Associação Livre

Sexualidade e Deficiência Mental

Por Aline Sieiro em 07/02/2011 19:38

Outro dia eu estava na piscina de crianças do clube mais cheio de firulas de Uberlândia. Junto comigo estava a mãe de um amiguinho do meu filho. Olhávamos as crianças enquanto tomávamos sol. Eis que surge na água um rapaz de aproximadamente 17- 18 anos com a mão dentro do calção de banho, sorrindo e se masturbando enquanto olhava para a mãe do amiguinho do meu filho. Ela estava visivelmente constrangida mas fingindo que nada estava acontecendo. Fui reparar um pouco mais no rapaz, e percebi que ele era deficiente mental. Não demorou muito e seu pai apareceu e o arrastou pelo braço (arrastou mesmo). Depois de algum tempo eles foram embora. A mãe do meu lado nada comentou sobre o assunto, como se nada tivesse acontecido.

Alguns anos atrás eu estava num clube de Águas de Lindóia, numa temporada de férias. Observei um rapaz com seus 15-16 anos na piscina, que fazia a mesma coisa mas parecia muito incomodado com sua situação. Então se dirigia para uma cascata de água gelada (muito gelada) e lá abria o calção deixando a água entrar. Seu desespero era visível. Depois de muito tempo por lá ele voltava para conversar com as pessoas (que não o conheciam). Seus pais não estavam em lugar visível. Mais tarde percebi que os pais o largavam na piscina de manhã e só apareciam no final da tarde pra buscar. Todas as pessoas na piscina ficavam visivelmente incomodadas e comentavam entre si o absurdo que era o menino ficar solto por ali o dia todo, pois ele não tinha culpa de ser deficiente mental mas a família tinha obrigação de ser responsável.

Contei essas duas histórias porque elas tem muita coisa em comum. Vamos começar falando um pouco da questão sexual e como acontece essa experiência da sexualidade para o deficiente mental. Vocês já devem ter percebido que a sexualidade dos jovens nessa idade é muito aflorada e com esses meninos não seria diferente. O que é difícil para eles é que a idade mental não condiz com a idade biológica, portanto eles tem dificuldade em entender o que estão passando e vivendo, como lidar com as transformações do corpo. Além disso, pais e professores tem receio de tocar nesse assunto com eles, temendo que eles não tenham maturidade suficiente para entender certos diálogos, mesmo que eles sejam necessários. Assim, eles agem como uma criança no corpo de gente grande pois não têm a maldade e o entendimento que nós – que assistimos a tudo isso – temos. E como podemos perceber nesses dois casos, um deles é arrastado da situação enquanto o outro é ignorado. Esse outro ainda parece ter sido ensinado alguma coisa e por isso parecia se desesperar deixando o pênis na água gelada para que ele não ficasse mais ereto.

Apesar de não ter a idade mental compatível com a biológica eles conseguem entender muitas coisas. Por isso conversas são fundamentais para explicar o que eles sentem e como podem reagir a esses sentimentos. Mas para muitos pais já e difícil conversar sobre sexualidade com os filhos “normais”, imagina então conversar sobre sexualiade com os deficientes mentais, que exigem uma dose muito maior de termos concretos na fala? Certos diálogos abstratos e subentendidos funcionam com jovens sem deficiência, mas com os DM é necessários dizer tudo que precisa ser dito com todas as letras e isso pode ser muito difícil para pais e educadores. Assim como a mãe ao meu lado fez, as pessoas tendem a ignorar e fingir que não estao vendo nada, e os meninos continuam tendo as mesmas atitudes entendendo menos ainda.

Agora vamos falar dos pais de jovens e crianças deficientes. Porque esses pais passam por essa e muitas outras dificuldades com seus filhos e outras pessoas que estão em volta tendem a ter atitudes críticas e julgadoras, ora por ignorar, ora por permitir que situações como essa aconteçam em qualquer lugar. Essas mesmas pessoas têm dificuldade de entender como é a vida de um pai com filho DM. Em geral esses pais são muito dedicados e focados nos filhos (seja porque gostam, seja porque não tiveram outra escolha). É de conhecimento geral que essas crianças exigem atenção extra e cuidados e com isso é possível que os pais se tornem cansados, frustrados e estressados com tanta carga de responsabilidade nas costas.

Pregamos muito sobre diversidade e inclusão mas para que tudo isso aconteça ainda é necessário muita tolerância e empatia. Eu costumo brincar que só inclui mesmo quem tem alguém da família que é deficiente (e olhe lá!). Mas será que só é possível entender o outro se vivenciarmos a mesma experiência?

Se você é daqueles que acha que os direitos dos deficientes são certos, mas ele lá e você aqui, então é hora de você começar a trabalhar a sua tolerância.

E você ai, pai ou parente de uma criança com DM, saiba que hoje em dia existe um vasto material sobre Sexualidade e Deficiência: livros, filmes e materiais de apoio. É possível encontrar também muitos grupos de apoio a pais e familiares de pessoas com deficiências. Se você está passando por alguma dessas situações procure informações a respeito. É possível que você possa encontrar ajuda para você e seu filho.

Comentários

  1. Aline, esta discussão é bastante pertinente, mas o que se nota é que quase todos se afastam dela, especialmente os pais.
    Parabéns pelo texto.

  2. Olá Aline estou passando por situações parecidas sim, minha filha com 14 anos (DM) esta começando a querer namorar, já mestrua e tem sido muito difícil para mim, se puder me indicar grupos de apoio adoraria, bjs Thais.

  3. Olá Aline, minha filha tem 14 anos e tem deficiência intelectual, estava anciosa querendo namorar, reslveu ficar com um vizinho escondido da sua idade e foi violentada, estou super triste e indignada com a situação, pois o menino e a familia estão negando, mais ela relata os fatos com muita precisão, fiz todo o procedimento legal e médico, mais estou com um problema maior do que antes, medo de gravidez mesmo tendo tomado a pilúla do dia seguinte, e porque minha filha mostra que não entende nada do que aconteceu, do perigo que correu, já conversei com seus terapeutas e eles só me dizem que é assim mesmo, é difícil a sua compreensão e entendimento, e eu faço o quê? o que eu tanto temia aconteceu, e agora? moro no RJ, gostaria de leva_la num lugar onde tivesse palestras sobre vida sexual. aguardo resposta Thais.

  4. Olá Aline! Também tenho uma filha adolescente com deficiência intelectual. Você poderia me ajudar, indicando algum grupo de apoio na minha região? Moro na cidade de Diadema/SP. Obrigada.

  5. Olá,

    Me chamo Renata, e tenho alguma DM que ainda não sei dizer qual é. Estou fazendo tratamento psiquiatrico e gostaria de um grupo de apoio aqui no Rio de Janeiro para poder conversar e interagir com outras pessoas.

    🙂

  6. Ola,
    Gostaria de pedir indicacoes para que pudesse obter orientacoes para tratamento de um adulto hj com 50 anos, deficiente mental que vem causando problemas pois nao tem controlado seu desejo sexual, se masturbando em qualquer lugar e na frente de quaisquer pessoas, inclusive criancas. Esta situacao tem dificultado o convivio com a familia e causado problemas com vizinhos. A pessoa que cuidava dele o abandonou e ele tem passado pela casa de varios parentes, em funcao dos problemas causados pelo comportamento sexual. Aparentemente, suas taxas hormonais estao muito altas o que agrava o problema. Ha ainda a preocupacao que ele venha a atacar sexualmente alguma pessoa, especialmente uma crianca. A familia tem limitacoes financeiras e nao tem encontrado muito apoio no servico publico de Sao Bernardo do Campo.Neste momento, tenho a impressao que para a propria protecao do deficiente seria adequado a internacao em uma clinica especializada para um tratamento multidisciplinar, tambem aliviando as pressoes de convivencia com a familia e sociedade em sua atual condicao.

  7. aline tenho um filho de 13 anos mais ele não consegue se controlar com a masturbação men chega ser deverda uma mastrubação e mais o toque que exita ele mais tambem ele não pode ver uma foto ou ate bonecas da sua irmã que o exita ele nao consegue entender ou diferenciar as pessoas ate ver algo das tias dele o exita tambem nao sei mais o que fazer ja conversei com ele na hora ele entende mais depois ele volta a se comporta assim

  8. estou passando por problemas serios com meu filho..em relacao a masturbacao e sexualidade.nao gostaria de me expor.gostaria que vc me enviasse um email..preciso de sua ajuda.bjss

  9. Aline, boa noite!

    Você poderia indicar grupos de apoio aqui no Rio de Janeiro?
    Tenho um irmão deficiente, ele já é adulto, e agora estamos passando por vários problemas…

    Muito obrigada!

  10. Estou finalizando uma especialização e gostaria de fazer em meu tcc uma pesquisa bibliográfica sobre esse tema. Vida sexual das pessoas com deficiência mental e intelectual. Você pode me indicar alguns artigos?

  11. ola aline e carla costa , gostaria de poder me corresponder por email com vcs..
    meu email eh sah_smc@hotmail.com
    estou passando por problemas bem graves e estou super depressiva.me ajudem..grata pela atencao

  12. Bom dia
    Você pode me passar nome de filmes etc…… tudo que me ajude pois tenho um filho de 15 anos autista e retardo mental. Desde já agradeço
    Att
    Cleuza Maria

    • ou meninas , quem tiver filho especial na adolescencia poderia me mandar email ?
      estou passando por uma fase bem delicada com meu filho.

  13. Tenho filho na idade de puberdade com dm eu preciso encontrar algum grupo de apoio que me ajude nesse sentido moro no rio de janeiro

  14. O nosso garoto tem 35 anos apaixonado por uma menina hoje de 18 anos mais ele sofre por esta menina a mais de de 5 anos nos mostrava para ele que ela criança então ele se acamou, mais agora ela já é adulta e ainda por cima tem namoradinho mora em frente da nossa casa, não temos paz ele grita a doença dele e (seila) é o nome que ele diz mais nos sabemos que é desejo sexual agente não sabe mais o que fazer. Banho masturbação foi ensinado para ele ir no banheiro mais ele quer a menina, como achar o caminho certo

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