Associação Livre
Arquivo para o Mês: June 2007
Percepções
Ao longo da vida nós fazemos escolhas, e essas escolhas nos marcam como sujeitos. Pois é. Todas as escolhas nos marcam. Desde o momento que você acorda e decide por exemplo tomar leite, e não café, até aquele momento no trânsito que você decide deixar alguem entrar na sua frente ou nao, e também outro momentos no qual você decide entrar num site pornográfico ou não. O fato é que todas as escolhas nos marcam como sujeitos. Todas elas vão dizendo, ao longo do tempo, quem somos, o que gostamos, o que não gostamos, o que fazemos quando estamos felizes, o que fazemos quando estamos triste, e o que fazemos quando ficamos sozinhos entre quatro paredes.
Entre quatro paredes a gente chega a pensar que ninguém pode saber o que a gente faz. Ou mesmo o que a gente pensa. Mas é ai que nos enganamos. Porque, sem querer, escapam coisas que não percebmos e que dizem desses momentos que achamos que podiamos esconder do mundo (e talvez de nós mesmos): os sonhos que contamos aos nossos amigos, sem saber o que estamos contando; os lapsos de memória em uma conversa; os tipos de filmes que gostamos de assitir; as brincadeiras e piadas que contamos e fazemos; o que deixamos de falar em determinadas dicussões; o ciumes fora de hora; a distância que tomamos de pessoas queridas, e a aproximação que fazemos de estranhos; whatever, tudo fala de quem somos e pra onde vamos.
A verdade é que ninguem fica reparando nisso o tempo todo. Ninguém fica fazendo analise do discurso 24/7. Isso, além de ser cansativo, não é natural do ser humano. Mas o fato é que algumas coisas são gritantes, parece que estão ali para ser vistas, escutadas, notadas. E a gente simplesmente nota.
O que se faz disso? Well, muita coisa. São os vários tipos de relacionamentos que as pessoas fazem ao longo da vida. Aprendemos a nos relacionar com as pessoas, de diferentes formas, e aprendemos a fazer ou não alguma coisa do que notamos. Bom, algumas pessoas não notam nada, preferem não desenvolver tal habilidade para não ter que lidar com as consequencias e decisões que tem que tomar quando as tem.
Eu, por mim? Noto sim, é verdade. Por vezes noto mais do que gostaria. Mas, na maior parte do tempo finjo que não. Esse é talvez a maior dificuldade mas também a maior virtude que posso desenvolver: deixar que cada um dê conta de si mesmo, mesmo notando tudo que noto.
Perfume: The story of a murderer
Perfume: the story of a murderer é um filme fantástico. A história é fantástica. O cara é um psicótico, mas tem uma lógica própria de funcionar e entender o mundo. E mostra como tem importância sim o momento do nascimento e os primeiros anos de vida.
Ele nasceu no meio dos peixes, na sujeira, na imundice. E cheiro de peixe a gente sabe bem o quanto horrivel é, imagina num lugar que já não é nada limpo. E não é que ele cresce tentando descobrir a essencia das coisas? É um duplo sentido, pois ele quer sentir a essência, o cheiro das coisas (e não do peixe), e quer descobrir aquilo que ele sente que não tem, a essencia de si mesmo.
Obcecado pelos cheiros, e com uma facilidade imensa de distinguir uma essencia da outra, finalmente tem contato com aquilo que é belo, bonito, uma essência bonita. E na sua ansia de manter aquilo nele, mata a primeira coisa que poderia dispertar nele algo de bom. O primeiro cheiro que talvez o fizesse valorizar a vida e esquecer o (maldito) cheiro de peixe, cheiro do desprezo. E a linha tênue entre vida e morte então, pra ele não existe, já que pra ele viver foi simplesmente algo que aconteceu ao acaso, sua vida não foi desejada. Tão próximo da morte, ele entende que deve ser nesse ultimo momento que a essencia de uma pessoa pode ser preservada pra sempre. E é quando percebe que ele mesmo não tem cheiro, ele mesmo não tem essência, ele já está morto. Passa então a buscar loucamente uma essencia primeira, aquela que seria capaz de devolver-lhe a vida, de colocar-lhe numa posição desejavel, e pela primeira vez ser desejado por alguem. Mas ele não percebe que quer ser desejado e visto como sujeito pelas essencias que ele não tem, são as essencias de outros!!! E, de fato esse dia chega, o dia em que ele capta essa essencia capaz de tornar uma pessoa desejavel, sujeito, alguem, tudo que ele nunca foi. Mas, qual é sua surpresa, pois, depois que ele se dá conta que chegou onde queria, ele continua se sentindo o mesmo. Ele continua sendo visto por todos da mesma forma como sua mãe o viu, como alguém desprezivel. Ele ainda não é ninguem, ele ainda não se encontrou, porque afinal, estava procurando no lugar errado.
O impressionante desse filme, além da história em si, é ver como funciona a mente dele. Nada é obstáculo para o seu objetivo, e ele não vê a morte como algo horrivel, primeiro porque ele já se sente morto-vivo, segundo porque a pessoa-copro morria, mas sua essencia era preservada viva.
E porque estou falando de tudo isso hoje? Porque a gente passa a vida procurando essa essencia de nós mesmos. E é uma busca que não tem fim, e é necessária porque é assim que nos conhecemos. Mas a verdade é que esse caminho é infinito. Não chega um dia no qual encontramos de fato a verdade absoluta de nós mesmos. Porque isso não existe! Essa verdade é inconstante, está sempre em movimento. Hoje está em ir ao cinema, amanha está em trabalhar, depois está em ser mãe, e mais a frente estará em outra coisa qualquer. E as pessoas deprimem muito hoje em dia porque, ao perceber a impossibilidade de encontrar-nos a nos mesmos de forma absoluta, ficamos presos, estagnados, sem conseguir nos mexer. E ficamos nos sentido como estátuas, presos numa impossibilidade, e sem ser capaz de criar outros caminhos para o futuro. E enquanto isso assistimos a vida passar, e assim o sofrimento só aumenta. Ou chega a tal ponto de anestasiar, e não sentimos mais nada em relação a nada. Que perigo!!!
Estar sempre em movimento, esse é o segredo, e talvez essa seja algo mais próximo da verdade absoluta. O nosso desejo tem que estar sempre em movimento, sempre atrás de possibilidades de realização. Assim não nos fixamos nas impossibilidades e podemos ser criativos e livres para sermos sujeitos de nós mesmos.