Mês: agosto 2009

Não ao desenvolvimentismo

É muito mais difícil do que se imagina sair do ciclo vicioso que entramos na onda do capitalismo. Em geral, sou contra esse tipo de vídeo, pois costumam ter argumentos furados e ficam muito próximos daquela coisa de auto-ajuda, utópica. Mas esse vídeo, em particular, gostei bastante. Não é curtinho, mas assistam, vale a pena.

 

Síndrome de Tourette

Ainda falando do filme Phoebe in Wonderland, afinal o que ela tem é ST, aqui vão uns links muito bacanas sobre o assunto, pra quem quiser saber mais:

Aqui tem um artigo muito completo sobre o que é a ST, e abaixo um trailer de um documentário bacana sobre o assunto.

 

Phoebe in Wonderland

Phoebe in Wonderland é um filme daqueles de pega a gente pelo pé. Você pensa que vai assistir um filme simples, e se impressiona com a multiplicidade e complexidade dos assuntos abordados de uma só vez.

O filme conta a história de uma menina diferente, e como o modo de ser dela toca cada uma das pessoas a sua volta: seus pais, sua irmã, seus amigos e professores na escola. Dizer isso é simplificar demais o que está por traz do filme. No fundo, o filme fala do complexo de édipo. Fala da dificuldade dos pais em lidar com a castração, com a educação dos filhos, e como lidar com a relação de casal. Fala também de educação, da dificuldade em inserir as pessoas diferentes no meio social e escolar.

Enquanto uma mãe e um pai tentam desesperadamente entender porque sua filha é diferente, e que culpa eles tem nisso, também tentam ajudá-la na sua interação escolar, e tentam resolver as questões de casal entre eles. Assistam!

 

 

…

“ – BEM-VINDOS

– A próxima regra é: "’Jenny Bom Trabalho’ faz perguntas só quando for a hora de fazer perguntas".

– Como saberemos quando é a hora de fazer perguntas?

– O que acabei de dizer sobre fazer perguntas?

– Mas…

– Pode perguntar quando puder fazer perguntas quando for a hora de fazer perguntas.

– Hein?

– Nessa sala de aula, temos algumas regras. São as mesmas regras que tivemos ano passado.

– Isso é uma pergunta?

– Turma, qual é a regra sobre fazer perguntas?

– O que sabemos sobre ‘Jenny Bom Trabalho’?

– Ela merece uma morte lenta e dolorosa.”

…

 

“ – Se você quiser voltar ao trabalho, posso terminar aqui. Quanto ao que eu disse… No jantar.

– Não temos conversado, não de verdade.

– Me desculpe.

– Converse com ela.

– Eu conversei. E tenho conversado, e ela diz que está bem, mas eu não acho.

– O que você disse, aquelas palavras…

– Eu sei.

– Não quer conversar comigo agora.

– Peter, eu estou irritada, muito irritada.

– Entendo.

– É, estou irritada por você ter dito aquilo. Estou irritada porque você a magoou. Deus, eu só… Estou irritada porque eu queria que ela fosse diferente, e estou irritada porque ela é diferente. Estou irritada porque ela age daquele jeito, porque ela é infeliz, e eu sei porque ela é infeliz e eu não consigo fazê-la feliz, mas aquela professora
esquisita consegue.  E estou irritada por me culpar do jeito que ela age. Estou irritada porque penso em mães apenas como mães, e estou irritada por me importar se sou uma boa mãe. Estou irritada porque quando você disse aquilo para ela, eu sei que você estava certo. Eu não agüentaria outra como ela. Estou irritada porque não estou escrevendo, e estou irritada porque um dia terei 70 anos e só terei minhas filhas porque eu não terei mais nada porque eu não fiz nada importante. E estou irritada porque,
às vezes… não tenho medo de nada disso porque as minhas filhas me mantêm viva. Elas me mantêm viva.”

…

 

“ – Pensei que eu pudesse ajudá-la. Pensei que era eu, porque… Eu… não… Por favor, me deixe terminar, por favor. Porque eu me aborreço com elas… e fico com raiva, com tanta raiva, que tenho vontade de sacudi-las.

– E você acha que é a única mãe que se sente dessa forma? Nada disso é culpa sua. Mas por que você não me disse?

– Porque eu não queria que ela fosse…

– O quê?

– Inferior.”

As estruturas infantis

De forma bem generalizada, dividimos as estruturas psíquicas a partir da castração, em Neurose, Psicose e Perversão. Todos somos algum desses, e o que chamamos de normal seria a Neurose. Todos então, no mínimo, somos neuróticos. Cada estrutura dessa tem seus subtipos, por exemplo no caso da neurose os obsessivos, no caso da psicose os esquizofrênicos, enfim, cada uma dessas estruturas tem suas características e subdivisões, que não vou me apegar aqui pois só um delas daria um livro.

A questão de hoje caminha pra outro lado, que são as estruturas na infância, e como a gente se torna uma coisa ou outra. Alguns autores defendem que somos uma estrutura dessas, e não existe cura pra isso. Seremos parte da estrutura durante todo vida, e o trabalho de análise seria aprender a não entrar em crise, ou lidar com as crises, cada um em sua estrutura, aprendendo a lidar com as dificuldades de cada uma delas ao longo da vida. Outro autores defendem que somos prioritariamente parte de uma estrutura, mas podemos também transitar por outras ao longo da vida, já que somos sujeitos, e por isso não estaríamos presos a estruturas assim tão enfaticamente, pois cada sujeito tem sua singularidade mesmo dentro de uma estrutura. Lacan acredita ser importante saber de qual estrutura o sujeito transita, para efeitos da análise, como proceder, como trabalhar, como ajudar.

Mas em uma coisa todos concordam: a estruturação do sujeito ocorre na infância. É nessa fase que a criança se encaminha para a neurose, para a psicose ou para a perversão. Muitos estudos se desenvolveram a partir disso, pensando em como os pais, o ambiente e a própria criança influenciam no desenvolvimento da estrutura. Alguns autores defendem que, uma vez que a criança tem características de psicose não deflagrada (fora de surto) ela não poderia mais ser neurótica. Outros defendem que se a infância é a fase de estruturação, então sim, é possível perceber certas caraterísticas, e mudar N coisas para que a criança mude de rumo.

Venho estudando a muito tempo sobre a questão das estruturas psicológicas na infância. Sempre me perguntei, assim como muitos autores, se uma vez que a criança é um sujeito em formação, se seria possível detectar psicoses não deflagradas, e mudar essa história para o futuro da criança, ajudando a se tornar neurótica, porque já é sabido que uma vez formado, não há como mudar o caminho. Se o adulto é esquizofrênico, por exemplo, não há como curá-lo, o que dá é pra ajudá-lo a lidar melhor com isso e com o mundo. Mas se é possível mudar isso ainda enquanto criança, porque não tentar? Mas será possível detectar comportamentos, atitudes psíquicas que mostrem em que estrutura a criança está caminhando?

Os autores em geral concordam que é possível perceber sim. É possível perceber as crianças diferentes, que tem dificuldades diversas de relacionamento, com o mundo, psíquicas ou não. Mas discordam na possibilidade de mudar essas características enquanto elas ainda não estão formadas em definitivo.

Muitas pesquisas vêm sendo feitas, mostrando que muitas histórias mudaram sim. Muitos sujeitos mudaram o caminho de formação de sua estrutura, uma vez feito um trabalho analítico em conjunto com os pais. No livro As psicoses não-decididas da infância: um estudo psicanalítico de Leda Mariza Fischer Bernardino, a autora trabalha exatamente dessa questão, como a criança vai se tornar uma coisa ou outra. Isso não depende só dela. Na primeira infância, depende muito de como ela é, olhada, cuidada e tratada pelos pais, principalmente pela mãe. O pai tem grande importância também no momento da passagem pelo complexo de édipo. Todos esses momentos vão definindo a estrutura da criança, e por isso é possível estarmos atentos a esses momentos, para poder agir ai,  de modo a facilitar a relação da criança com esses pais, consigo mesma e com o mundo. “Assim, uma criança não é sem o que é dito dela, não sendo somente o que é dito dela. O que é dito da criança comporta muito mais do que o que se quer dizer. O que é dito dela também diz menos do que ela é.

Se a psicose na infância ainda é um tempo em definição,  se é só uma potencialidade do que pode vir a ser, ela poderia ser curável. (Tenho muito cuidado quando uso a palavra cura em psicanálise, porque a cura aqui usada em nada tem a ver com a cura medica, biológica. Mas em um outro sentido muito distante disso. Para entender melhor sobre o que é cura em psicanálise, leiam A psicanálise cura? de Roberto Girola.)

Para Lacan, a psicose se caracteriza pela inscrição do paterno, o-Nome-do-Pai. Assim, essa não inscrição seria então definitiva? Lacan também fala da existência das psicoses não deflagradas, que seria o estado anterior a uma psicose propriamente dita. Ele chega a dizer que só é possível perceber uma psicose não deflagrada após um surto psicótico, o que já seria tarde. Assim os psicanalistas lacanianos se dividem basicamente em dois grupos: os que acreditam que a psicose não tem cura, seja ela percebida na infância ou na fase adulta; e há os que acreditam que na analise da criança, ainda em fase de desenvolvimento e ainda passando pela castração, é possível mudar essa história.

Eu particularmenre acho que é possível mudar o rumo da história da criança em formaçao sim. E você?


Para ler também: Considerações sobre as especificidades na estruturação da psicose do adulto e da infância de Shnaider Alves Santos

Psicóloga é o cacete!

Estava pensando em escrever um texto sobre o bafafá da louca que se diz psicóloga que cura gays. Sim, louca, porque querendo “curar” gays, psicóloga não é. Não vou nem entrar no “curar”. Mas hoje li o texto do Jean Willys, do blog dele, e percebi que ali está tudo o que eu queria dizer, sem tirar nem por. Então acho que todos DEVEM ler, uma opinião realmente pertinente sobre o assunto.

http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=167&postId=18400&permalink=true

Carta aberta a Rozângela Justino, a psicóloga que afirma curar a homossexualidade

Enquanto a ampla maioria dos homossexuais (principalmente dos gays) se diverte em baladas e em paraísos artificiais, alienada das sérias questões político-sociais que envolvem o coletivo do qual faz parte, uma onda neoconservadora contra lésbicas e gays tem se levantado sorrateira e silenciosamente na mesma proporção do crescimento das paradas do orgulho gay. A mais recente expressão desta onda é a “psicóloga” Rozângela Justino, que está nas páginas amarelas de Veja desta semana. Há algum tempo ela vem fazendo barulho. A princípio, decidi ignorá-la por não querer gastar minhas poucas velas com um defunto tão barato. Porém, como os meios de comunicação vêm dando espaço para ela, ainda que para questioná-la, decidi escrever-lhe uma carta aberta:

Rozângela Justino, eu não a conheço pessoalmente e não faço a menor questão de conhecê-la. Mas, como a senhora fez ataques públicos ao coletivo do qual faço parte, logo, a mim, por meio da revista Veja, eu sou obrigado a responder aos mesmos também de forma pública. Vou começar pela comparação que a senhora fez entre militância gay e Nazismo. Ou a senhora é cínica ou é absolutamente ignorante acerca do mal que o Nazismo causou aos homossexuais. Prefiro apostar que a senhora seja cínica, uma vez que sua referência ao Nazismo e o esforço em associá-lo ao movimento homossexual são tentativas canhestras de conquistar a opinião pública, já que a senhora sabe que, no imaginário popular, o Nazismo se confunde com o mal. Não, minha cara, a militância gay não é Nazismo.

Se há algum nazista em questão, este é a senhora. Seus comentários referentes à homossexualidade materializam um moralismo e um puritanismo odioso em relação à sexualidade e a modos de vida gay. Logo, seus comentários são bem parecidos com o discurso dos detentores da ordem moral e social e dos apóstolos da religião, da família tradicional e da opressão às mulheres e aos homossexuais. Ou seja, seus comentários são bem parecidos com o discurso das “direitas” religiosas e com o discurso das demais “direitas” (entenda por “direita” os representantes do pensamento e/ou do movimento político que se afina com “restaurações” conservadoras, nacionalismos e fascismos). E qual o discurso das “direitas” religiosas? Ora, aquele que expressa um horror em relação aos homossexuais e certo nojo pela “promiscuidade sexual”, independente de qual seja a orientação sexual do “promíscuo” – um discurso que esteve presente no Nazismo (sim, a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo e os fascismos se expandiram e fascinaram multidões também porque denunciaram as cidades grandes como o lugar dos excessos sexuais dos gays e lésbicas e, logo, como espaço de corrupção de corpos e almas; a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo era uma empresa de “purificação” não só racial, mas, também sexual). Portanto, expressão do Nazismo ou retorno ao mesmo são suas idéias. Não queira convencer os ingênuos do contrário!

É possível que os oprimidos se identifiquem com a ideologia de seus opressores mesmo sem terem consciência disso. É por isso que podem existir negros racistas e homossexuais moralistas. E é por isso também, minha sé possível, que muitos homossexuais que não resistem às pressões e violências diversas impostas pela ordem em que vivemos tenham procurado seu “consultório” em busca de “cura” para a homossexualidade. A este comportamento nós chamamos de homofobia internalizada. Se a senhora fosse uma psicóloga competente e ética, saberia que os objetivos de uma terapia psicológica não podem ser definidos em termos de mudanças de comportamento do paciente. A cura no sentido de restabelecimento do estado anterior a uma doença é um privilégio da medicina e só existe para patologias provocadas por vírus, bactérias ou fungos ou por disfunções orgânicas e hormonais ou, ainda, para certos tipos de câncer. Homossexualidade não é doença, logo, não precisa de cura.

Sabe, Rozângela, faltam-lhe argumentos. Vocês, fanáticos fundamentalistas ou cínicos exploradores da fé e ignorância alheias, nunca têm argumentos consistentes além do dogmatismo. Seu bacharelado em Psicologia obtido no Centro Universitário Celso Lisboa de nada lhe serviu ou serve já que você recorre a “verdades” que contrariam os princípios das ciências, inclusive daquela que é a base de seu curso, a Psicologia. Aliás, a qual escola ou corrente teórica da Psicologia a senhora está associada? A senhora não diz, por quê? Ora, porque o que a senhora faz não é Psicologia, mas, doutrinação religiosa.

Chega a ser risível sua referência a Michel Foucault porque está claro que a senhora nem sua fonte – Claudemiro Soares – compreenderam o pensamento do filósofo francês, que morreria de infarto, se vivo estivesse, ao ver seu pensamento articulado por uma fascista psicótica (sim, qualquer psiquiatra concordará comigo de que sua crença de que recebeu um chamado de Deus por meio do disco de Chico Buarque é sintoma de um funcionamento mental psicótico, em que a senhora toma, como concretos ou reais, elementos apresentados por sua percepção; o chamado divino a que a senhora se refere não é efetivamente real, concreto, mas, a senhora o toma como tal assim como o fazem os psicóticos com seus delírios e alucinações). Sua referência a Focault macula um pensamento muito mais complexo e distante de suas posturas neoconservadoras e quer, por meio de uma aparente ilustração acadêmica, intimidar feministas e homossexuais orgulhosos de sua orientação a se calarem para não questionar o mundo comum no qual devemos viver.

O que eu posso lhe dizer – a partir das contribuições de Freud, Melanie Klein, Lacan, Foucault, Julia Kristeva, Didier Eribon, dos antropólogos e até dos psiquiatras, contribuições que você não deveria desprezar ou ignorar, já que se diz “psicóloga” – o que eu posso lhe dizer é que os instintos sexuais são naturais, mas, a sexualidade (incluindo, aí, as identidades sexuais) é cultural. Em se tratando de nós, humanos civilizados, pouca coisa em nossa subjetividade (caráter; “alma”; aquilo que nos faz sujeitos) é natural (vem da natureza), pois, ainda na barriga de nossas mães, recebemos o que ele chama de “banho de linguagem”. Desde recém-nascidos, começamos a ser forjados pela cultura. Uma identidade sexual é estruturada de maneira complexa e envolve muitos elementos: desde as experiências de prazer e desprazer na mais terra infância em relação aos pais ou a quem os represente até representações culturais (a maneira como as práticas sexuais aparecem e são qualificadas em tratados científicos; livros religiosos e didáticos; fotos: filmes; propagandas: novelas e etc.), passando por fatores biológicos. A identidade sexual não se confunde necessariamente com a prática sexual. Esta pode ser um componente da identidade sexual, que diz respeito mais a pertencimento; a um “lugar” no mundo. Deu pra entender?

Veja bem, Rozângela, se a senhora continuar defendendo que o sexo só serve à procriação e, por isso, a homossexualidade é antinatural, eu te sugiro que abra mão o cenário onde você costuma fazer sexo (seu quarto e cama confortáveis) se é que a senhora faz sexo, e vá transar no mato como o fazem os animais; aí, sim, a senhora estará de acordo com o que é “natural”. Sugiro que, por extensão, a senhora abra mão de todas as conquistas da cultura: habitação, educação, hábitos alimentares, meios de comunicação, tecnologias, regras de higiene, modos de festejar, artes e beijo na boca, sim, pois, a natureza fez a boca para comer e não para beijar. Abra mão da instituição “família” por que ela também é um fruto da cultura e não da natureza (nunca vi uma cadela de véu e grinalda nem ela ser fiel a um só cão até que a morte os separe; e, se não vi, é porque os cães e cadelas agem conforme a natureza, enquanto mulheres e homens agem conforme a cultura).

E saiba que o entendimento do que é “família” muda no tempo e no espaço. Ou a senhora nunca ouviu falar de que, no Oriente Médio, um homem pode ter dezenas de esposas ao mesmo tempo e contar com a proteção do estado e com a bênção divina? Parece que não… Então, faça isso e aí, sim, a senhora será coerente com o que prega. Se não o fizer, é só reconhecer que é uma fundamentalista fanática, psicótica e incapaz de questionar aquilo que te ensinaram como “verdade” e, por isso mesmo, causadora de infelicidade para si e para os homossexuais que acredita curar. Sem mais,

Jean Wyllys

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