Mês: junho 2009
Esse é um post que comecei a escrever no mês de junho de 2008 e até hoje não terminei. É um rascunho de post, na verdade. Mas fiquei com dó de apagar, e também fiquei com dó de não continuar. Mas, honestamente, um ano depois, nem me lembro mais o que eu queria com ele. Então vou postar só porque… Só pra não dizer que não fiz nada com ele. Só pra ele não entrar na lista dos textos nunca publicados. Desculpem a cara de texto mal acabado, sem correções gramaticais, e por vezes sem sentido, mas é exatamente isso que ele é, um texto não acabado.
…
Os problemas da identidade se resumem em dois eixos: da polícia, em identificar os culpados e indesejados; da ciência, nos progressos, como o dna, na busca de quem somos no dna; e dos indivíduos que se interrogam cada vez mais sobre sua identidade, por se inserir socialmente estar cada vez mais difícil para os sujeitos.
Na psicanálise o caminho é diferente. A identidade em psicanalise foi por algum tempo não considerado psicanalitico. Mas identidade é uma questão psicanalitica por exelencia. Se interroga o inconsciente, o sujeito do inconsciente, que é um sujeito desconhecido, significado pelas formações iconscientes, mas não sabemos quem e o que é. Desde o inicio em Freud, visava identificar o desejo do sujeito do inconsciente por isso essa questão é sim pertinente a psicanalise.
O cogito cartesiano não diz o que sou, não fala sobre identidade, fala sobre existência. Na sequencia que ele, Descartes se pergunta quem é.
Na psicanálise a questão está no inicio, senão não é psicanalise. Para fazer analise é preciso de um sujeito com sintomas, sintomas que representam um entrave. Portanto a questão latente na entrada é “o que sou enquanto esses sintomas?” Quem está em harmonia com seus sintomas (isso existe hoje?) este sim não tem questionamentos e não vai a analise.
“O que sou” essa é a questão de entrada de analise. O sujeito que vai a analise, conhece sua identidade social, mas o sintoma não está previsto na identidade social, e a analise começa questionando esse sujeito do sintoma, não ha paradoxos. O paradoxo vem depois, o sujeito é convidado a falar, que ele se represente pela fala e esse falar do analisando na verdade se procura o outro, a fala do sujeito do inconsciente. O paradoxo é que aquele que fala não pode fixar identidade pq não se fala sem estrutura da linguagem, e a propria linguagem é impropria para identificar, um significante só se determina em relação a um outro significante. E isso conduz que o significante representa o sujeito. “Vc diz isso, não há como retirar o dito, vc pode até negar o dito, mas não consegue desdizer”. Mas o significante dito so se presenta para outro significante, portanto o sujeito falante não está unificado na cadeia falante. Ele é sempre dois, e até mais que dois. E como unificar a identidade?
Paradoxo: procuramos a identidade com o instrumento improprio. Assim, os psicanalistas insistem no fato: o sujeito enquanto falta de identidade. É um sujeito que fala não identificado. O sujeito é um ser que é evanescente, está sempre em outro lugar. Está sempre correndo atras de uma identidade. Se vê na clinica, o analisante nunca sabe o que é e o que quer, as vezes vagamente tem uma noção que quer, as vezes vagamente tem uma noção do seu gozo. A análise pode dizer isso a ele? É o que ele espera.
Na vida, a questão da identidade também está na criança, no incio. Ela é acolhida no discurso dos pais, familiares, mas tem dois traços importantes: o discurso do Outro transmite prescrições, diz o que ela deveria ser para agradá-los, satisfazer os pais. Mas ao mesmo tempo os pais questionam “quem será que ele vai ser quando crescer?”
A questão da identidade está presente ja ai, desde criança, na forma de uma questão. Portanto na analise, esse ser sem identidade acaba se identificando, é natural. O que é uma identificação? É um substitutir da identidade, na identificação tomamos emprestados do outro caracteristicas que nos identificamos mais ou menos. Tomamos emprestados siginificantes do Outro. As primeiras identificações, imaginarias, de um modo geral nas neuroses são comandadas pela segunda. Pelo Outro, que orienta as identificações imaginarias. Essas identificações do Outro sao as identidades de alienação. Dá uma identidade por emprestimo, e o sujeito sabe disso, isso é o que Lacan chama de eu. Isso começa com o estadio do espelho, e em seguida vai se vestindo com emprestimos dos ideais do outro, do Outro.
As identificações de alienação são conformizantes? Podem ser, mas existem tbém as identificações em oposição ao significante do outro e essas são anti-conformizantes, mas são sempre de alienação.
O sujeito em analise, que se pergunta quem é, o que ele faz com suas identificações na analise? Ele as descobre, em parte, e as enumera. Algumas sao inconscientes e ele as declina. Lacan diz que na analise nos denunciamos essas identificações, percebemos que sao muito mais do Outro do que de si. Por isso a queda dos semblantes na analise, o que resta quando tiramos essas identificações do sujeito? Resta o vazio da questão da identidade, “o que sou”. Somente o vazio. O sujeito barrado. Essa é a resposta da analise , mas não é só isso. A analise nao termina ai com o vazio do sujeito. Onde encontrar o principio da identidade? Se existe uma resposta a essa pergunta, é porque na experiencia não ha só linguagemm e o sujeito nao é todo o individuo, mas o individuo é o corpo, que sustenta o suejito. Ele é um corpo que tem uma imagem, om orgnismo vivo, o proprio lugar e condição de gozo, e é dai que pode vir a resposta.
Qual é a relação do sujeito que está sempre em outro lugar, e do corpo que está sempre presente? Lacan responde hipotetizando que a substancia gozante do individuo é afetada pela linguagem, a linguagem é o operador que tem duplo efeito. Um efeito de sujeito suposto e efeito de modificação do que supomos ser nossas necessidades animais. O mesmo operador é causa do sujeito e do gozo do ser falante.
A linguagem tem duplo efeito sobre o gozo: a perda …
…
É acaba assim, pode? Vai saber como eu ia terminar isso… Enfim, esse texto foi baseado numa palestra que escutei da C. Soler aqui no Brasil, na USP, em julho de 2008.
O livro do antigo (e eterno) super homem me inspirou a voltar a escrever. Cada inconsciente tem seus caminhos… Meu super herói favorito sempre foi o super homem, e até hoje assisto Smallville. Mas não foi só por isso que fiquei inspirada. O livro, “Ainda sou eu”, do C. Reeve mexeu comigo porque me mostrou o heroi que passou a existir nele depois que ele se tornou um deficiente físico.
Não vou contar aqui a história do livro, pois acho que todos deveriam ler. Acompanhar a narrativa da vida de uma pessoa que era “normal” e passou a ser alguém que nem respirar sozinho conseguia, essa narrativa todos precisam ter o prazer de acompanhar. Poderia ficar aqui horas falando sobre isso, porque me toca em outro assunto, das deficiências. Tenho uma teoria que só é inclusivo de verdade, na nossa sociedade, quem é deficiente ou quem tem um em casa. E lendo o livro dele tive mais essa confirmação. Mas essa assunto fica pra outro dia. Estou aqui hoje para falar da importância da narrativa na vida de uma pessoa.
Eu sempre disse que todas as vidas dariam um livro, um filme, uma novela. Porque todas as vidas são interessantes, cada uma na sua unicidade. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais eu escolhi ser psicanalista. Porque toda história, todo paciente é diferente do outro. As histórias podem ter nuances ou situações similares, mas nunca, nunca mesmo são iguais. E por isso são sempre interessantes. Por isso, acredito que a narrativa é importante na vida das pessoas, porque ao falar de si, de suas dificuldades, de tudo que passa, a pessoa consegue nomear suas dores, suas ansiedades, seus desejos, e organizar isso para si mesma. Mas, mas importante do que narrar sua propria história, está em escutar aquilo que narra. E ai entra a importância da psicanálise.
Quando contamos a nossa história, na verdade contamos a nossa versão de uma história. Por isso toda narrativa é uma ficção, porque não há de fato como saber como foram as situações passadas. Cada um que viveu um mesmo momento, anos depois, dias depois, ao recontar esse momento, reconta de formas completamente diferentes, dá até pra pensar que não é a mesma situação! É como se tivessemos dez cameras em focos diferentes numa festa, cada uma filmando uma cena completamente de um angulo diferente da outra, chega nem parecer tudo a mesma festa! Portanto, contamos, narramos a nossa vida por um perspecitiva só nossa, de como nós passamos pela situação x. Na análise, o primeiro passo é criar essa narrativa, dar espaço para o sujeito contar sua história, ou, em outras palavras, criar sua ficção pessoal de si mesmo. Um segundo passo, que vai para além do narrar, é fazer com que o sujeito consigo olhar a sua própria narrativa de outros ângulos, escutar o que diz de si, e perceber que certas coisas podem ser vistas e vividas de outras formas, tudo isso para que ele possa pensar seu presente e seu futuro de uma outra maneira.
Sinto que foi isso que C.Reeves fez em seu livro, e sinto que é isso que muitas pessoas fazem, todo dia, quando contam de si e de suas vidas. Elas tentam entender as dificuldades, e dar um sentido a isso na sua vida. Tentam se organizar, entender o seu passado e seu presente para poder viver melhor um futuro. Não é a toa que entramos em contato com as narrativas desde crianças. Lembram-se como as crianças adoram escutar histórias? E mesmo depois, quando crescemos, quando alguém conta algo de sua vida, adoramos encontrar similiaridades da nossa própria história com a história contada pelo outro, não é mesmo?
Mas a necessidade de criar uma narrativa de si não ocorre para todos. Em geral nos mais velhos, com a proximidade com a morte, que se veêm com tempo para repensar a vida, e, nesse caso, recontar pode significar reviver tudo que se conta. Mas a necessidade de criar uma narrativa também está em todos aqueles que passam por algum momento chocante na vida. Nesse momento, em geral, existe uma mudança de paradigma que balança as certezas das pessoas, fazendo com que elas se apeguem a sua história para descobrir quem são, para achar respostas, Doentes terminais, acidentados, parentes que perderam alguém, enfim pessoas em momentos específicos em que algo deixa de ter sentido. Que, aliás, são os motivos que, em geral, as pessoas procuram uma análise. Na grande maioria dos casos, não se procura uma análise quando tudo está bem.
A Narrativa, já ha algum tempo é campo de pesquisa acadêmica. Há polêmicas quanto a isso, assim como até hoje existem polêmicas quando se fala em Psicanálise no campo acadêmico. Deixando a polêmica de lado, para quem quiser saber um pouco mais sobre isso, recomendo o livro “Narrative Inquiry” organizado por J. Clandinin. Em muito o processo da pesquisa narrativa se assemelha ao processo clínico da psicanálise, mas em outras tantas elas se afastam. Estou conhecendo mais sobre a narrativa e volto quando tiver mais novidades.
…
Acabei de ler o livro do I.Yalom, “Mentiras no divã“, e, apesar de ser uma ficção, toca em pontos importantes do meio psicanalítico. Os psicanalistas devem se remexer em suas tumbas, ou melhor, em seus consultórios, quando leêm, e isso é ótimo! “Esqueça aquela bobagem sobre o paciente não estar pronto para a terapia! É a terapia que não está pronta para o paciente!” Pg. 18