Mês: outubro 2009

A inclusão e nossos limites pessoais

As pessoas têm seus limites. Acredito que elas fazem o que podem, diante das situações, e por isso sempre fazem o seu melhor. O melhor delas pode não ser o que se espera que façam, mas isso não siginifica que não estão se esforçando. Analisar as ações do outro baseados na nossa realidade e no nosso pré-julgamento não adianta nada nesses casos. O nosso máximo esforço pode ser muito diferente do máximo esforço do outro, e ao nossos olhos pode parecer que os outros não se esforçam. Mas isso é sempre um engano. As pessoas sempre dão o melhor de si, mas o melhor de cada um é sempre muito diferente.

Quando lidamos com criancas com deficiências, rapidamente entramos em contato com os nossos limites, e nossa habilidade de julgar o outro baseado na nossa realidade. E por isso que a inclusão é tão dificil, e por isso tem sido tão falha. Como podemos entender a realidade do deficiente visual, quando enxergamos perfeitamente? Como podemos entender as dificuldades diárias, nas atividades do dia-a-dia, nas atividades escolares, quando nossa vida é completamente diferente?

Alguns profissionais desenvolveram cursos e materiais que possibilitam uma espécie de vivência. Os pais, professores e interessados passam o dia com olhos vendados ou com um óculos que simula a forma como eles enxergam. Se colocarmos no papel o número de interessados em fazer esse curso, em relação as pessas que trabalham com educação e deficiência visual, o número desanima. A verdade é que nem todos estão dispostos a sair de seus confortáveis lugares e passar um dia que seja vivendo a realidade de outro, e suas dificuldades. Isso tudo mexe muito na psiquê de cada um, e nem todos aguentam o tranco.

Tudo isso nos faz voltar ao início de tudo, que é, cada um faz o que pode, cada um faz o seu melhor, mas não necessariamente esse melhor é o melhor para o outro. As minorias têm que se adequar a todo um mundo diferente e muito mais difícil do que a realidade delas.

A inclusão não funciona, porque ela não é só externa. Não é só a forma como o professor age com o aluno, como a escola disponibiliza ou não material didático para os alunos. A inclusão começa dentro de cada um. E isso não é fácil pra ninguém. Abandonar concepções que muitas vezez acompanham a pessoa por toda uma vida não é nada fácil, quando se tem tantas certezas, e poucas dúvidas, questionar parece muito dolorido e desnecessário.

Para incluir, temos que julgar menos, temos que sair da nossa zona de conforto, sofrer um pouco, questionar mais, se colocar mais no lugar do outro, mas não partindo da nossa realidade, e sim partindo da realidade do outro. Quando fazemos esse movimento, não obtemos muitas respostas, mas construimos mais perguntas, e assim começamos vagarosamente a mudar algo dentro de nós mesmos. Essa é a pequena semente, do começo de um processo que poderá se tornar inclusivo.

Utópico? Na realidade social de hoje parece que sim. Mas quando olhamos o trabalho de centenas de pessoas que lidam com a questão da inclusao por paixão (ou necessidade), ai percebemos que nada é impossível quando se quer. O duro é querer. E ainda não temos a capacidade de fazer o outro desejar os nossos desejos. E isso também não nos dá direito de julgá-lo. Só nos coloca numa posição delicada. Ter empatia é muito difícil, super delicado, e por vezes frustante, porque não tem nada a ver com justiça.

Tenham em mente: incluir não é só encher a escola de materiais novos. também não é somente aumentar letras e disponilibizar livros em braile. Não se trata de empurrar para frente o aluno deficiente, no sentido de fazer menos para que ele passe mais fácil. O aluno deficiente visual é tão inteligente quanto qualquer outro aluno, só precisa de uma outra realidade para se desenvolver. A inclusão começa quando nos interessamos em descobrir quais são as diferenças do outro, como eles lidam com isso, e se tenho interesse em ser algum tipo de facilitador para seu processo de aprendizagem/desenvolvimento.

Querem nos calar

Querem nos calar

only-silence-06g

Na internet todos temos  direito de expressar nossas opiniões. Ou deveríamos. Por isso tivemos explosões de blogs/ páginas pessoais, redes sociais. Todo mundo queria falar alguma coisa sobre qualquer coisa. Todo mundo queria ser ouvido. Até que as pessoas começaram a se ler, ou melhor, ler o que os outros estavam dizendo por ai.

Com tantas opiniões diferentes, a moda agora é discordar. É apontar no discurso do outro todas as falhas que ele deixa transparecer, seja sobre sua personalidade, seu caráter, ou sobre qualquer outra coisa menor. Se você é a favor do Lingerie Day, um bando de gente vai apontar o dedo, criticar, rir da sua cara, dizer que você é menos humano, burro ou ingênuo. Se você é contra o Lingerie Day, outra patotada de gente vai dizer que você é menos humano, burro ou ingênuo. Se você é a favor do Polanski, vão querer te convencer que você está errado. Se você é contra, outra metade vai dizer que você não é ponderado. Resumindo: ter uma opinião e divulgá-la na internet te torna uma pessoa com problemas. Ser contra ou a favor de algo te coloca na berlinda.

Outra moda é falar mal da classe média. Eu e o Rodrigo (@cheapo) estávamos conversando sobre isso outro dia. A culpa é da classe média por tudo: ela é culpada pelo trânsito, pela fome, por pagar seus impostos em dia ou atrasado, por não colocar seus filhos na escola pública e lutar pela educação, etc, etc. Antes era moda falar mal da classe alta, e antes disso da classe baixa. Mas o fato é que a culpa sempre ter que ser só de uma parte das pessoas, nunca de todas. (Esqueci que somos divididos entre mocinhos e vilões, e alguém tem que ser o vilão para que eu possa ser o herói ou a mocinha.)

O fato é que não podemos ter uma opinião, principalmente se ela for diferente da de alguém. Há o grupinho das pessoas que querem te calar, porque a verdade é que ninguem gosta da diversidade. Ninguem gosta de opiniões contrastantes. Deveriamos ser todos iguais. E tem um bando de gente ai na internet pra encher teu saco se você é diferente e insiste em argumentar sobre isso.

A internet reproduz o que acontece na sociedade já faz tempo: felizes são aqueles que se calam, pois esses não são julgados, não são usados como símbolo do mal/bem, não são atacados/idolatrados ou almadiçoados/abençoados. Feliz é aquele que não tem opinião, ou não tem coragem de defendê-la. Mais felizes ainda são aqueles que ficam no computador, sentados, esperando alguém divulgar uma opinião e defendê-la. Estes estão sedentos por alguém para apontar, criticar, rir e julgar. Desses e dos quietos temos muitos.

Ter opinião não é fácil. É necessário crítica pra não entrar na dos outros sem nem saber porque. Mas, precisa ter peito mesmo é pra dizer sua opinião e sustenta-la. Mais peito ainda para, eventualmente, perceber que estava errado e voltar atrás. Num mundo onde muitas pessoas estão antenadas para quem será o proximo alvo a ser apontado, você  que sustenta sua postura e assume seus erros, você pode ser a próxima víitima.

Obs.1: Somos divididos em rebanhos, não é mesmo? Há o rebanho dos sem opinião (ou sem coragem) e o rebanho do vamos apontar dedos e falar mal disso agora. Nao querer participar de um rebanho te deixa sozinho, e isso te deixa vunerável.

Obs 2: Ninguém é totalmente inocente: quantas vezes nós mesmos entramos  no rebanho dos que não aceitam opiniões diferentes, e ficamos apontando as falhas do outros? A mudança sempre começa em casa, por nós mesmos.

© 2026

Theme by Anders NorenUp ↑