Associação Livre

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Considerações sobre Internet e Alienação Pt3

Por Aline Sieiro em 04/08/2011 17:26
*Leia primeiro – Parte 01 e Parte 02

2. Constituição do sujeito: alienação e separação


Quando apontamos o caráter narcísico do sujeito que utiliza a Internet, falamos do narcisismo como um momento necessário na evolução da libido, antes que o sujeito se volte para um objeto externo. Essa tempo é responsável pela formação do “eu” (Freud,1914). Pensando o narcisismo como parte do processo de constituição do sujeito, vamos abordar os conceitos lacanianos de alienação e separação. A inclusão do conceito de alienação na teoria psicanalítica, que aconteceu a partir das teorizações de Lacan, tem importantes conseqüências teóricas e clínicas. Mas de que alienação tratamos?

Segundo Lima (2006), o termo é uma tradução habitual do alemão entfremdung, característico da filosofia de Hegel e Marx. Hegel o empregava para indicar o ato de estar alheio à consciência. Este “estar alheio” é uma fase do processo que vai da consciência à autoconsciência. Marx utiliza o conceito de alienação retomando a temática hegeliana da função do trabalho na passagem “do senhor e do escravo”. Para Hegel, o trabalho representa a expressão da liberdade reconquistada. Se o ser do senhor se descobre como dependente do ser do escravo, em compensação, o escravo, aprendendo a vencer a natureza, recupera de certa forma a liberdade. Marx critica a visão otimista do trabalho em Hegel e demonstra como o objeto produzido pelo trabalho surge como um ser estranho ao produtor, não mais lhe pertencendo: trata-se do fenômeno da alienação. Marx observa que a visão idealista de Hegel não considera a materialidade do trabalho, privilegiando a consciência. Para Marx, a propriedade privada produz a alienação do operário, seja porque ela cinde a relação do operário com o produto do seu trabalho (que pertence ao capitalista), seja porque o trabalho permanece exterior ao operário. Quando Lacan iniciou os trabalhos de releitura da obra freudiana, sua leitura era  perpassada pelo hegelianismo, principalmente nos primeiros Seminários. Mas o conceito lacaniano de alienação não é de um acidente ao qual o sujeito sobrevive ou que pode ser transposto, mas sim uma marca constitutiva essencial. O sujeito só se funda a partir de uma alienação fundamental, está alienado de si mesmo, não tem maneira de fugir dessa divisão. Lacan (1964) utiliza os termos alienação e separação referindo-se às operações lógicas de constituição do sujeito. Diante do desamparo originário, o bebê é completamente submetido a um outro, que será responsável não só pela satisfação de suas necessidades básicas como também pela sua constituição subjetiva. Essa dependência inicial que liga o sujeito ao outro constitui a alienação.

Segundo a formulação de Lacan (1960), a alienação é própria do sujeito; ele nasce por ação da linguagem:

 

“O lugar de Outro, que a mãe ocupa neste momento, oferece significantes, através da fala; o sujeito se submete a um dentre os vários significantes que lhe são oferecidos pela mãe. O seu ser não pode ser totalmente coberto pelo sentido dado pelo Outro: há sempre uma perda. Joga-se aí uma espécie de luta de vida e morte entre o ser e o sentido: se o sujeito escolhe o ser, perde o sentido, e se escolhe o sentido, perde o ser, e se produz a afânise, o desaparecimento do sujeito” (Bruder & Brauer, 2007).

 

Segundo Lacan (1964), a alienação reside na divisão do sujeito de sua causa. O Outro é o lugar de sua causa significante, razão pela qual nenhum sujeito pode ser causa de si mesmo. Quando bebês, somos totalmente dependentes de um outro para sobreviver. Chamamos isso de desamparo original. E é neste momento em que acontece o encontro com o Outro, encontro que produzirá as primeiras experiências de satisfação. É nesse momento também que o bebê deve se alienar a esse Outro para que possa se constituir. Mas, ao se submeter a essa alienação, perde algo de si, algo que fica perdido para sempre. Mas se não se permite a alienação, também perde a possibilidade de entrar no campo da linguagem.

Ao se alienar ao desejo do Outro, o bebê fica sujeito aos desejos e anseios destes que ocupam o lugar do Outro. A mãe e o pai enxergam no bebe aquilo que ele ainda não é, mas pode vir a ser. Essa possibilidade de construção que a mãe enxerga em seu bebê é o que pode dar a possibilidade de um futuro advento de um sujeito.

Já a separação, outro tempo fundamental neste processo, implica no fato de que todo esse processo de alienação deixa um resto, uma vez que o sujeito busca no Outro aquilo que lhe falta, aquilo que ele abdicou e perdeu para se tornar sujeito. É como se o Outro pudesse sempre complementar aquilo que falta ao sujeito. A separação só pode acontecer quando o sujeito percebe que o Outro também é faltante. O surgimento da falta no Outro remete o sujeito à própria falta, ou seja, à constatação da sua impossibilidade de completar o Outro. A operação de separação é marcada pelo confronto com a falta no Outro, e, posteriormente, quando o sujeito tenta construir, no fantasma, uma resposta à falta do Outro: “O que o Outro quer de mim?”. (Lacan, 1964)

 

Na separação, o sujeito irrompe na cadeia significante, e se destaca o objeto a. Essa operação de separação permite que o sujeito encontre um espaço entre os significantes onde irá se constituir seu desejo, no que seu desejo é desconhecido; o sujeito retorna então ao ponto inicial, que é o de sua falta como tal. Isso indica que alienação e separação não são “fases” estáticas, e mostra a oscilação permanente que se verifica no sujeito entre alienação e separação, como uma alternância sempre renovada.” (Bruder & Brauer, 2007).

 

Refletindo sobre o tema

 

Vivemos na chamada “Era da Internet”, um tempo em que tudo é possível (essa é a mensagem repassada todos os dias nas propagandas, nas revistas, nos programas de TV). Entre os usuários da rede, é comum escutarmos a seguinte brincadeira: Se não está no Google, não existe. Nessa linha de pensamento, para existir na atualidade é preciso estar presente na Internet, ou melhor, é preciso ser visto. As explosões de Redes Sociais podem ser indícios dessa necessidade de marcar presença. Mas precisamos escutar o que esses fenômenos querem nos dizer para além do preconceito que Lévy nos aponta.

Ainda sim, lembrando o processo de constituição subjetiva, é importante destacar que este processo implica um movimento do sujeito para fora de sua redoma narcísica ilusoriamente auto-suficiente em direção aos objetos do mundo, movimento esse provocado pela experiência de insuficiência de seus recursos imaginários. Ou seja, o sujeito deve romper com a posição de submetimento ao Outro. O processo de socialização é resultado dessa negociação do sujeito com a cultura. Se o sujeito é constituído pelo processo de alienação e separação, a separação significa o seu movimento em direção à realidade, ao social, em detrimento da satisfação alucinatória, onipotente, imaginária.

O que tem acontecido e tem sido muito exaltado pelos psicanalistas que escrevem sobre a Internet e seus efeitos nos sujeitos, é dimensão alienante e imaginária que a Internet intensifica, mostrando seus efeitos, por exemplo, no gozo da imagem, no amor a si mesmo, nas posições subjetivas de fazer-se, com seu narcisismo, de objeto de desejo do Outro, dando a impressão de não ter falta. No momento em que o sujeito deveria se movimentar em direção a realidade, ao social, ele se dirige para a Internet, e lá ele continua numa posição alienante, pois a Internet parece preencher o lugar do Outro completo, tamponando a falta e deixando o sujeito ainda em permanente alienação a esse Outro. A partir dessa relação, não consegue prosseguir no tempo da separação e portanto fica preso em seu tempo, não se constituindo um sujeito, não se apropriando e se responsabilizando de seu desejo.

Podemos perceber essa problemática na forma com as pessoas passam dias imersos Online, fascinados pelas possibilidades de laço social que ela permite, mas sem conseguir de fato construir esses laços. Essas pessoas estão conectadas a muitas outras pessoas, mas sofrem cada vez mais de sensação de isolamento, abandono e desamparo.

Minha proposta não é apenas de apontar essa problemática já tão bem articulada por alguns psicanalistas. Retomo Levy (1999) para dizer que é impossível regredir a uma realidade em que a Internet não se faz presente. Portanto é importante pensar que a experiência dos sujeitos com a Internet nem sempre é essa que apontamos. Estamos em um momento crucial de aceitação de uma realidade para a tentativa de subversão da posição subjetiva a que as pessoas tem se colocado, admiradas, enfeitiçadas pela forma como a Internet parece prometer muitas possibilidades. Existe um movimento de algumas pessoas na utilização da internet, com um objeto que pode trabalhar a favor de uma responsabilização subjetiva. Vimos a explosão dos Blogs, por exemplo, em uma tentativa de simbolização usada não apenas por jovens, mas também por Jornalistas, Políticos e muitos outros. Assim, me parece pertinente prosseguir em uma investigação que possa nos apresentar dados de experiências diversas na Internet, de pessoas que se colocam não apenas como usuárias e consumidoras de todo um esquema social, e sim de uma ferramenta que pode trabalhar a favor da causa do sujeito.

Se hoje a Internet faz parte dos avanços tecnológicos como um meio de comunicação totalmente inserido na organização social, talvez também seja o momento de se apropriar dela como ferramenta, como algo que podemos utilizar para outros fins.  Se a Internet transformou a realidade, novos estudos se fazem necessários para a transformação de um sujeito receptor (usuário, consumidor, alienado) em um sujeito que é produtor de uma comunicação singular, processo que o caracteriza como sujeito, de fato.

 

Considerações sobre Internet e Alienação Pt 2

Por Aline Sieiro em 31/07/2011 03:22
A primeira parte deste texto está aqui: Parte 01
1. Contemporaneidade e Internet

Freud (1930), em seu artigo O mal estar na civilização, convoca os psicanalistas a se ocuparem do mal estar do homem no mundo civilizado e a se interessarem pela subjetividade contemporânea. Isso porque a psicanálise está interessada na causa da insatisfação e da angústia do sujeito com o mundo dos objetos. Essa insatisfação já havia sido notada por Freud desde então, pois sua experiência clínica o levou a pensar a tensão nas relações entre sujeito e sociedade e nas formações sociais construídas como respostas ao conflito, que acabava por acarretar mais sofrimento do que seu enfrentamento. O que muda hoje é a realidade em que esse sujeito vive. Ao estudar as modalidades do sofrimento psíquico, os sintomas, compreende-se a sociedade da qual os sujeitos fazem parte, ao mesmo tempo em que ao estudar a sociedade e suas formações compreende-se as modalidades de sofrimento psíquico presentes na história de vida dos homens, num determinado tempo histórico.

Para nos situarmos no tempo social em que vivemos atualmente, Santos (1986) nos conta que o pós-moderno nasce com a computação e oferece à sociedade muitas facilidades trazidas pelas tecnologias. Na modernidade se buscava a essência do ser e no pós-moderno as pessoas recebem tudo pronto com o advento da tecnologia. O autor defende que com a tecnologia as pessoas ficaram mais presas em suas individualidades. No plano econômico, o modelo é chamado capitalismo flexível, no qual o homem se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. Santos(1986) ainda afirma que entre os indivíduos e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, que não informam sobre o mundo e sim o refazem à sua maneira.

Freud (1930) também fala da modernidade segundo a tecnologia, que caminha junto com a sociedade no sentido de frustrar e distanciar cada vez mais os sujeitos do prazer verdadeiro que eles busca, pois proporciona benefícios que os satisfazem de forma barata, ou seja, dão uma sensação de falsa satisfação. E como a angústia é cada vez maior entre sujeito e sociedade, a tecnologia funciona como uma forma de tamponamento do sofrimento, mas nunca o soluciona por definitivo.

Mas será que essa relação entre homem e tecnologia continua a mesma? Se vivemos um período social que nasceu junto com a inserção tecnológica, como vem acontecendo o avanço dessa relação? Para começar a pensar nesta pergunta, Kaplan (1993) escreve:

 

“O desconforto do homem moderno – enquanto estreante na relação com as máquinas em profusão na pós-revolução industrial –, na pós-modernidade já não é mais identificado. O que existe é uma integração. Um homem-máquina, sem visão crítica em relação às novas tecnologias, uma vez que faz parte dela e por isso não possui distanciamento para avaliar seus efeitos. Se na Antigüidade o homem e a esfera pública eram uma coisa só, na pós- modernidade, será a vez da união entre o homem e a tecnologia.”

 

As opiniões são diversas quando o assunto é a relação entre homem e tecnologia. Lipovestky (1989) escreve:

 

“Não que a sofisticação das tecnologias não tenha auxiliado na constituição da pós-modernidade. Houve sim uma revolução do sujeito ancorada na avalanche tecnológica, mas a tecnologia não enterrou o indivíduo, apenas o tornou mais forte, um verdadeiro Narciso. O que ocorre na pós-modernidade é uma supremacia do sujeito, muito mais do que na modernidade, um aprimoramento do indivíduo que começou a se desenhar enquanto ser absoluto durante o período anterior.”

 

Homem-máquina ou Narcisos, essas pessoas se apropriaram rapidamente da Internet, que surgiu como personagem principal das possibilidades tecnológicas. Mas ao ler estas opiniões, sinto uma toque de nostalgia por parte dos autores, como se fosse  possível pensar no mundo contemporâneo sem Internet. Em relação a esta postura, Lévy (1999), discute a inserção social na internet assumindo que ela é parte do contemporâneo e não pode ser retrocedida.

Se a internet se faz presente como condição da contemporaneidade, Lévy (1999) é contudente quando diz que existe um preconceito infundado com relação à Internet, uma avaliação negativa que não leva a nada, já que as novas tecnologias da comunicação estão bem afirmadas e nada pode deter sua ação no campo antropológico. Para Lévy (1999), a Internet é mais do que uma realidade, ela é parte fundamental da nova sociedade, estando muito além da discussão sobre a validade ou não da comunicação à distância e a necessidade de preservar as diferenças. Ele complementa:

Incansavelmente, é preciso lembrar a frivolidade do esquema da substituição. Da mesma forma que a comunicação por telefone não impediu que as pessoas se encontrassem fisicamente, já que o telefone é usado para marcar encontros, a comunicação por correio eletrônico muitas vezes prepara viagens físicas, colóquios ou reuniões de negócios. Mesmo quando não é acompanhada de encontros, a interação no ciberespaço continua sendo uma forma de comunicação. Mas, ouvimos algumas vezes dizer que algumas pessoas permanecem horas “diante de suas telas!”, isolando-se assim dos outros. Os excessos certamente não devem ser encorajados. Mas dizemos que alguém que lê “permanece horas diante do papel?” Não. Porque a pessoa que lê não está se relacionando com uma folha de celulose, ela está em contato com um discurso, uma voz, um universo de significados que ela contribui para construir, para habitar com sua leitura”  (Levy, 1999, p. 162).

 

Em um primeiro momento, essa afirmação de Lévy pode soar utópica. Mas se voltamos a pensar na singularidades das experiências, parece importante pensar que cada pessoa utiliza a internet a sua maneira, e com isso existem diversas possibilidades nesta relação. Inclusive se começarmos a olhar a Internet em termos de funcionalidade, com tudo que ela proporciona (leitura de livros, escrita de textos, central de notícias e etc.), começaremos a abrir um campo de possibilidades. Se muitos psicanalistas defendem que a internet acentua o narcisismo dos sujeitos, não é por isso que devemos nos distanciar e deixar de pensar numa realidade sem ela. Ao contrário, podemos pensar nas possibilidades que podem ser construídas quando não nos deixamos engolir pela pulsão narcísica.

É claro que não se podemos negar a existência de um caráter extremamente narcisista na contemporaneidade. Por isso vamos pensar um pouco sobre esse o processo de constituição subjetiva e no que ele é impactado pela Internet.

Continua….

Parte 3 chega já já.

Considerações sobre Internet e Alienação Pt. 1

Por Aline Sieiro em 29/07/2011 01:57

Parte 01

Escrever sobre Internet pelo viés da Psicanálise deixa a sensação de pisar em terreno pantanoso. Nomeio como pantanoso esse campo, esse (des)encontro, porque os psicanalistas que escrevem sobre esse tema parecem se posicionar numa escrita cuja perspectiva é negativa, apontando apenas os problemas. Mas me percebo neste lugar em que utilizo muitos recursos da internet e ao mesmo tempo estou imersa no campo da psicanálise clínica e teórica. A partir desse encontro de campos, me sinto instigada a pensar essas questões, pois acredito que não fazê-lo seria como ignorar um dos aspectos pontuais da atualidade. Jovens e crianças, a quem chamamos de “nativos” usuários da internet e da tecnologia vivem uma realidade que já pressupõe esses dois campos em suas vidas.

Muitos textos psicanalíticos falam das impossibilidades na Internet: são artigos diversos que teorizam sobre a alienação que a Internet promove. Nesse sentido, podemos pensar que a internet ocupa o lugar do Outro ao qual o sujeito permanece alienado? Se propomos uma análise sob o enfoque da experiência pessoal, tão singular quanto ela pode ser para cada sujeito, será que a internet é alienante para todos? Incentivada por essas questões, desejo problematizar a relação entre a alienação na  internet para, posteriormente, refletir sobre a possibilidade de um sujeito do desejo utilizador da Internet.

É importante destacar o lugar teórico de onde começo e que dá suporte a toda essa discussão. Parto de um pressuposto psicanalítico calcado na impossibilidade de um saber sobre tudo. Entendo que essa possibilidade de tudo ter e fazer que a nossa sociedade tecnológica vende pretende apenas tamponar uma falta, uma impossibilidade que é inerente a condição humana. Maria Rita Kehl (2003) nos alerta para os impasses no trato com a tecnologia:

 

“A velocidade vertiginosa em que novas tecnologias de mídia eletrônica são lançadas o mercado, cada qual com a pretensão de tornar obsoletas todas as anteriores, faz com que muitos teóricos dessa área considerem também obsoletos os conceitos utilizados para pensar a sociedade contemporânea. Não compartilho da crença nessa obsolescência dos conceitos. Por um lado, ela me parece um efeito de alienação: sentimos que nossos recursos críticos ficam obsoletos na medida em que a propaganda dos poderes da tecnologia faz com que acreditemos que cada nova invenção é realmente capaz de arrasar todo o passado e nos projetar em direção a um futuro absoluto. Nós, pensadores e críticos da sociedade contemporânea, somos também presas desse temor de nos tornarmos obsoletos, de ver as categorias do nosso pensamento ser ultrapassadas pela velocidade das inovações tecnológicas” (Kehl, 2003).

 

Destaco assim a importância de tomar a psicanálise como um conhecimento que não pretende produzir respostas a um certo positivismo e produtivismo social e tecnológico, até mesmo científico. Se me sustento em algum saber, é exatamente no não saber, na impossibilidade de produzir verdades absolutas. Portanto, não pretendo deixar de lado os conceitos fundamentais da psicanálise, que está longe de ser obselta. Pelo contrário, estes conceitos cada vez mais nos ajudam a acompanhar as mudanças sociais e refletir sobre os novos sintomas e novas formas de laço social. Este texto é apenas uma tentativa de circunscrever esse campo que é a Internet.


Continua…

Esse texto tem mais duas partes:

Parte 02

Parte 3

 

Eventos Segundo Semestre 2011

Por Aline Sieiro em 26/07/2011 23:41

Estou passando rapidamente para lembrar dos maravilhosos eventos que teremos nessa segunda metade do ano. Eu estarei presente em apenas um deles mas confesso que gostaria de participar de todos.

O primeiro acontece em Curitiba entre os dias 24 e 27 de agosto. É o Congresso Internacional sobre o autismo: Prevenção, Intervenção e Pesquisa. Psicanalistas de peso estarão presentes, como Angela Vorcaro, Alfredo Jerusalinsky e Marie-Christine Laznik. Não dá mais para submeter trabalhos mas ainda é possível efetuar a inscrição como ouvinte. Durante o congresso acontecerão cursos com esses profissionais e por isso o valor das inscrições depende do conjunto de cursos que você deseja se inscrever. Mais informações no site: http://www.congressoautismo.com/index.html

Na seqüência, entre os dias 29 2 31 de agosto, acontece o CONLAPSA: I Congresso Latino Americano de Psicanálise na Universidade. Ele será no Rio de Janeiro e também terá Psicanalistas de peso como Sonia Alberti, Antonio Quinet, Marco Antonio Coutinho Jorge, Luciano Elia e muitos outros… O prazo para submissão de trabalhos terminou, mas ainda é possível se inscrever como ouvinte. Mais informações no site: http://www.conlapsa.com.br/

De 27 a 29 de outubro lá em Salvador vai acontecer o II Congresso Internacional de Psicanálise: A criança e o adolescente no século XXI. Nesse também não é mais possível submeter trabalhos mas ainda é possível se inscrever como ouvinte. É confirmada a participação da Psicanalista Marie-Christine Laznik nesse evento também. Mais informações: http://www.cipsicanalise2011.com.br/event/cip2011/site/content/bem-vindos

Dos dias 04 a 06 de novembro, em Salvador, vai acontecer o XII Encontro Nacional da escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano EPFCL. O tema desse ano é “A lógica da interpretação”. Com muitos Psicanalistas presentes, também vai contar com a presença do AME Marc Strauss (Paris).

No final do ano, entre os dias 09 e 11 de dezembro, acontecerá em Paris o III Encontro Internacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Mais informações no site: http://www.champlacanien.net/public/4/evRencEcole.php?language=4

E assim vamos produzindo e transmitindo a Psicanálise pelo mundo.

Reforma Psiquiátrica e clínica da psicose: o enfoque da Psicanálise

Por Aline Sieiro em 21/07/2011 00:02

Essa palestra foi proferida pelo convidado Prof. Dr. Fuad Kyrillos Neto no mês de Julho, na Universidade Federal de Uberlândia. Convidado pelo Eixo da Intersubjetividade do Programa de Pós Graduação em Psicologia da UFU, o professor falou sobre Reforma psiquiátrica e clínica da psicose: o enfoque da psicanálise.


“Prof. Dr. Fuad Kyrillos Neto possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993), mestrado em Psicologia pela Universidade São Marcos (2001) e doutorado em Psicologia (Psicologia Social) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007). Atualmente é professor adjunto I do Departamento de Psicologia Clínica e Sociedade da Universidade Federal do Triângulo Mineiro – UFTM. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: clínica, subjetividade, psicanálise, reforma psiquiátrica, inclusão, escuta e instituições” (Lattes)

 

*O gravador estava com problemas no dia da gravação e o audio não ficou muito bom, bem baixo. Mas é possível escutar. Espero que possam aproveitar porque a palestra foi muito boa.

Olha o que eu olho: perceber é conceber, criar.

Por Aline Sieiro em 04/07/2011 21:14

* Esta reportagem foi publicada no Jornal Significantes, em sua primeira edição (Maio/Junho 2011).

Por Aline Sieiro

A professora Anamaria me chamou atenção desde o primeiro dia em que a conheci, na minha entrevista de seleção do mestrado. Alguma coisa no seu jeito amável, na sua voz suave me deixaram tranqüila e ao mesmo tempo curiosa, instigada. Tempos depois, já na disciplina de Métodos de Pesquisa em Psicologia, no Mestrado, tivemos a oportunidade de ter duas semanas de aulas com ela. Me surpreendi com o jeito sedutor que ela apresentava a Psicanálise para alunos de diversas áreas. Achei de uma sensibilidade imensa a forma como ela apresentava o seu trabalho e a Psicanálise para todos nós.

Naqueles encontros, percebemos o valor que ela dá para a experiência e em como se envolver no que fazemos de forma a transformar e estar sempre criando e cultivando vínculos. Em certo momento, os alunos puderam compartilhar uma experiência de suas vidas, e toda a sala ficou muito emocionada com a oportunidade de produzir um momento de vínculo, reflexão e muita emoção.

Quando pensei na possibilidade de produzir uma entrevista para o Jornal, convidei algumas pessoas, mas a oportunidade de abrir este espaço com a fala da professora Anamaria fez muito sentido. Me parece importante conhecer um pouco mais de alguém que tem o desejo de nos incentivar e motivar para algo mais. Me parecia interessante também reparar nessa união que por vezes parece contraditória, entre uma pesquisadora tão sensível e um tema de pesquisa tão perturbador como é a violência. Como trabalhar com violência e ainda ser tão sensível aos outros, preocupada e atenciosa? Começo a acreditar que esse é o caminho, não tão contraditório assim…

Apresento aqui o áudio da entrevista. Como sempre, o tempo é curto e as perguntas são muitas, por isso deixamos vocês com gostinho de quero mais…

(Quem quiser o a versão online do Jornal – com a reportagem escrita – deixe um comentário com o email que eu envio. Ainda não estamos com o site do jornal ativo, aviso assim que estiver).

Podcast Episódio 08 – Blog Associação livre: Produção de texto na internet

Por Aline Sieiro em 24/06/2011 16:57

Demorei mas retornei. E volto logo com o audio de uma fala que fiz no curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia, em que fui gentilmente convidada pela Profa. Cirlana. A temática era a produção de texto, e no meu caso fui convidada para falar sobre a produção de textos para a internet. Espero que gostem de escutar um pouco da história do meu blog e de como acontece a produção das escritas do meu texto.

Links de textos comentados durante o podcast:

Música do Podcast: B.W.O.J. – The D.O.

Qual será seu próximo remédio?

Por Aline Sieiro em 20/05/2011 06:18

O desejo de encaixotar os sentimentos, a moral e a ética não é novo. E agora dá as caras nas embalagens de remédios que rodam na internet com palavras como Juízo, Desapego. Brincadeirinhas (ou chistes – como diria Freud), nos contam um pouco do desejo de uma sociedade que, em formato jocoso, mostra a cara.

 

Vivemos um momento em que, para todo problema mental, existe uma cura a partir de um remédio indicado. Assim, não é de se estranhar que queiram achar uma pílula que sirva para colocar juízo na cabecinha das pessoas. Mas, ainda bem que não chegamos a esse ponto. E me pergunto, até quando? Porque hoje é apenas uma questão de tempo para que a indústria farmacêutica produza novos sintomas, redefina situações que necessitem de um remédio, que claro, eles já tem em estoque nas farmácias.

Pra tudo hoje temos um transtorno associado – DSM tá ai para nos mostrar isso. E para cada um deles, tempos pelos menos três remédios de indústrias distintas. Tá com dor de cabeça? Remedinho pra vc. Tá com saudade de alguma coisa que nunca existiu? Remedinho para você? Seu amor faleceu ontem? Outro remedinho para voce.

A Psicanálise ainda sustenta que viver é estar o tempo todo fazendo laço, ou seja, criando sentido para o absurdo que é viver. Mas, como criar sentido se nos espaços em que isso se faz possível, há sempre um remedinho esperando por você? Os remedinhos alimentam essa ilusão social de que é preciso ser feliz vinte e quatro horas/sete dias por semana, e essa felicidade é um ideal possível. Até quando vamos desejar ser escravos de uma ditadura do gozo? Quando as pessoas terão coragem para desejar, com toda dor e com todo prazer associados?

“O doce não seria tão doce se não fosse pelo amargo”. (Filme Vanilla Sky)

A partir dos tropeços, dos “entre”, é que os sujeitos e seus desejos podem advir. Então, faço um apelo: parem de repassar informações sem conteúdo. Não sejam meros reprodutores dessas “brincadeirinhas” que ajudam a alimentar um idéia repressora da singularidade e do desejo. Não tenham juízo. Tenham ética: a ética do seu desejo, tão particular quanto ele pode ser.

 

A importância do circuito pulsional na prevenção precoce do autismo

Por Aline Sieiro em 07/05/2011 22:27

Este texto* saiu da minha leitura do livro: “A voz da Sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito” - Marie-Christine Laznik. Faz parte também do que estará presente na minha dissertação de Mestrado. Lá, investigo como se dá a constituição subjetiva de crianças com deficiência visual congênita.

(*não posso nem chamar de texto, seria mais um corte bem grosseiro, ainda.)

As pessoas sempre ficam buscando os culpados e as causas do autismo, depois que ele já está instalado. Outro dia falaram até mesmo da busca pela explicação genética. Laznik nos mostra que pode até ser possível encontrar causas orgânicas, mas questiona como isso pode mudar alguma coisa depois que a situação já está instalada. E mais, explica que biológico e psíquico não se opõem.

Laznik defende também a impossibilidade de determinar uma possível culpa, ainda que muitas pesquisas e autores sustentem muitas hipóteses que caminhem para esse sentido. Em geral se culpa a mãe, mas essa culpa em nada ajuda a entender e prevenir a instalação de um funcionamento autista.

Não é que uma mãe não vê que seu bebê não a olha, ou que lhe faltou o olhar fundador do Outro primordial. Os filmes familiares mostram o estado de petrificação em que suas mães se encontravam. (…) Um bebê que não responde, que não busca sua mãe, pode fazer com que ela acabe por cuidar dele de forma maquinal, como as enfermeiras em hospital. Hoje diria que certos bebês não se deixam enganar por nenhum apelo carinhoso, como se percebessem, cedo demais, a intrínseca ambivalência de todo amor.

Acredito cada vez menos numa depressão materna como fator central desencadeante do autismo (…) a fragilidade de tal bebê também deve ser levada em conta na desorganização que possa ter suscitado em sua mãe no tempo do pós-parto. A não resposta de um bebê pode desorganizar sua mãe.

A importância da voz já está presente, está em ação meses antes do nascimento propriamente dito. (…) A voz é primeira e comanda o olhar, e não o inverso. (…) Haveria no manhês, empregada por aquele que está em função do Outro primordial, uma dimensão irresistível, que até mesmo um futuro bebê autista não poderia deixar de responder. Isso pode ser algo que determina a alienação radical do pequeno homem ao desejo do Outro.

Do ponto de vista psicanalítico, o autismo pode ser considerado uma tradução clínica da não-instauração de um certo número de estruturas psíquicas que, por sua ausência, só podem acarretar déficits de tipo cognitivo, entre outros. Quando estes déficits se instalam de maneira irreversível, podemos falar de deficiência. Esta deficiência seria então a conseqüência de uma não instauração das estruturas psíquicas, e não o contrário. (…) É ai que podemos intervir, e que podemos falar de uma prevenção possível da instalação de um funcionamento autística. 

Fazer intervenção quer dizer intervir no laço pais-criança. A síndrome autista clássica, segunda Laznik, é uma conseqüência de uma falha no estabelecimento deste laço, sem o qual nenhum sujeito pode advir.

Privilegio a detecção de dois sinais maiores: inicialmente o não-olhar entre bebê e sua mãe, sobretudo se esta mãe não parece se dar conta disso; de outra parte o que eu chamo de fracasso do circuito pulsional completo.

O olhar do Outro primordial como constituitvo do eu e da imagem do corpo: o não olhar entre uma mãe e seu filho, sobretudo se a mãe não se apercebe disso, constitui um dos sinais que permitem pensar, durante os primeiros meses de vida, na hipótese de autismo – as estereotipias e automutilações só aparecem no segundo ano. Se este não-olhar mais tarde não evoluir para uma síndrome autista caracterizada, é sinal, em todo caso, de uma dificuldade maior no nível da relação especular com o outro. Sem uma intervenção nesse momento, o estádio do espelho não e constituirá, ou pelo menos não convenientemente. (…) Lacan (1936) nos fala da importância do estádio do espelho, momento em que a criança se vira para o adulto que a sustenta, que a carrega e pede-lhe confirmação, pelo olhar, do que ele percebe no espelho como uma assunção de uma imagem (…) é essa imagem que vai dar ao bebê seu sentimento de unidade, sua imagem corporal, base de seu relacionamento com os outros, seu semelhantes.

O que vem a se constituir para o bebê mais tarde a vivência do seu corpo, supõe uma articulação complexa entre sua realidade orgânica e o que eu chamo de olhar dos pais. Este olhar não se confunde com visão. Trata-se sobretudo de uma forma particular de investimento libidinal (…) uma ilusão antecipatória onde eles percebem o real orgânico do bebê, aureolado pelo que ai se representa, aí ele poderá advir. Mas o que chamo de olhar é também o que permite à mãe escutar de início nos balbucios do bebê, mensagens significantes que ele fará suas mais tarde. Ver e escutar o que ainda não está para que um dia possa advir.

Mas só o sinal desse não-olhar não basta por si para falar de um possível autismo. Há um segundo sinal, que Laznik chama de a não instauração do circuito pulsional completo. Mas para entender o que é isso, precisamos primeiro entender como funciona o conceito de pulsão para Freud. Pulsão não é necessidade. Para Lacan (1964), o que se refere a pulsão não é do registro do orgânico. Lacan (1964): a pulsão alcançando seu objeto, percebe de algum modo que não é por ai que ela se satisfaz (…), porque nenhum objeto (…) da necessidade pode satisfazer a pulsão (…).

 

Os três tempos pulsionais

Freud descreve o trajeto pulsional em três tempos. (…) Num primeiro tempo, que Freud chama de ativo, o bebê vai em busca do objeto oral (peito, mamadeira) para dele apoderar-se. Ele captura o peito, ela busca e se apossa do peito. Isso é fácil de ser visto por médicos nos exames clínicos.

O segundo tempo do circuito pulsional é também o objeto da atenção particular de um médico atento: ver se o bebê tem uma boa capacidade auto-erótica, se ele é capaz em particular de chupar sua mãe, seu dedo ou então uma chupeta. (…) Chamamos isso de experiência alucinatória de satisfação, intimamente ligada ao auto-erotismo.

O terceiro tempo do circuito pulsional chamamos de satisfação pulsional. Nele, a criança vai se fazer de objeto de um novo sujeito. (…) A criança se assujeita a um outro, que vai se tornar o sujeito da pulsão do bebê. Haveria ai, no nascimento mesmo da questão do sujeito no ser humano a forma radical de uma alienação. E como podemos verificar esse momento, que aliás, é o momento que escapa da avaliação clínica de medicos e muitos profissionais? É o momento em que o bebê coloca seu dedo (do pé ou da mão) na boa da mãe, que vai fingir comê-lo de maneira prazeirosa. Esse jogo que se coloca entre mãe-bebe não pretende saciar uma necessidade orgânica qualquer. É uma passividade aparente do bebê, que, na verdade, busca fisgar o gozo do Outro materno. Ele se faz comer pelo outro, ou seja, ele se faz objeto.

A pulsão não é necessidade (…) a pulsão se satisfaz pelo fato de que este circuito gira e de que cada um dos tempos tornará a passar um infinito número de vezes. Nós só podemos estar certos do caráter verdadeiramente pulsional dos dois primeiros tempos, na medida em que tivermos constatado o terceiro. Isso porque o segundo tempo pode enganar. Acontece de um bebê chupar chupeta ou o próprio dedo, mas não existir nada de auto-erótico nesses movimentos. Só podemos falar de um verdadeiro auto-erotismo se a dimensão de representação do Outro, e mesmo do seu gozo, se inscreveu sob a forma de traço mnêmico no aparelho psíquico da criança.

Nesse momento, pouco importa se a causa da não instauração deste terceiro tempo do circuito pulsional vem da dificuldade constituitva da criança que não procura ativamente o Outro, ou se o problema está na falta de resposta daquele que ocupa o lugar do Outro primordial. Há falhas nos dois casos. E é ai que entra o psicanalista, que pode perceber esse movimento relacional e a partir dai trabalhar com mãe-bebê, para que o circuito pulsional completo se estabeleça.

Podemos intervir no registro psíquico. É o que chamamos de prevenção possível.

Para finalizar, é importante destacar aqui a diferença entre psicose e autismo. Esse terceiro tempo pulsional de encontra sempre presente no bebê que apresentará mais tarde uma psicose infantil. Este bebê se assujeita facilmente a sua mãe (…) o problemático para ela é conhecer o limite deste gozo. (…) O que fracassa é sobretudo (…) a função separadora produzida pela metáfora paterna. (…) Em caso de perigo de evolução autística, não é disto que se trata, mas do fracasso no tempo da própria alienação.

 

O que pode fazer um psicanalista fora da clínica?

Por Aline Sieiro em 17/04/2011 17:22

Tenho pensado muito e tentado teorizar algo sobre a questão dos Atendimentos Online e a Psicanálise, que relação seria ou não seria essa. Penso também na forma como a Psicanálise parece estar dividida na seguinte dicotomia: um lado extremamente ortodoxo (chegando a “cortar os pés do paciente para caber no divã”); e outro lado cuja teoria é tão mal interpretada, de forma extremamente contraditória e com um fim objetivo outro (a discussão da SPOB e da psicanálise exercida por padres).


Relembrei de toda essa discussão enquanto lia esse texto da Maria Rita Kehl. Recentemente ela apareceu muito na mídia por causa da história com o Estadão. E esse texto parece que sai também de sua experiência com o a mídia e o jornal. Me lembro de uma ocasião, em um grande evento psicanalítico em SP (2008), em que os psicanalistas saíram de uma palestra dela dizendo que ela não era psicanalista, que aquilo que ela fazia não era psicanálise. Assim, sempre a admirei também por enfrentar certas posturas ortodoxas e pequenas, seja no próprio meio psicanalítico ou na mídia, seu local de trabalho.

 

A psicanálise não é uma teoria aplicada à clínica e/ou aplicável para explicar todas as bizarrices de que o humano é capaz. Antes de mais nada, a psicanálise (assim como seu irmão gêmeo em importância, no século XX, o materialismo histórico) não é uma teoria aplicável, é um método investigativo – que parte, evidentemente e assim como o dispositivo marxista, de hipóteses teóricas razoavelmente bem fundamentadas.

(…)

O melhor que um psicanalista pode fazer, na imprensa, é quase idêntico ao melhor que pode fazer um jornalista bem vocacionado: investigar. A diferença está no instrumental de que cada um dispõe, e não no destino do texto. Investigar a história (marxismo), os “fatos” (jornalismo), as motivações e/ou as conseqüências silenciadas de um fato (psicanálise).

 

No texto, quando ela diz que a psicanálise é (além da prática clínica) um método investigativo, sinto que é isso que vem se apagando e se perdendo entre os defensores de certa postura única, a tal psicanálise pura. O que diriam Freud e principalmente Lacan nesse momento histórico da psicanálise em que ela parece cindida: de um lado tão “pura” e de outro tão “perdida”, com diversos bons profissionais vagando entre essas realidades, mas cujos caminhos são solitários, acontecem em pequenos grupos, pequenas discussões, pequenos textos encontrados ao acaso em artigos, textos e entrevistas. Mas é preciso tomar tanto cuidado ao defender essa postura, para não pender também para o outro lado da balança, que vende outra coisa com o nome de psicanálise.

Chego a uma conclusão ainda muito parcial de que o que sustenta uma prática investigativa está diretamente ligado a uma ética profissional,  nesse caso, a ética da psicanálise. É preciso conversar mais sobre a utilização da psicanálise em outros meios, e isso pede por uma discussão ética.


“A ética consiste essencialmente num juizo sobre nossa ação” – Lacan (Seminário 7)

 

Vamos conversar mais sobre a Ética em Psicanálise. Por ora, deixo vocês com duas indicações de leituras sobre o tema:

Sobre Ética e Psicanálise – Maria Rita Kehl

Seminário 7, A Ética em Psicanálise – J. Lacan