do porquê escrever. Escrevemos por vários motivos, mas a escrita que mais me movimentou nesse ano foi a singular, ou seja, aquela que teve algo de inédito e particular. Sem esse toque especial, ou seja, sem algo minimamente novo no texto, penso que ele perde um pouco o sentido. Repetir, pra que? Se for por acrescentar pelo menos uma vírgula, ai até posso entender o motivo da escrita. Mas apenas para repetir? Não, obrigada.

E no meio acadêmico, as vezes a escrita parece de um gozo em looping: todo mundo falando das mesmas coisas de maneiras quase parecidas. Vejo revistas (periódicos) em que os artigos parecem sempre falar de uma mesma coisa. Parece que as pessoas precisam ouvir muitas vezes a mesma idéia, dita várias vezes por pessoas diferentes, para acreditar naquilo que é já é realidade na prática, ou melhor, na vida. Teorizar muito pode ter esse problema. E posso dizer que esse é um problema que eu enfrento constantemente na minha escrita. Quantos são os textos e páginas que eu simplesmente jogo fora por achar que são apenas repetições de coisas já ditas. E não adianta tentar me convencer de que “esse é o modo como eu vejo isso, então isso é novo”, porque isso não me convence. É preciso ter algo de novo sim, e que tenha sentido não só para mim. O tempo é muito curto pra perder tempo repetindo. Ficaria mais fácil indicar a leitura e não escrever todo um texto para defender algo que já foi escrito.

Talvez por isso eu esteja escrevendo menos no blog. Porque quando navego pela internet, tenho a sensação de que todo mundo já está dizendo tudo e todos já estão dando as informações e suas opiniões sobre elas. Por outro lado, talvez eu tenha escrito menos também porque certos temas são delicados, as pessoas não estão preparadas para ouvir o âmago da questão sobre determinados assuntos. Escrever desse jeito pode suscitar mais agressividade do que de fato a abertura para um dialogo reflexivo.

Tenho um texto de 2008 que faz muito sucesso. Outro de 2010 que também tem muitos comentários. Mas, tanto tempo depois, ainda recebo comentários e conclusões repetidas de pessoas diferentes,e isso me deixa levemente irritada. Talvez hoje eu entenda melhor a resistência de Lacan em escrever. A fala, a aula, o diálogo nesse sentido é muito mais movimento. E por sempre se dirigir a alguém “concreto”, talvez produza algo de mais genuíno no presente, entre quem fala e quem escuta. Porque esse ouvinte não tem nada de passivo. É uma construção ali, na relação. Já na escrita, o leitor pode ser movimentado, mas não necessariamente o escritor. Vejo tantos textos que parecem ter sido escritos por robôs… Não sei divago… Talvez por estar muito envolvida no trabalho analítico com meus pacientes, percebo a importância da construção em análise. Aquilo que é feito em transferência ali no hora. Que depois não é a mais a mesma coisa. Que fora do setting não tem muito sentido. Acho que estou pensando assim da escrita um pouco. É uma maneira de se pensar, que, obviamente, não é a única. Talvez a escrita esteja mais para o tempo de compreender e momento de concluir.

Talvez eu me incomode também com o lugar da repetição, como conceito analítico, no processo de constituição e implicação subjetiva das pessoas. Bom, mas isso já é tema para outro texto.

Psicanálise e Psicose Infantil a partir do filme “A viagem de Chihiro”

Por Aline Sieiro em 10/12/2011 13:34


Como estudar psicanálise? Essa pergunta aparece e reaparece constantemente nos corredores da Universidade e aqui no meu blog. Me lembro sempre de um professor que, a respeito dos Seminários de Lacan, dizia que fazia pouca diferença por onde começar os estudos já que a entrada seria sempre abrupta. Outro dia, pensando sobre a estruturação de um Grupo de Estudos em Psicanálise, eu tentava decidir quais textos freudianos utilizar, e, ao pedir opinião de um outro professor, escutei a mesma frase sendo dita: “Pouco importa por onde começar, sempre haverá muito que se dizer e a entrada sempre será a partir de um corte.”

Em psicanálise você não estuda e aprende: você estuda, pensa, questiona e transmite. E o que se transmite? Segundo Lacan, algo de um saber não sabido. Se retomamos a idéia de inconsciente estruturado como uma linguagem que é não-toda, ou seja, a partir do Real, sempre haverá algo de  inominável. O real não se diz, mas algo produz um efeito que tentamos nomear a partir do simbólico.

Com essa breve introdução, apresento o Seminário desenvolvido pelos meus alunos da disciplina de Psicopatologia II, que aconteceu no curso de Graduação em Psicologia na Universidade Federal de Uberlândia. Germano Almeida, Caroline Mazzutti e Nayara Santana apresentam o seminário, com a colaboração de Jordhan Coeli e Sarah Rodrigues.

O seminário está dividido em dois vídeos. Todas as referências são apresentadas ao final do segundo vídeo. Recomendamos que vocês assistam primeiro o filme “A viagem de Chihiro”, já que oferecemos aqui algumas considerações a partir do filme.

Parte 1

 

Parte 2

A morte é quando a gente não fala mais

Por Aline Sieiro em 25/09/2011 01:01

“A morte é quando a gente não fala mais”

A tentativa de suicídio na infância, quando levada a cabo por sujeitos neuróticos, sempre implica um apelo, razão pela qual ela jamais é pura passagem ao ato. Ela sempre denota uma dificuldade no relacionamento com aquele que o sujeito institui no lugar do Outro. Denota que algo passou despercebido ao Outro mesmo que, muitas vezes, o sujeito tenha chamado atenção para isso de outras maneiras.

O que quero dizer com isso é que as pessoas precisam parar com essa história de : “fulano só faz drama, só quer chamar atenção”, “se quisesse se matar mesmo já tinha feito” e tantas outras frases do gênero. Oras, se uma criança/adolescente “precisa” atuar de forma tão violenta contra eles mesmos para “chamar atenção”, esse ato deveria causar preocupação e não descaso.

Devemos nos preocupar e ouvir esse grito, um apelo a um sofrimento que não tem destino. Falo isso não apenas nos casos de tentativa de suicídio, mas também nas diversas psicopatologias infantis que acompanhamos, como as automutilações, os atos violentos, uso de drogas e tantas outras situações que acontecem de maneira cada vez mais precoce.

A respeito especificamente da depressão na atualidade, recomendo a leitura do mais novo livro de Maria Rita Kehl, intitulado O Tempo e  o cão. É praticamente um tratado sobre a atualidade da depressão com exemplos da literatura e de casos clínicos.

Aproveito e deixo também um vídeo que preparei para uma aula que dei nessa semana sobre o tema do Desamparo. A idéia do vídeo (que foi feito com uma seleção de cartões postais do Post Secret) era de tentar viver um pouco disso que é uma dor, uma angústia sem nome que muitas pessoas sentem em alguns momentos da vida, quando não por uma vida toda. Temos essa tendência a achar que deprimido é tudo gente dramática, mas não nos aproximos disso que é uma sensação de horror e desamparo diante da vida, que não só não tem fim, como parece impedir qualquer tipo de simbolização. Uma saudade de um tempo que foi e não volta nunca mais. Uma saudade que as vezes não se sabe nem do que. De qualquer maneira, nos aproximando desse campo de sensações, podemos tentar lidar com essa realidade sem julgar com tanta rapidez. Será que conseguimos?

O ato violento

Por Aline Sieiro em 15/09/2011 15:18

Hoje fui abordada por 3 viaturas policiais na rua. Já estava em frente ao prédio do meu consultório. Três carros nos abordaram de forma súbita, já com armas apontadas para dentro do carro, pedindo que saíssemos com as mãos pra cima e encostássemos no carro. Por ser mulher, pediram que eu ficasse de lado e prosseguiram com o procedimento de revista em meu marido que, assustado, não fazia exatamente o que os policias pediam.

Depois dos 5 minutos de estresse geral (da nossa parte e da parte dos policiais), eles nos explicaram o que aconteceu e porque a abordagem: perseguiam dois “marginais” que estavam no mesmo local com o mesmo tipo de carro.

 

Medo, angústia, terror, humilhação, impotência.

 

Um evento desses, obra do puro acaso, me fez pensar sobre o desamparo e a sensação de impotência e angústia que ele produz. E não podemos deixar de pensar na realidade das pessoas em que situações como essa não são acasos, já se tornaram parte de uma realidade cotidiana e rotineira. Vocês conseguem imaginar o que é morar em um bairro/favela em que todo dia você passa por situações que te confrontam com sentimentos tão arrebatadores com o medo, a angustia, o terror, a humilhação e a impotência?

De passagem pelo Rio de Janeiro (que, aliás, é minha cidade natal) para um evento, percebi o quanto a violência foi internalizada pelos moradores de lá. Parece que eles já não se assustam mais com os tiros que correm soltos pela noite e muito menos com o cheiro de urina e esgoto que percorre toda a cidade e suas lindas paisagens. E para aqueles que não conseguem acomodar esses afetos na rotina, existe o álcool e a droga para amenizar, anestesiar. Para outros ainda existe o ato violento, como forma ativa de rebeldia contra isso que é avassalador desse dia a dia da ordem do horror.

Mas, voltando ao lugar distante dessa realidade crua (que por vezes é jogada na nossa cara), me pergunto como podemos viver em um jogo de cartas marcadas, sem se deixar afetar por isso que é o horror de uma vida permeada de medo, humilhação, violência. Nos apressamos logo para dar destinos a esse mal estar, com políticas de pão e circo, e até mesmo políticas de saúde para todos, segurança social, contenção de situações de risco… E no final, não enfrentamos o mal estar que existe e permeia nossas relaões sociais. Será que isso é utopia ou possibilidade?

Então por hoje, não vou dar destinos a esse mal estar. Vou apenas falar dele e deixar o efeito produzir algo mais do que apenas um sentido.

 

Conlapsa

Por Aline Sieiro em 01/09/2011 11:48

Participei do Conlapsa, evento que aconteceu no começo dessa semana na UERJ, Rio de Janeiro. O evento foi grandioso e cheio de novidades para compartilhar. Assisti muitos trabalhos e apresentações e também participei de uma mesa com apresentação de trabalho. Vou editar o áudio da apresentação assim que possível para compartilhar com vocês.

Se você estava no evento e quer saber um pouco mais do trabalho sobre Deficiência Visual, entre no site que desenvolvo sobre o tema: www.sitiodainclusao.com.br

 

Trabalho, ocupação e emprego: singularidade e criatividade

Por Aline Sieiro em 10/08/2011 20:54

“É preciso trabalhar, é preciso ganhar dinheiro, é preciso fazer o que não se quer para fazer o ciclo se movimentar.”

“Quando conseguimos fazer o que queremos, os engessamentos são enormes e terminamos por não produzir e criar como um dia sonhamos.”

O B.O.

Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo

O plantão estava tranquilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar

Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado

Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranquilão
Estava em uma motocicleta com restrição

A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação

O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa

Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa-fé era furada

Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante

Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população

A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada

Já hoje aqui esteve pra testemunhá
A vítima, meu quase xará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho

As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar

Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia

Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão


Riacho Fundo, 26 de Julho de 2011 (Fonte: Blog do Elidio)

 

Segundo Bauman, na modernidade líquida (nosso momento atual) uma das características básicas é a especialização flexível e a mentalidade predominante é de curto prazo, individualizada, sustentada pela flexibilidade e, exatamente por isso, plena de incertezas, sem estruturas para manutenção do vínculo entre emprego e capital. Hoje, o compromisso das organizações está firmado com os consumidores e não com os produtores, decorrendo ênfases excessivas na lucratividade e competitividade. Assim, muitas pessoas começaram a buscar oportunidades ligadas ao funcionarismo público, como uma chance para exercer um trabalho que pudesse dar oportunidades e ser menos opressor e ligado uma certa produtividade. Mas a coisa não mudou muito: o governo também tem suas metas e seus anseios produtivistas. E, mais do que isso, existe uma fórmula, um jeito em que as coisas são e devem ser feitas. Você entra no molde, faz a máquina se movimentar, mas fica uma pergunta: onde fica o desejo, onde fica a singularidade?

Trabalho, ocupação ou emprego?

Na Antigüidade, o trabalho era entendido como a atividade dos que haviam perdido a liberdade. Um misto de sofrimento e infortúnio. O homem, no exercício do trabalho, sofre ao vacilar sob um fardo. O fardo pode ser invisível, pois, na verdade, é o fardo social da falta de independência e de liberdade. Os gregos utilizavam duas palavras para designar “trabalho: ponos, que faz referência a esforço e à penalidade, e ergon, que designa criação, obra de arte. Isso estabelece a diferença entre trabalhar no sentido de penar, ponein, e trabalhar no sentido de criar, ergazomai. Parece que a contradição “trabalho-ponos” e “trabalho-ergon” continua central na concepção moderna de trabalho. Pode-se observar em diferentes línguas (grego, latim, francês, alemão, russo, português) que o termo trabalho tem, em sua raiz, dois significados: esforço, fardo, sofrimento e criação, obra de arte, recriação.

Começamos então a distinguir labor e trabalho. Essas palavras têm etimologia diferente para designar o que hoje se considera a mesma atividade. O primeiro é um processo de transformação da natureza para a satisfação das necessidades vitais do homem. O segundo é um processo de transformação da natureza para responder àquilo que é um desejo do ser humano, emprestando-lhe certa permanência e durabilidade histórica. Na Antigüidade, um homem livre podia cansar-se em certas circunstâncias e, ainda assim, obter satisfação da situação. Era rejeitada não a atividade em si ou o trabalho manual, mas a submissão do homem a outro homem ou a uma “profissão”.

No século XVIII, com a ascensão da burguesia, com o desenvolvimento das fontes produtivas, com a transformação da natureza e com a evolução da técnica e da ciência, enfatizou-se a condenação do ócio, sacralizando-se o trabalho e a produtividade. Para o homem dos tempos modernos, o tempo livre inexiste ou é escasso. “Tempo é dinheiro“. A lógica do trabalho perpassou a culturae todas as atividades humanas passaram a ser foco de negócios ou tornaram-se oportunidades para alguém ganhar dinheiro, lógica que se apoderou de todas as esferas da vida e da existência humana. Para grande maioria das pessoas, o trabalho transformou-se em emprego.

Para colocar mais pimenta nessa sopa, vamos pensar em ocupação. Na Antigüidade, as ocupações eram entendidas como atividades que visavam à satisfação pessoal e eram desenvolvidas por escolha própria O aparecimento da economia monetária acentua a distinção entre ocupação como meio de ganhar a vida e ocupação como meio de manter o status quo. Cada sociedade, na sua dinâmica estrutural e conjuntural, cria e recria a ocupação humana. “A ocupação de uma pessoa é a espécie de trabalho feito por ela, independente da indústria em que esse trabalho é realizado e do status que o emprego confere ao indivíduo

Trabalho não é ocupação, todas as classes sociais detêm sua forma de ocupação, e todas as pessoas mantêm sua ocupação. Assim como o camponês, o proprietário, na medida em que conserva uma função positiva, tem sua ocupação. O que caracteriza o operário ou trabalhador, no sentido mais restrito, é que ele trabalha para outra pessoa. Ele é (não tenhamos medo de dizer) um servidor.

Já a palavra emprego, da língua inglesa,  se referia a alguma tarefa ou determinada empreitada; nunca se referia a um papel ou a uma posição numa organização. A conotação moderna do termo emprego reflete a relação entre o indivíduo e a organização onde uma tarefa produtiva é realizada, pela qual aquele recebe rendimentos, e cujos bens ou serviços são passíveis de transações no mercado. O emprego é um fenômeno da Modernidade. Os empregos tornaram-se tanto comuns quanto importantes; passaram a ser, nada menos, do que o único caminho amplamente disponível para a segurança, para o sucesso e para a satisfação das necessidades de sobrevivência. Com o passar do tempo, as pessoas foram aprendendo ofícios que as tornaram detentoras de empregos, passando, a partir daí, a serem parte do tipo de força de trabalho que emergia. Dentro da lei da oferta e da procura, proporcionar-se-ia emprego a todos os indivíduos que estivessem dispostos a trabalhar.

Mas porque falar sobre todos esses termos e suas diferenças? Porque na hora de analisar esse ato de “rebeldia”, devemos ter em mente que lugar esse delegado ocupa em relação ao seu trabalho. Ficamos tão presos a necessidade de um emprego, que esquecemos da possibilidade de exercer uma ocupação, algo que seja prazeiroso e, mais ainda, que possa produzir sentido para quem o exerce e para quem depende dele. Podemos pensar nos engessamentos, e como eles são produzidos não apenas nas empresas, instituições e locais de trabalho, mas também por nós. Arrisco dizer que estão primeiro em nós. E poucos são os que tem força para subverter essa ordem. Quem diria que um trabalho como esse poderia ser executado de maneira tão diversa… Quem diria que qualquer emprego poderia ser executado de maneira singular…

Ele está infeliz com seu trabalho? Disso não podemos dizer. Criar poesia onde não se esperava não é indicio de frustração. Ao contrário, é sinal de criatividade. Ele teve coragem de produzir um ato de singularidade que possibilitou movimento em seu trabalho? Com certeza. O que será que ele nos ensina com esse ato?