Mês: julho 2009

Gêneros

A Psicanálise não é a ciência do homem, porque o homem não é um objeto. A Psicanálise trata do objeto ao qual o sujeito se reduz, mas não de uma ciência do objeto.

Falando de objetos, como uma mulher é escolhida por um homem? Eleita pelo desejo, pelo amor ou pelo gozo? C. Soler defende que ela é eleita pela função do inconsciente. Uma mulher é a realização do inconsciente, ela faz passar do simbólico ao real um termo do inconsciente. Isso não tem nada a ver se ela agrada ou não, se desfruta o não. Por isso Lacan já dizia que julgamos um homem por sua mulher, e a recíproca não é verdadeira.

Para o homem, a mulher é um sintoma, eleita pelo gozo, e é colocada em afinidade com o inconsciente do sujeito. Portanto na relação com a mulher, o homem encontra o objeto a, o mais-de-gozar. Ela é o seu próprio inconsciente, e serve para o homem gozar do seu próprio inconsciente. Na maioria das vezes serve de puta, no sentido dê servir de objeto que satisfaz o gozo, e não o amor. A vida amorosa, por outro lado, está no nível da castração, pois desde o momento em que um homem ama ele está na falta, ele não tem. (O homem obsessivo não fica com a mulher que deseja, fica com a mulher escolhida mentalmente. Por que ele não suporta a que deseja, é demais pra ele. Tem medo de ser atravessado pelo fantasma).

As mulheres, por sua vez, são conciliadoras, estão prontas para fazer concessões para um homem: de seu corpo, seus bens, sua alma, seu fantasma. Esses empréstimos deixam a parte, para a mulher, seus próprios fantasmas. Ela não é mestre de seu próprio fantasma, é mais fácil ser mestre do Outro. Ela tenta responder a pergunta ‘quem sou’ não pelo seu inconsciente, mas pelo inconsciente do homem.

O que é um homem para uma mulher? Pode se responder que o homem é o pai? O pai nomeado, o pai castrado, ou pai do gozo? Que pai? O homem pode também ser uma criança para a mulher. E assim ela lhe dá seu amor maternal, mas isso só traz paz e não paixão.

Para J. Lacan, o homem para a mulher é uma devastação. É uma redução do ser do sujeito ao ser do sintoma do que é para o Outro. Toda menina sabe que está destinada a ser possuída, porque são destinadas ao lugar de objeto. Por isso a mulher na relação com seu parceiro se presta ao lugar de objeto, visando ‘a hora da verdade’, que é o momento do fading do parceiro. Porque a mulher não sofre de ter, sofre de ser. Esse sacrifício implica em um mais-de-gozar. A mulher goza do sacrifício em si mesma, ela goza da privação.

A mulher tem um gozo a mais que o homem (ser mãe), por isso ela se caracteriza por um menos-de-falta, e não um mais-de-falta como os homens. No caso das histéricas, há o culto da falta, o desejo insatisfeito, que coincide com o gozo. A mulher é ultrapassada pelo gozo. O faltar um penis não se constitui um menos, e sim um mais, mais-de-gozo. Porem é um mais que equivale a um menos, menos de identidade. O gozo Outro faz uma mulher Outra.

O gozo masculino identifica o sujeito, mostra quem é, que valor tem para si próprio e seus parceiros. É uma afirmação narcísica de si mesmo. O gozo feminino, ao contrário, não identifica o sujeito, ultrapassa-o. Elas não se identificam sua feminilidade pelos orgasmos, por isso se esforçam para se identificar através do amor de um homem. A mulher exige ser única, espera que o amor do homem dê a ela o valor fálico, esse sim identificatório. Ela é sempre mulher, amante, musa de um homem.

Apesar de exigir ser amada como única, o gozo que o homem tem de uma mulher a divide. Porque o gozo que ele toma dela não a completa. O gozo que a divide, a deixa só. Aquilo que divide não completa, causa o desejo. O gozo do homem por ela causa seu desejo por ela, assim, o nível do gozo dela é o que ameaça o sujeito. No homem é diferente porque ele deseja A Mulher, e o fato de ela não existir não impede que ele a deseje. Todo homem, como é todo, deseja A Mulher, mas só pode encontrar uma, não A Mulher, porque ela não existe. Ele se engana, encontra uma, na verdade seu fantasma ou seu sintoma.

Para a mulher falta um impossível. Encontrar O Homem é possível, ele existe, mas só acontece na psicose. Todas elas desejam encontrar O Homem, aquele que faria delas A Mulher. Mas isso é loucura. Então isso não acontece porque é impossível, ou porque ela se interdita. Assim, no lugar dO Homem, ela coloca um homem, e está pronta para sacrificar tudo pelo amor dele. Na falha em ser A Mulher, na falha em ser louca, ela pelo menos deseja ser, para um homem, aquela que o permite satisfazer seu fantasma. E essa posição é sintomática, porque ela é suplente na relação da falta. Por isso a exigência de amor parece satisfeita, mas isso não dura.

A análise, na mulher e no homem vai trabalhar com a demanda. Já que não dá pra mudar nossa estrutura e nosso inconsciente, muda-se a demanda. No homem, mudar a demanda não necessariamente toca o sintoma, mas na mulher a demanda é o sintoma. A análise pode levar a mulher a parar de reprovar no homem a não satisfação da própria loucura da loucura de sonhar com um Homem. E ainda pode levar a mulher a ceder de aceitar o impossível da estrutura, aceitar ser somente um sintoma para o outro, e isso cessa a recriminação, que dá lugar justamente ao amor. Mas está claro que cada caso é um caso.

O homem heterossexual coloca uma mulher equivalente ao objeto a na relação de gozo, no lugar em que A mulher não existe. O homem celibatário (homem homossexual) evita A Mulher barrada e coloca no lugar dela um ou vários homens. O falo faz função de objeto, é a relação de fora-do-sexo.

O homossexual adora exaltar a posição feminina, coloca a mulher como uma imagem fálica. Ela é servente do ideal feminino e do gozo feminino. Pode se fazer analogia com o perverso, que se faz instrumento do gozo do Outro. A mulher homossexual rivaliza com o homem como causa do gozo feminino. A relação homossexual feminina implica um terceiro, o homem, algo como ‘veja o que é amar’, isso dito para o homem.

Na análise se trabalha nessa inconsistência do Outro, que afetará o homossexual. Mas isso em nada tem a ver com o seu gosto erótico. Ai está a confusão de que se pode “curar” homossexuais.

Outro caso, a mulher só, não é celibatária nem fora-do-sexo. Ela é uma resposta ao não na relação sexual. Uma mulher só encontra O Homem na psicose, mas elas não são loucas de todo. Então, toda mulher só vê a solidão como solução. Elas não dizem isso, dizem que não suportam um homem por perto porque eles enchem o saco. A verdade é que elas não podem suportar um homem pois nenhum deles seria ao-menos-um, com o qual desapareceria o limite. Ela prefere homens que passam e quanto mais houver, maior será a distância deles, e o sonho dO Homem se manterá. A mulher só goza do homem que falta, a sedutora goza do despertar do amor. A mulher só recusa os homens em nome de um sonho de homem.

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Pra saber mais, leia “Variaveis do Fim de Análise” de Collete Soler

Por que julgamos o tempo todo?

Quando começamos a estudar psicologia, uma das primeiras lições é que não devemos julgar nossos pacientes. Não nos cabe julgar se o que ele faz é certo ou errado, melhor ou pior, até porque nossos parâmetros podem ser completamente diferentes do deles. Para julgar, partimos da nossa realidade, da nossa criação, da nossa moral, e como isso tudo varia muito de pessoa pra pessoa, ninguém melhor do que o próprio paciente para ser juiz de sua vida.

Mas a realidade é outra. O habito de julgar está tão enraizado nas pessoas, que elas fazem isso o tempo todo. Em nenhum momento se para pensar que nossa realidade é única, portanto as outras pessoas podem ser completamente diferentes daquilo que passam ser. Então a gente julga o tempo todo: julgamos a gostosa que passa na rua porque ela está aparecendo demais; julgamos a religiosa porque ela é fanática demais; julgamos as feministas porque elas devem ser mulheres mal amadas; enfim, julgar se tornou uma coisa tão trivial e fácil, que a gente faz o tempo todo, sem perceber.

Julgar é fácil. A gente analisa a vida e as escolhas dos outros baseados na nossa história, nas nossas escolhas. Difícil é parar para tentar entender as escolhas dos outros baseados na história de vida deles. Se colocar no lugar do outro e tentar entender porque cada um escolhe o que fazer com sua vida, isso é complicado porque exige que nos retiremos do conforto da nossa vida para tentar entender outra realidade completamente diferente da nossa. É fácil achar semelhanças, difícil é lidar com as diferenças.

No fundo não aceitamos bem as diferenças, sejam elas enormes ou pequenos detalhes. É muito difícil tentar entender porque o diferente no outro mexe comigo, me ataca, me afronta, me retira do conforto do meu lugar. E esse é um dos objetivos da análise. Não estamos lá para julgar, estamos lá para tentar entender de onde partem as escolhas de um sujeito, por que e como aquilo o afeta diariamente. Mas o mesmo vale para o convívio em sociedade. Se as escolhas de uma pessoa me afrontam, me incomodam a ponto de eu sair apontando dedos e julgando, então está na hora de me perguntar o que em mim aquilo está afetando. É só quando voltamos o olhar para o nosso próprio umbigo que começamos a ser um pouco mais tolerantes, e um pouco mais abertos as diferenças. Quando a gente tem muita certeza e julga demais, estamos no caminho errado. Quando a gente começa a ter mais duvidas, quando começamos a ser mais ponderados, isso é um sinal de empatia.

Die Another Day

O número de pessoas que tenta se matar, todo dia, é enorme. A maioria dessas pessoas acaba indo parar em PS, com médicos plantonistas e Clínicos Gerais despreparados. E ai é que a coisa piora.

Na faculdade de medicina, nos cursos de enfermagem e auxiliar de enfermagem, a disciplina psicologia parece só ainda estar presente por insistência dos conselhos de Psicologia espalhados pelo Brasil. A verdade é que 99% dos estudantes da área de saúde hospitalar ou não entendem ou não gostam de estudar “as coisas da psique”. O mais perto que chegam dessa área são aqueles que vão para a psiquiatria ou para neurociências. Mas quem está no PS para receber esses muitos depressivos que chegam ao hospital, depois de uma tentativa de suicídio, estão longe das especialidades acima.

Por outro lado, temos muitos tipos de suicidas, e nem que eu quisesse poderia falar de todos eles. Mas, basicamente, os de primeira viagem são os que costumam ir parar no PS. Esses depressivos estão tentando se matar, mas ainda não sabem bem como ou por que. Então eles tentam aquelas coisas “famosas”, como beber remédios, cortar os pulsos, e afins. Em geral dá errado, porque eles não morrem, e vão parar no hospital, onde são recebidos pelo pessoal que eu falei no parágrafo acima. Esse “pessoal” tem na cabeça que gente depressiva é gente que não tem mais o que fazer, e o correto é fazê-los sofrer bastante, para que eles parem de encher a fila do hospital, que tem gente doente “de verdade”, com “problemas de verdade”, “morrendo de verdade”. Dai todos os funcionários (desde o médico à auxiliar) tratam o depressivo da pior forma possível: se for fazer lavagem, usam o tubo mais grosso, se tiver que fazer qualquer procedimento, fazem da forma mais dolorida. Enfim, fazem de tudo para o depressivo sofrer bastante, pensando que isso vai resolver alguma coisa.

Não quero aqui crucificar ninguém! Eu realmente acho que as pessoas que fazem isso, no hospital, acreditam ajudar o depressivo. E por outro lado o depressivo passa por questões que são realmente difíceis para uma pessoa, que não tem um pouco mais de conhecimento em psicologia, entender. Então qual a solução?

Em primeiro lugar, vale dizer tudo isso, e passar adiante. Tudo isso que vocês, pessoal do hospital, fazem com o depressivo, não adianta. Só vai ensinar pra ele que, numa próxima tentativa de suicídio, ele faça direito. Dali do hospital ele vai sair 99% das vezes se sentindo pior ainda, e vai então fazer o que não fez antes: estudar como se matar direito. Vai entrar na internet, em sites que ensinam como se matar, sem erro, e vai conseguir o que não conseguiu das primeiras vezes. E mesmo que ele não faça isso, mesmo que ele não tenha tanta coragem assim para levar a fundo um suicídio, no mínimo vai voltar pra casa e continuar pensando nisso, se sentindo mal, e mais depressivo.

Outro caso que em geral acontece, é que quando o depressivo vai ao PS, e ainda não chegou ao ponto de tentar o suicídio, ele dá de cara com um médico, que rapidamente lhe prescreve um antidepressivo. Em alguns casos o remédio serve, o paciente fica então anestesiado pelo efeito do remédio, e só joga o problema mais pra frente, que é quando o remédio acabar. Das duas uma: ou ele fica viciado no remédio, ou vai ficar mais deprimido ainda depois que o remédio acabar. Uma outra hipótese é que o paciente não esteja simplesmente deprimido, pode ser bipolar, e o antidepressivo prescrito pelo médico só vai piorar sua situação, acelerando a depressão ou mania.

Resumindo: depressivo que vai parar no hospital em 99% dos casos tá fudido. E obviamente os hospitais não estão preparados pra receber “doentes da alma” no hospital. Então, qual solução?

…

Para ler:

Modernidade líquida de Z. Bauman

Mais do mesmo

A psicologia, colocando-se como ciência que estuda o comportamento humano, (…) apoia-se muito numa postura pragmática e experimentalista. (…) O psicólogo se investe da posição de mestre, fazendo-se dono de teorias e técnicas que lhe permitam um saber a respeito do que ocorre com o paciente, e de qual melhor forma de avaliar seus sofrimentos.

A postura do psicanalista é bastante diversa. Trata-se de criar uma situação de escuta que permite remeter o sujeito à sua verdade, à sua palavra. O sujeito da psicanálise não é o sujeito biológico ou epistêmico, mas sim o sujeito do inconsciente. Trata-se, então, para o psicanalista, de dirigir o tratamento numa práxis que permita a emergência desse sujeito do inconsciente. (…) O enfoque está na subjetividade, na singularidade do sujeito. (…) É a clínica do particular.

Psicanálise – Introduçao à praxis – Freud e Lacan

Coord. Clara Regina Rappaport

A última bolacha do pacote

Uma coisa que me irrita no meio acadêmico é a arrogância dos cientistas, pesquisadores e professores, que varia de acordo com o tempo e conhecimento que eles têm sobre de um assunto. Em geral, quanto mais estudamos, mais percebemos o quão pouco sabemos de um assunto. Por isso acho que a academia está infestada de pessoas que acham ter encontrado a resposta para tudo.

Mas não é só na academia que temos esse problema. Em todas as profissões encontramos aquelas pessoas que pensam ter o poder de resolver ou responder qualquer questão colocada. É uma pretensão de já ter chegado num ponto onde se sabe tudo, e se não sabe, diminui a importância do assunto.

Quando discuto com as pessoas, diversos assuntos, e percebo que estou discutindo com pessoas assim, fechadas no seu mundo de certezas, perco logo o interesse em discutir ou defender meus argumentos. Uma discussão serve para abrir novos caminhos e possibilidades naqueles que discutem, e não para alguém sair ganhando.

A Psicanálise não tem essa pretensão ingênua de saber tudo e de poder responder tudo. Isso é impossível, achar que uma ciência pode achar as respostas para todas as perguntas do mundo. O que a gente acaba achando são mais e mais perguntas, e algumas respostas. Por isso ciências como a neurociência, tão em moda nesse momento, me irritam, porque acham que todas as respostas estão no lado xyz do cérebro. É uma pretensão achar que um ramo de conhecimento humano possa responder questões tão amplas, tão abrangentes da nossa existência.

A Psicanálise não vai por esse caminho, e sustenta essa postura até hoje. Ter a coragem de seguir por esse caminho não é fácil, é escutar o tempo todo que não é válido, que não é pesquisa, que não mostra resultados, que é abstrato demais, etc. Rejeitar modelos prontos e aceitos pela sociedade e pela academia, já que eles não se mostram válidos em todos os casos, é um desafio constante. Mas, se propomos tudo isso, é porque queremos ir de fato a fundo nos temas, nas investigações, que, como falei anteriormente, geram mais e mais perguntas do que respostas.

Há os que dizem que para pesquisar de verdade é preciso deixar a academia. Hoje em dia a academia se vendeu a turbilhões de regras que mais fazem os pesquisadores e os temas de pesquisa entrar numa massa de concreto, tudo é igual, tudo caminha para o mesmo. Poucos são aqueles que conseguem se desviar desse caminho para trilhar novos desafios, já que isso dá trabalho demais.

É muito fácil se esconder atrás de um título, de uma pesquisa ultrapassada, de uma instituição, e achar que tudo isso te dá direito de fechar os olhos para a evolução, para as inquietações e perguntas constantes da sociedade e das pessoas. Difícil é se atualizar, estar o tempo todo questionando a si mesmo, aos outros, as conclusões de pesquisa e a verdades contestáveis. Principalmente num campo onde não há certo e errado, tudo pode mudar, o que vale pra um, não necessariamente vale para todos.

Se você acha que sabe tudo, é melhor pensar um pouco mais. Se você acha que têm todas as respostas para todas as questões, que bom para você.

Off topic: Sempre achei essa coisa toda de vampiros chata, e a trilogia Crepúsculo pior ainda. A única coisa boa foi a trilha Sonora do primeiro filme. Mas, faço das palavras do @utops as minhas > http://www.utops.com.br/do-crepusculo-da-literatura-da-cinematografia-dos-criterios/

Pais e Filhos

Eu estava vendo um filme, e inspirada por ele, e por uma discussão no twitter, decidi fazer este texto. Provavelmente será um texto incompleto, porque já assumi a postura de incompletude, no sentido lacaniano de que sempre falta algo a se dizer, a se estudar, a se discutir.

O filme se chama “Mommas Man” http://www.imdb.com/title/tt1122599/ , muito bem resenhado aqui http://cinerama.blogs.sapo.pt/200806.html . Conta a história de um homem casado, pai de família, que vai visitar os pais, e não volta mais para casa.

A discussão ocorreu esta noite no twitter, iniciada por esse tema do @DoisEspressos http://doisespressos.wordpress.com/2009/07/16/qualquer-pai-sabe-o-que-e-melhor-pros-filhos/.

Outro filme que marca esta discussão é o I am Sam, http://www.imdb.com/title/tt0277027/ , a história de um Deficiente Mental que têm uma filha, e ao fazer sete anos o Conselho Tutelar decide retirá-la do lar por considerar o pai incapaz de cuidar dela.

O que é ser pai? Ser responsável por uma criança, ter responsabilidades diversas, entre elas a de assegurar o bem estar dessa criança no mundo. Dar educação, protegê-la de perigos, amá-la e respeitá-la incondicionalmente.

Como já falaram muitos psicólogos, os pais (ou criadores da criança) exercem grande influência sobre ela. Que influência? Não sabemos ao certo. Há crianças que se tornam quase cópias de seus pais, outras que se tornam seus opostos extremos. Então, como saber que influência daremos, e o que é certo ensinar aos nossos filhos? No geral, fazemos aquilo que achamos correto. Ensinamos valores, regras e leis que correspondem a aquilo que particularmente acreditamos. Ensinamos também as leis do local onde vivemos para que isso facilite a vida em sociedade da criança. Mas o fato é que, dentro de nossas casas, podemos ensinar e influenciar nossos filhos da forma como acharmos melhor.

Ai temos dois problemas: 1. Quando não concordamos com as regras morais da sociedade que vivemos, e desejamos fazer algo diferente. Por exemplo, se não queremos vacinar nossos filhos, ou mesmo educá-los em casa, podemos até ser presos, acusado de mil crimes contra a criança. Isso é correto? Eu particularmente não acho. Ou também, no caso do filme, quando querem tirar uma criança de uma família (que, de acordo com a lei, não consegue cuidar da criança) e a colocam num orfanato em que ela vai ser menos cuidada ainda. 2. Quando os pais usam de seu poder nos filhos para ensinar valores obviamente tortos, como os nazistas, os preconceituosos, os ladrões. Outro dia apareceu na internet um vídeo de um pai ensinando seu filho de menos de três anos a roubar. E ai a sociedade se vê no direito de interferir e tirar essa criança dessa família.

Mas a questão está no fato de que nem sempre as coisas são tão claras assim. Em casos extremos, como esses citados acima, fica claro e fácil distinguir quando a sociedade deve tomar partido da criança e agir. Mas e quando não é possível saber essa diferença assim tão claramente? E quando o que achamos ser melhor para a criança pode não ser? Já ouvimos muitos casos em que a intervenção da sociedade só piorou a história da criança. Então, como agir nesses casos?

Escuto histórias envolvendo o Conselho tutelar quase todo mês. Em uma delas, na TV, duas crianças morreram, depois de procurar o Conselho mais de três vezes, para dizer que seus pais os espancavam. O conselho não deu atenção, e as crianças finalmente morreram espancadas pelos pais. Em outros casos o conselho tira a criança dos pais, pois esta não está indo a escola, já que tem que ajudar a mãe  solteira a criar os irmãos. Há ainda o caso do juiz que deu a guarda de uma criança para as tias, e não para o pai (depois que a mãe faleceu), e essa tia espancava a criança todos os dias. Então, entramos numa questão mais profunda, que é como dar e para quem dar o poder de decidir quando e como interferir na relação pais-filho. E para fazer parte do Conselho tutelar o processo chega a dar vergonha pra quem estudar a vida toda psicologia, pedagogia, ou qualquer ciência social e humana. A mesma coisa para os Juizes, muitas vezes despreparados para lidar com seres humanos, aplicam regras e leis sem analisar cada caso, e tudo isso que o tempo todo se vê nos noticiários.

Devemos proteger as crianças, mas já dizia Winiccot que proteger demais também faz mal. Há males que vem pro bem sim, pois a criança cria calos, aprende a se proteger, aprende o que é melhor pra ela, aprende a ser independente. Ninguém melhor para proteger uma criança do que ela mesma, e pra isso ela precisa ir aprendendo aos poucos. Quantos adultos sofrem por não ter tido um contato “real” com a vida, pois os pais sempre se antecipavam, protegiam, escondiam a realidade, e depois esses adultos sofrem para viver suas vidas e a dura realidade que é estar vivo. Se partirmos do principio que todo pai traumatiza seus filhos, o que é necessário e natural, quando esse “trauma” passa dos limites e devemos atuar para o bem da criança? A linha que divide essas realidades é tênue, e pode variar de acordo com quem analisar a situação. Então como delegar essa posição a terceiros? Como colocar a vida de uma família nas mãos de outra pessoa, que em muitos casos não é formada e preparada para isso?

Tendemos a analisar as situações de acordo com a nossa realidade, e isso pode muitas vezes ser injusto para a realidade dos outros, nem boa nem ruim, somente diferente. É necessário ter limites, regras, leis? Com certeza. A questão é quem vai estabelecer, como vai estabelecer, porque o mundo é muito grande, e as regras tendem a nos diminuir e enquadrar numa mesmice que não é a realidade geral do mundo das pessoas.

O que é correto ou não ensinar aos filhos? De acordo com cada região, cada cultura, cada sociedade, ou mesmo religião, a resposta a essa pergunta varia. Um tema pode ser considerado muito ofensivo para alguns, mas essencial para outros. E há os temais morais, que no geral são considerados banidos mundialmente. Mas a verdade é que existe o livre arbítrio. Uma pessoa pode pensar e falar o que quiser, mesmo que isso ofenda a outros. Dessa forma pode criar seus filhos como bem quiser, contato que siga algumas regras básicas impostas pela sociedade onde está inserido. Por exemplo, no Brasil, que vá a escola, que seja levado ao médico, que tome vacinas.

Quantos adultos culpam seus pais por suas características pessoais, ou mesmo escolhas infelizes que fizeram em suas vidas? Os pais têm culpa de tudo? Os pais são totalmente responsáveis por aquilo que o filho se torna quando cresce? Não, porque em certa altura da vida a pessoa pode fazer escolhas. Ela pode escolher aceitar, ou pode escolher ser diferente. Mesmo um pedófilo, criado por um pai pedófilo, que só sabe amar desse jeito torto, mesmo ele pode escolher tentar se controlar, tentar lutar contra seus instintos mais íntimos. Mas para que ele faça isso, é preciso que ele minimamente saiba que tenha essa opção. Se o adulto não sabe que tem a opção de escolher, ele acabará preso nos desejos de seus pais, e naquilo que ele acha que tem que ser.

Quando se fala em políticas sociais, acho mesmo que temos que criar regras, estabelecer leis, normas, tabus, etc. Mas falando no singular, no um a um defendido pela psicanálise lacaniana, sabemos que é utopia pensar no geral, na massa como todos iguais. E mais ainda, pensando no singular, podemos pegar aquele ser humano mais monstruoso e tentar entender sua história, seus motivos, suas batalhas. Com certeza ele será mais humanizado, mas será que conseguiria ser outra coisa? E o que a sociedade faz com eles? Lava as mãos! É fácil crucificar, difícil é nos perguntarmos que responsabilidade temos, como sociedade, na criação desses monstros. Por isso termino minha reflexão mostrando a importância de sempre voltarmos a nós mesmos a pergunta: No que EU sou responsável pelo que está acontecendo na minha volta? No que eu, quando crio meus filhos, reforço o preconceito? Será que minha postura em relação às leis regras é a mais correta, será que não sou muito irredutível com aquilo que acredito? Se todo mundo se voltasse para si, com certeza viveríamos melhor. Mas é muito mais fácil julgar, apontar dedos, crucificar monstros, sair por ai dizendo o que é certo e o que é errado. Difícil é tentar se colocar no lugar do outro, fazer as pessoas pensarem, e mudar a forma de agir dentro de sua própria casa.

Web Therapy

Com tantas séries abordando as diversas terapias que existem pelo mundo da psicologia, Web Therapy me chamou atenção pelo humor. Com Lisa Kudrow (Friends), e já com a primeira temporada completa, a série fala de uma terapia nada convencional, de apenas 3 minutos, online. E o melhor, é de graça e podemos assistir online.

 

http://www.lstudio.com/

 

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